Bola
em jogo
De algum modo indisposto, talvez abalado
pela segunda-feira que está à espreita, movendo o que não sabe dizer o que
seja, o mané, com cara de bocó comendo mocotó, conforme lhe sugere o opaco da
tela do micro ainda desligado, parece cansado de viver num palco, apropriado às
estripulias bisonhamente paródicas, contudo o espelho só serve mesmo para espalhar
os espetáculos de si.
A verdade, na verdade, é vaidade, só a vaidade,
nada mais que a vaidade, pois, realmente, o resto é realidade.
Puxa, eu mereço. Levemente, desvio o
olhar fechando os olhos.
Pois é, tenho por costume querer o mundo
explicado, aliás muito bem explicadinho, assim, exagerado que sou, entro por
aquela porta, que é a constatação de que as minhas vontades são pífias perante
o caos do acaso, e saio por esta: interpreto-me quando tento interpretar a
realidade.
E interpreto mal, de mal a pior. Perdendo
pelo riso a seriedade do patético, eis-me um pacóvio tagarela, e canastrão por
caras e bocas.
Se minha mente está empacada no escuro
da obscuridade, vou às compras, deixando que a lista da vida me leve pela mão.
De repente? O semáforo inesperado no
meio do meu trajeto.
Cidadezinha pacata, de rua que sobe e a
que desce, ter sinaleiro controlando o trânsito é demonstração de modernidade.
Do farol, alguém grita meu nome, inteiro;
paro, e vejo que é gente amiga, um parceiro velho de escola, pessoa que ajudava
a entender quando usar a tal Máscara de Bhaskara.
Está num carro potente, grandão, um
cheio de portas, com espaço para família toda, inclusive sogra, porque é
cidadão que não esconde ter sogra própria.
Como não ligo pra isso, aceno de volta.
Tocado pelo reconhecimento em plena rua
de minha cidade natal?
Já perdido, com ideias em disparada, entro
no supermercado.
Tentando organizar a cabeça, sigo
funcionalmente cortês a quem me cumprimenta. Querendo arrumar os pensamentos, concordo
que os preços estão uma barbaridade.
Mas, seu Rodrigues.
Todavia, dou de frente com o dono do
possante lá do sinal.
E ele reclama do preço da lasanha,
condena a politicagem que só atrapalha o Planalto, e, timidamente, desculpa-se
pelo LP que jamais foi devolvido.
Que disco? Ora essa, o Disco da Vaca
do Pink Floyd.
Que coisa. Nem me lembrava do
adolescente que vivia para ouvir rock, os dignos representantes do rock europeu,
do rock progressivo inglês, do Pink Floyd do Syd Barrett ao Genesis do Peter
Gabriel.
Caraca, ocorre-me agora: serão daltônicas
as vacas?
Nem sei quando a memória pisca o alerta,
então, digo que o verde é para tocar adiante; o amarelo é pra tirar o pé do
freio; no vermelho, desembesto de vez.
E vem um eco do meu passado me atropelando
sem dó. E tromba comigo numa pinguela, atrás do campinho, onde minhas bolas viviam
caindo.
Como até o coração joga comigo, peguei pavor
aos pântanos.
Alto lá! Sim, senhor, isso já foi.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2021.