E
este trem da vida ancorado num agosto que não passa, que não quer passar de
modo algum? Concordo, melhor responder direito. Não é o mundo que navega por
trilhos, a confusão é minha.
Sei
o quanto custa manter o queixo erguido, e o universo não tem aliviado. Mas as
águas não evaporam porque os meus miolos possam estar em ebulição. Quando os
pensamentos fervilham, quando estou a mil, mordo os lábios.
Tenho
que sossegar o facho. Preciso relaxar. Antes que estrague o restante do ano, pois
agosto vai acabar, tem que ser logo. Senão quem vai acabar estragando tudo
serei eu.
Como
não me quero podre, com as minhas carnes atraindo moscas, prefiro desconhecer
que rumo tomará o mal-estar.
E
olho a biruta no telhado. Quede os ventos que sumiram?
Sumiram
nada, eu é que estou zureta. Bem zuretinha, que tenho a mente cansada. Preciso viajar.
Sair
sem destino, sem reserva de hotel. A esmo pelo mundo.
Mas
a bússola do meu esgotamento parece com a biruta no telhado, está uma
pasmaceira que dá dó.
A
bruxa deve estar à solta. À solta, e numa boa.
A
bruxa? Pois é. A bruxa que costuma vir me visitar quando estou pilhado, até ela
deu no pé.
Só
de lembrar, suspiro. E solto um suspiro cavernoso, que este mês de cachorro babando
largado é outro agosto triste, comigo sem impedir as contas crescendo como
serralha em chão batido.
Poderia
ser o manjericão da horta na manteiga caseira, que agora recordo a galinha à
pururuca. A boca saliva; a barriga quer o agrado.
Se
as aranhas da cachola tecem verdadeiras as veredas do que me lembro saudoso,
foi em Minas, ali por 2004, 2005.
Uma
vez que era um agosto de férias, justo que seja memorável.
À
beira da represa de Furnas, em Carmo do Rio Claro, bebericando cachaça de
alambique tão saborosa, papando torresmo atrás de outro, não tinha porquê para
querer largar do ócio.
Súbito,
o ambiente ficou diferente. Nenhum passarinho pipilava. As águas do
reservatório deixaram de ondular. A realidade congelada era inexplicável. O
absurdo veio ao mundo sem pedir licença.
Como
nunca passara por aquilo, fiquei impávido.
Vendo-me
arredio, o dono da pousada, enquanto preparava o galo cabidela, perguntou-me se
tinha ouvido um ruído, como se fosse feixe de piaçava varrendo na varanda.
Caramba,
não tinha escutado nada.
Disfarçando
a perplexidade, entre dentes, ele quis saber de mim se também estava assustado
com o narigão verruguento que espiava pela janela escancarada.
Que
nariz?
O
relógio da parede atrás do balcão soou três da tarde, sequer pulei da cadeira. Consegui
manter a altivez, nem precisei lavar a minha cara de macho nem fui urinar. Todavia,
querendo alimentar o suor da testa, bebi outra talagada da pinguinha boa.
Como
sujeito esclarecido, tive de revelar que era bem provável que a urucubaca que
atraíra a bruxa àquele lugar singelo e encantador era minha, e tão somente
minha.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 31 de agosto de 2021.