domingo, 7 de fevereiro de 2021

Falatório completo

 

Falatório completo

 

Com saudades da minha saúde mais sólida, estava lá, sentado ao balcão naquela espelunca famigeradíssima pela fauna de beberrões profissionais. Como contestador resiliente, eu bebia suco de abacaxi e petiscava uma farta travessa de queijo branco, o tal "minas".

Comia naturalmente apreensivo, olhando nervoso a TV com todas aquelas suas notoriedades bem falantes, dadas ao entendimento das tramas deste formigueiro tão assediado por cigarras.

Temia entender errado o que se noticiava, digo, temia embaralhar o que era dito como notícia de um distante mundo de tramoias, e isso me aborrecia. Estava assim, meio grogue, enfarado, mais ouvindo os meus fantasmas do que aqueles fantoches.

Se bem que, em vez de fantoches, poderiam ser marionetes.

Não separo estas daqueles, não porque padeça o diabo com uma urticária de fundo emocional, ligada ao manejo de arames e condões, é porque destaco o queijo, surpreendente.

E toda surpresa maravilhosa não deve ser desperdiçada. Ou seja, como a azia sempre dá um nó nas minhas tripas, o melhor ambiente para comer não tem nenhum chato no cangote, atazanando.

Mas o mundo não tem tranca de segurança, assim uma banqueta de bar vira cadeirinha de bebê quando o seu ocupante força largar a porção; mais que prejuízo, é insulto.

Com sal e orégano no ponto, a língua queria ficar ocupada com o prazer, só que, aí, apareceu um dos donos da vaidade.

Pintando do nada, veio azarar justamente do meu lado.

E eu lutava com uns pruridos eletivos: se não suava pela paz do mundo, sonhava lambido o prato.

Mesmo desajeitado, o sujeito abriu aquela boca. Escancarou-a.

Bebia, e falava. Bebia, e falava.

Todo borracho, disparou comentar a TV toda.

No que ouvia de lá, rebatia de cá.

Com a grita da vida beirando o caos, o boteco seguia natural; e a minha paciência ia indo pro ralo.

De tanto abacaxi, fui urinar.

Na casinha, pus na conta que iria até o fim.

Reconheço que os fortes cortam pela raiz o desejo exibicionista de quem mostra a dentadura sem olhar a quem.

Finquei a bunda no tamborete. Apelei para a coragem de controlar a saliva. Mostrei-me o satisfeito ꟷ de garganta seca, sorridente.

De fato, tenho pavio curto e fico fulo num pulo se me importunam, impedindo-me de usufruir a coisa boa de ser curtida numa boa.

Pessoa maleável ao destino, não vou praguejar agora porque não vituperei na hora.

Todavia, assumo a cumplicidade, pois aguentei tantas bobagens, disparates em cascata e aquela penca de crimes contra a honra dos ausentes.

Tenho propensão à idiotia, admito. Sob tensão, não canto de galo nem mato os meus vermes interiores com formicida.

Que ideia implicante é esta que não fulmina a mina que não falha?

A pandemia deprime, não suprime a memória.

Então, nem tímido nem cândido, arremato de boca cheia:

ꟷ Com faro pra festa, condenso em mim a nata das ratazanas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de fevereiro de 2021.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Dia da marmita

 

Dia da marmita

 

À espera de outro dia com os aborrecimentos de praxe, louco para dar corda às minhas ilusões bombásticas, que me pegam de surpresa quando acordo pela hora da morte, desliguei meu despertador. Afinal, com a manhã flagrantemente ensolarada, acordei sem tempo de ficar desapontado com a marmota que jura que este verão estarrecedor de minha vidinha ordinária, de brasileiro atrasado nas contas, vai longe.

À espera de que a taxa de juros continue irresistivelmente estável, deixo que virem uma gororoba intragável os boletos passados, os que estão passando e os que hão de passar, porque tomo para mim que devo seguir à risca a dieta festiva de procrastinador contumaz.

À espera da alegria vivaz que me incentive cair na gandaia antes do almoço, vou à farra comprando bugigangas que a minha casa até precisa. Afinal, ando sem tempo para ficar caçando manualmente as muriçocas que vêm se deliciar sugando meu sangue estressado, por isso, sem pestanejar, peço a raquete elétrica hipnotizadora, torcendo para que o treco tenha força de derrubar as visitantes draculinas.

À espera de uma inspiração que me dê uma mãozinha para baixar a fila de leituras interrompidas, pego da pilha em cima da mesa dois livros de uma vez. Porém, sem tempo para entender como é possível que o café tirado na hora permaneça quente mesmo uma hora depois de posto no copo de requeijão com manias de xícara de laca chinesa, quase dou razão ao ócio, que me quer de barrigão para o ar.

À espera de que o mar morto de tédio se abra com algum moisés cheio de graça fazendo a sua mágica antes mesmo que eu acabe de engolir o primeiro pedaço de pãozinho já coberto de patê de sardinha azeitado na maionese meio rançosa, de mês e meio aberta.

Sem tempo para afirmar que aceito a sobra de caráter que me intoxica a mente de cidadão enojado com as políticas sanitárias do mundo livre, jogo paciência no computador enquanto, lá na pia da cozinha, o feijão congelado no pote de sorvete vai ficando comestível.

À espera das varejeiras atraídas pelo meu feijãozinho azedo, pego na ideia negativa de desistir de preparar uma refeição a quem me traz o bife acebolado do meu dia a dia.

Sem tempo para me culpar só de ficar imaginando exausto quem vem me entregar os meus pedidos de comida, corro telefonar. Queria ir mas não vou; queria muito chegar a tempo de oferecer ociosamente o arroz com feijão mais o franguinho frito. Levaria a jato o meu rango, imaginando-o quentinho. Queria que estivesse bom de ser comido na entrega. Mas a realidade toca me beliscar.

À espera da minha quentinha, como quem espera não estragar o que não pode ser estragado, largo o jogo, bebo água, vou-me postar à porta, mas o vento não me antecipa infernal a sua vinda.

Sem tempo para cultivar a flor do juízo, assopro o cartão, esfrego o celular. Genioso, não escapo de pagar a marmita com a espera.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Simples assim

 

Simples assim

 

Era uma noite qualquer, com o calor arretado do verão fazendo do quarto um ambiente asfixiante, incômodo, propício à insônia.

Suando, colado à pele que transpirava. Sem suas horas regulares de sono, estava irritado. Deitado naquela cama, desconfortável com o lençol mais do que úmido, encharcado, pegajoso. Colando o ar que o forrava de escuridão, suava sobre um colchão indiferente.

Imóvel no escuro, não era inerte. Como matéria porosa, orgânica, filtrava a noite pela respiração. Respirava suas dificuldades, opresso; em tamanho desassossego, perturbado pela realidade pesando sobre a sua epiderme. A pele contaminada pelo infortúnio de um verão bem quente, paralisante, modorrento, deprimente.

Como aliviar-se de toda aquela carga?

Ir ao banheiro, lavar o rosto. Molhar a nuca. Puxar cortinas, abrir a janela. Diminuir a transpiração dando livre circulação ao ar. Poderia ligar o ar-condicionado se tivesse um. Deveria ter ventilador de teto sem pensar em conta de luz.

Nem sim nem não? Foi beber água. Bebeu outro copo, e nada.

Não, de modo algum, nada tinha de especial aquela madrugada.

O óbvio dos mistérios impelia a não revelar as maravilhas sórdidas do cotidiano. Pois o cômico e o trágico zombam dos melodramáticos.

Multiuso higienicamente purgante, o sol quara roupa, seca fungo e espanta morcego que vive de frutinhas. Eis o drama: não é dia.

Além da obviedade, objetivamente concreta, da noite brasileira de verão? Era apenas outra noite cálida, própria à estação.

E, de novo, a esperada falta de sono, a mesma perda de apetite, o garfo pálido que mal roçou a salada de alface. Querendo-se sereno, desligou a TV tão logo o jornal acabara, passando de onze e meia. E, para fazer o correto, desligou o celular antes da meia-noite.

Queria, implorava, que os nervos evitassem levá-lo à beira de uma ansiedade generalizada? Mas... Eles eram uns fanfarrões surdos, que não o escutavam suspirante, profundamente suspirante.

Precisava desesperadamente ter vergonha de engolir todo aquele lixo que o mundo enviava sem nenhuma sutileza. Mas qual! Ele tinha a lucidez comprometida pelo fervor dos vorazes.

Era um dever intransferível: tinha de encontrar forças para vomitar os venenos que a vida vinha despejando por aí. De verdade, era hora de tapar a boca.

Talvez por isso a realidade sapateava em seu peito. Pipocando as novidades que lhe ritmavam o fôlego. Magnetizado como consumidor de notícias desconexas, quiçá preocupantes.

Simples, como o insosso não conecta a luz solar com o opaco do suor: a bonança vem depois da tempestade, antes do temporal vem a lufada brumosa.

Ora, se o universo não sabe que é de sua natureza ditar regras, cabe ao cabeçudo desapegar-se das pulgas numa única urinada.

Passivo paspalho parvo?

Não basta ter geladeira, é preciso abarrotá-la de água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2021.

 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Amor de glutão

 

Amor de glutão

 

Burguês indiscreto, comprovando o meu veredito, costumo tornar público que teimo testar minhas deficiências. Com o entusiasmo lírico dos apaixonados, caso a caso, vou me apurando pelos resultados do que busco fazer melhor.

Desejo e gosto do que desejo, pelo que me apraz, só que não vivo apenas do bom e do melhor, ainda que me faça bem querer alcançar o que segue distante.

Distante como um belíssimo amanhã, uma alvorada sublime, pois é isso que me convida a tornar possível o que acho provável que seja plausível, pois conto que seja moldável por minhas mãos humanas o que me transcende.

E, com o produto da minha imaginação e do meu engenho, a cada vez em que me experimento capaz de produzir algo desfrutável, seja na carne dos meus pensamentos que dançam a canção da vida, seja na ideia dos meus ossos cantando o chão do mundo, é com isso que vou na estrada, pelo caminho que vou traçando.

Todavia, quem eu quero enganado?

Há êxitos e há fracassos.

Pelo prazer que me toca produzir, agrupo-os como agradáveis e desagradáveis, úteis e inúteis, alegres e tristes, como se minha ânsia de carimbador dominasse a realidade rotulando-a.

Falhando, insisto em experimentar variações. E torno a fracassar, e não paro. E tento, e falho. Minha falha maior talvez esteja nisso, em não desistir, insistindo, resistindo.

Convenientemente, poderia seguir pedindo justiça aos românticos que veem o que muitos não divisam ver. Pelas fissuras, pelas frestas, pelos vãos, poderia seguir dizendo que vivo para trazer à tona o luar que eles intuem estar aí, logo ali, bem aqui. E posso tais quereres.

Diante do nariz, cobiçado pelos olhos, sentido pelos dedos?

A língua aguça o corte, pelo que sangro, fervo, tempero e reparto.

A boca tem a língua, também tem os dentes; por isso abocanho, mordo, trituro e engulo.

Começo pelo café da manhã, e repito à tarde. Dois copos de água para duas colheres de sopa de café, sem um grão de açúcar. Pronto.

Depois: pro copo de arroz, dois de água; e o fio curto de óleo com a pitadinha de sal. Pronto.

A mistura? Carnes e legumes. Embutidos e hortaliças. À vera.

Sempre assim? Mais ou menos. De acordo com o dinheiro que dá pra atender a vontade. E as vontades são muito variadas, e muitas.

Mas, a caminhada menos turbulenta pede a repetição do testado, aprovado e que faz diferença quando ausente.

Fibras animais e vegetais. Cozidos e crus. Gostos e desgostos.

E tem ovo frito, cozido e poché. Afinal, ovo é ovo.

Se me prendo a só isso?

Aprendi a alegrar minhas rotinas com a musse de limão.

Uma vez que o azedinho tira do sério o radar crítico, fazendo-me comer uma e mais outra e ainda mais uma, tigelinhas e tigelinhas de amor tão gostoso, oba, é pela gula que muito amo.

Vez ou outra, me regalo que não faço mal.

Agora, o presente que se faz urgente?

Possam as pessoas amigas deliciar-se com A festa de Babette.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de janeiro de 2021.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O homem dos pombos

 

O homem dos pombos

 

Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e em tudo quanto é canto, o mundo vive preso a acontecimentos encadeados a eventos que se transformam em fatos quando uma pessoa, até historicamente sem noção do que faz, torna público o testemunho do que viu, ouviu, e, jurando por jurar, afirma não mentir.

Fazendo votos que as pontas soltas não façam cegos os nós, que o registro prossiga.

No entanto, as memórias mais difíceis de serem recuperadas sem um arranhãozinho cosmético que as torne verídicas a toda prova são as inventadas, porque essas são as vividas somente em pensamento, e pensamento custa sair com sabão neutro.

Aqui, e aqui é lugar deveras indefinido, podendo ser uma cama no quarto de um motorista, um assento atrás do motorista num ônibus ou uma privada na garagem dos ônibus. Aí, pasmo como uma folha em branco, o motorista reage à informação de que perdera a folga, pois há muitos colegas isolados por aí, com a covid-19.

E fazendo o quê no banheiro?

Não importa, pois aqui, nesta história em que alguém sem noção não toma parte do relato como testemunha do que não viu ou ouviu, nesta história urbana, há um arranjo de eventos sobre alguém.

No caso, alguém é a mulher dos gatos.

Embora outras localidades prefiram registrar tal personagem como a mulher dos pombos, ou das pombas, optou-se nomeá-la o homem dos pombos por uma única, e muito singular, razão: ela é um senhor de cabeleira grisalha, face enrugada, costas encurvadas e voz, caso fosse ouvida, gravemente roufenha, que sobrevive a uma cidade.

Esta figura, cuja existência não depende em nada da convivência com os cidadãos politizados das residências com água e luz em dia, ela faz que nem liga para toda aquela indiferença; afinal o povo todo tem coisa bem mais importante para cuidar.

O velho, este senhor que está sentado no banco da praça aos pés da igreja mais antiga da cidade, ele provavelmente está aposentado, miseravelmente pobre, e certamente dá jeito de pagar pela cama de solteiro na pensão familiar.

Ou seja, com tantas urgências clamando decisões fundamentais, para que iriam ficar adulando com sentimentalidades um sujeito cuja função nas relações mundanas está mais do que clara?

Fixe-se, portanto, alguns dos seus defeitos.

O primeiro deles, evidentemente, está em compartilhar seu amor à vida dando quirera aos muito humildes habitantes da praça, dando a eles o cuidado da fala mansa, dando-lhes o afeto de sua vinda calma; mesmo ultrajados por suas fezes, embora desprezados pelo barulho, ainda que sejam, e precisamente por serem o que são, pombos.

O homem dos pombos não pede que o respeitem pelo que faz, ele vem depois das dez e volta depois das quatro. Os pombos comem e, tendo acabado de comer, voam. O homem também come chão.

Mas, como conta guiar-se pelo final feliz: enquanto houver quirera, haverá pombos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2021.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Balanço bacaninha

 

Balanço bacaninha

 

Comigo camuflado como cidadão consciente, a ostentar um frasco de álcool gel na pochete docemente aberta à aprovação simpática de outros cidadãos condicionados à consciência comunitária, mesmo em fila indiana; comigo em pé nesta fila infalível do fatídico quinto dia útil que, entra ano e sai ano, mês a mês, dispõe de mim como vassalo do humor variante; comigo a circunstanciar decorativa a máscara, uma vez que os perdigotos seguem inativos atrás da boca retraída; comigo contrariado, que permaneço sequer a um palmo distanciado de minha persona ranzinza, que se reserva o desejo de não me ver vencido por essas contas que insistem em ignorar que até as folhinhas caducam.

Eis que me retrato um ser capaz de retratações precárias, frouxas no rigor, com oscilações orgânicas proporcionais a tamanho e tempo, pois, humano, salivo azedo quando me percebo obrigado a assumir o erro de viver me submetendo às conjunturas, que poderia ter evitado entrar se preservasse pulsante a ideia sensível, que, nas trivialidades do mundo, a realidade em quase nada é lotérica.

Por que me seguirá aborrecível o quinto dia útil de cada mês?

Implicante, não apenas constrangido a observar descumpridas as regras interinas para uma convivência sanitariamente saudável, mas, ainda, porque as datas de vencimento desses meus boletos sabem respeitar os contratos que atrevidamente assinei.

Como a vida vai arrastando quem está no rio da história sem dar conta de que nada a favor da correnteza quando, despercebido de si, não abraça nada com vontade. Quem se deixa afogar vai negando o que nem sabe o que está fazendo, sua trajetória de vida, portanto, vai ficando registrada como fruto do desleixo.

Será sagaz salientar a sacanagem de sacar cansaço do remanso?

Contaminado pelo remorso, improviso sem sarcasmo.

Fera ferida pela facilidade de frustrar felicidades ficando numa fila, curo a minha incúria tentando memorizar o balanço do que deixei de lado por causa da pandemia.

Como prefiro fácil cair no riso, como satisfeito um feijão com arroz temperado com alegrias, as bem vividas e as gostosamente adiadas.

Alegrias adiadas que fazem falta: papear tomando café; atualizar o telefone de gente perdida com a tecnologia.

Alegrias adiadas que acho melhor nem voltar a fazer: comer pastel na feira; sacar dinheiro sem necessidade; esperar ônibus em pontos sem banco nem cobertura.

Alegrias adiadas que viraram melancolia: folhear livros nos sebos; ouvir conversas por aí; aplaudir artistas de rua.

Alegrias adiadas que nem reparei não ter vivido e agora sinto que não fazem falta alguma: comer carpaccio; trocar a noite pelo dia; ir ao dentista.

Alegrias que quero muito deixar logo de viver: ficar trancafiado em casa; acordar cedo; dormir cedo; almoçar e jantar com medo da TV.

Na conta, nada resta zero.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2021.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Medo do caramba

 

Medo do caramba

 

Acorda com a sensação de que o estão observando? Tem medo do espelho ao lavar o rosto? Fica bem confuso quando dizem "pagar na mesma moeda", "caindo pelas tabelas", "morrer na praia"?

Ao que parece, muita gente fica pensativa com a borra do café no fundo do copo; gente que tem sofrido muito de modo irracional.

É lógico, pela pujança da perplexidade, desejaria fugir do assunto. Entretanto, mesmo que me faltem explicações para muitos dos meus atos, quero mais é viver. Até porque, exposto aos paradoxos da vida, encasqueto.

Disposto a fazer o bem mas olhando a quem, numa conversa livre e direta, topo pincelar uns comentários banais sobre o medo atávico. Como não arriscarei palpitar sobre nenhum atavismo tétrico, passo-o a especialistas.

Embora pareça normal temer a própria sombra, temo ficar preso a meus pitacos. Assim, sem procurar absolvições baseadas na ciência, começo pelo medo tradicional de palhaços.

Tal pavor pode ser mantido indo ao circo; refreando-se, entretanto, o impulso de querer fazer parte do número da caranga que se desfaz no picadeiro. O público nem nota quem fica na plateia batendo palma; e vaiando, profiro à apatia a careta de quem foge.

Para que transcorra sem drama a volta ao lar, é preciso salientar dores no peito e os formigamentos no braço esquerdo. Aliás, o perigo de desenhar o meu punho cerrado está na problemática destra.

Já o medo de gatos é tratável de forma simples, portanto objetivo, sem lero-lero. Basta beber um gole de água clorada a cada vez que o bichano da casa vier ronronar, esfregando-se nas minhas pernas. Me é importantíssimo levar comigo um cantil, de preferência profissional, feito para manter a oito graus Celsius a panaceia que tanto alegra.

Para não perder o prumo da prosa, quanto à cinofobia irreprimível, não preciso me esconder em cima da mesa.

Ainda que um doberman venha lamber a minha boca, não o deixo apoiar-se nas patas dianteiras. Dou comandos para correr e saltar de banda, e mando uivar à lua.

Invento a lua cheia porque, às vezes prudente, uivo também.

Comparando-se cães e gatos, apenas se recomenda floreios com animais que não façam festa com baba saliente nem com unhadas de traição. O melhor mesmo é precaver-se com "um passinho atrás, por favor", dirigindo-me a bichos cujo instinto seja contagiante.

Por fim, desorientado pela luz apagada, fecho os olhos com vigor.

Há pessoas que, antes de sonhar, entorpecem o medo do escuro com o consumo regular de cachacinha artesanal. Bebericando meus dois dedos do mel que abelha não faz, prego tal uso ajuizado.

A noite sai-me bem menos custosa assim.

Sem medir sequelas, acho bom viver estimulado por medo?

Francamente, ou consigo assobiar mamando cana ou minha cara de pau seguirá sorrindo abestada.

Caraca... De fato, é terapêutico partir pro grito:

Pra cima deles, Botafogo!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de janeiro de 2021.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Aquarela em carne viva

 

Aquarela em carne viva

 

Se posso expressar meus sentimentos, jorrando à realidade o que passo de momento, digo explicitamente que não tenho vocação para crítico de arte. Portanto, engana-se quem, a partir do título da crônica, possa estar imaginando que escreverei sobre Adriana Varejão.

Nada disso. E com outras preocupações, emendo:

ꟷ Conhece a Bíblia da Barsa?

Pois é, derrubei-a com suporte e tudo. Foi estrondoso meu fiasco, já onze e pouco da noite.

Meus vizinhos certamente, assim como eu, de cabeça quente com o andamento preocupante e vergonhoso (com pintas de criminoso) da vacinação, e viro fazer barulho de repente.

Que homem erra matar um pernilongo ordinário? Um bobo.

Dei bobeira, fiz bobagem, banquei um boboca.

Sobreveio a besteira do livro sendo derrubado por causa de gesto mal calculado, pela distância imprecisa, pelo olho torto de raiva.

Catei o trambolho do chão. Assentei-o de volta no lugar. Ao acaso, abri o tomo e deu em Tobias, que me lembrou de Sulamita.

Conheço a Sulamita personagem das minhas leituras erráticas da Bíblia e a esposa de um Tobias, que um dia foi estudante de Filosofia na mesma universidade em que me graduei em Letras.

A mente monta sua banca pra vender ilusões, compro-as por amor ao próximo. Ainda que a irritação com as atualidades me faça passar por um sono assediado por fantasmas de carne e osso.

O que estou querendo dizer?

Queria pra hoje uma crônica sobre o centenário de João Cabral de Melo Neto, cuja efeméride foi em 2020, que nem me lembrei. Queria, mas do ruído noturno brotou Sulamita. Justamente esta Sulamita tão apaixonada pela poesia do João Cabral.

ꟷ Seu Rodrigues, que fim levou o bicho?

Pra não repetir o fracasso estúpido de uma ação desastrada, tratei de esperar que assentasse onde o tapa fosse a solução e não motivo pra renovar a fúria num espírito já meio sem limite.

Ele pousou na escrivaninha onde fica o computador. Não titubeei. E com gesto simples e certeiro, dei cabo do danado.

ꟷ Voltou a dormir feito anjo, seu Rodrigues?

Quem dera fosse possível ter em calmaria a madrugada.

Nem bem apaguei a luz, uma barata veio estragar a tranquilidade.

Por demonstrada incompetência pra lidar com pestes domésticas, e me refiro literalmente a pernilongos e baratas, já antevendo a vinda de ratos, democraticamente paro a crônica um instante.

ꟷ Seu Rodrigues, pra quê isso?

Entretanto parei. Mesmo não assinando o retrato apocalíptico que meus demônios teimam pincelar com traços exageradamente tensos, dei-lhes razão. Humildemente, fui telefonar à empresa especializada em extermínio desses animais pestilentos.

Enfim, como não tenho pesadelos por querer dormir em paz, como está ao alcance da minha alçada não transformar a minha casa num chamariz, fi-lo pra evitar futuras rondas noturnas, porque dedetização não é urgente, é ação preventiva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2021.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Quinze minutos

 

Quinze minutos

 

O momento era aquele. Tinha à frente um caminho a cumprir, pois a vida seguia seu curso. Como um riacho afluindo pro rio mais denso, sabia que as suas águas rasas colaboravam de maneira singela. Sem ostentação boboca, iam desaguando naturalmente.

Não fazia caso de enfeitar o pavão. Seria tolice dispensável querer acentuada a beleza que já possuía; como se a natureza funcionasse melhor com sua ajuda, dizendo-a linda de morrer.

A cauda de nenhuma outra fera estava em causa, o jeito, portanto, era manter a calma. Estando a ponto de precisar tomar uma decisão, aflito, acabaria por estragar a ocasião.

Pra marcar posição com consciência, sem ficar tenso nem sujeito às consequências da precipitação, precisava amenizar a urgência, foi pra isso que comeu umas bolachinhas e bebeu leite.

Frio, mais frio do que parecia realmente esperar bebê-lo. Porém, o que poderia querer, uma vez retirado direto da geladeira. Portando só haveria de estar gelado, obviamente gelado.

Se não bastasse a temperatura, o leite desceu como um torpedo no estômago, fervilhando sob ansiedades mil.

Poderia estar melhor, mas era assim e agia assim. E penava a ser como era, uma pessoa de difícil compreensão. Que o julgavam meio selvagem no trato com os demais, um problemático quando avaliado por seus atos.

Em outras palavras, com o entusiasmo patético de praxe, como se defendesse o estado democrático de direito, pegou o celular, teclou o número salvo e falou, controlando a voz para não dar a entender que poderia estar hesitante ou intimidado, que viessem entregar pizzas.

Com desenvoltura, seguro de que sua empáfia era justificada pelo pedido, de duas pizzas sem borda recheada e com refri de dois litros, enfatizou que poderia ser entregue além da meia hora destacada no material publicitário.

Era bom porque sabia entender o calamitoso da vez.

Ao telefone, e como precisava frisar, fez questão de destacar que uma gorjeta gorda seria paga se tudo corresse de acordo com suas exigências de consumidor razoável.

Tinha por bom esse costume de dignar-se a querer premiados os humildes que o honrassem com a servidão de boa-fé.

Se sua voz manteve-se firme e pausadamente disse as frases, por qual motivo não tinha sido atendido conforme o solicitado?

Ainda que não comunicada à família, tomou outra decisão.

Depois de quarenta e cinco minutos sem ver a cara do que pedira, atenderia o interfone pra gritar que não era otário pra ficar esperando além do admissível.

Havia limites intransponíveis. Uma barriga roncando é diferente de sua barriga estar roncando. E era vergonhoso a um pai de família ter de andar sem parar, à espera do infeliz do entregador.

Perdera o sábado. Perdera o gosto.

Contudo, por nada deste mundo perderia o tesão de participar do momento histórico, com Inglaterra X China arbitrada pela ANVISA.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2021.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Outro quiproquó

 

Outro quiproquó

 

Um daqueles dias? Pois é, mais um deles.

Onde estão os meus óculos? No devido lugar, no seu nariz.

Cadê a minha máscara? No saquinho, junto com as outras.

Alguém viu a minha carteira? Na mesinha, que foi do telefone.

E as chaves? Ao lado do saquinho, que também não telefona.

Como você, que mora sozinho, consegue perder fácil o foco?

Você acha que me embanano feito barata tonta, né?

Não, não, você tem tendência a...

Entendi! Mas não tomo jeito. Sou do tipo que dispara fazer alguma coisa, que nem lembro a razão óbvia pra não correr pegar o ônibus e só me descubro sem freio já estatelado na esquina. Não vou negar, sou fã abnegado de casca de banana distribuída por todo canto. Não posso fazer muita coisa, pois cair de maduro é comigo.

Como invejo pessoa que se conhece sem o menor esforço.

Essa é boa. Nem vou entrar nessa briga, pois a luta pende, quase sempre, contra mim. Não tem jeito, pois não vou me enganar. É claro que a balança escolhe o outro lado, que chateação.

De chateado pra chato, o caminho é curto.

Aproveitando aquela imagem do ônibus desgovernado, não queira saber carecas os pneus bem quando o cachorro resolve cruzar a rua. Desacelere. Ainda dá tempo, não se perca estúpido.

De deslize em deslize, é triste me fazer tão imbecil. Concordo.

Se ao menos terminasse as coisas que começa. Mas, não.

O problema não se resume a me dedicar a fazer tudo do começo ao fim. Com o acaso à solta no mundo, é complicado querer levar a vida na serenidade. Sempre pipocam umas complicações.

A ordem natural do universo não faz você correr que nem doido.

Doido, eu? Só falta me acusar como pai do caos.

Fique despreocupado quanto a isso. Não costumo trocar o sentido das palavras. Você não é anarquista nem baderneiro, é bagunceiro. A sua vida não ficaria perfeita sem esse atropelamento contínuo, talvez ficasse um pouco menos risível.

Não sou fleumático que acerta o passo pelo relógio. Aliás, sequer relógio eu tenho. Puxa vida.

Vamos lá! Tenha pulso. Ganhe fibra. Tome coragem pra enfrentar esse bicho que nem tem sete cabeças.

Então, a vida me chama para pôr ordem na casa? Isso me tira do sério. Quem tem que limpar os cinzeiros sou eu, porque os sujei. Mal começo a me livrar das bitucas, viro fumar. Isso é normal, tão normal, que nem sinto estalo algum.

Aja, paciência, aja. Que sua mão sobre tal babaquice transforme o desordeiro. Haja paciência, ainda que, raivoso, esmurre a porta. A ele venha a temperança, pois, menos espaçoso, topará bater à porta.

Caso a vida figurasse reduzida a uma porta, claramente, buscaria a chave perdida com a sensatez dos previdentes, que não dão murro em ponta de faca nem atiçam à vara uma onça brava.

Viva!

Quer um Mozart no celular? Dou com a Waldstein pela metade.

Não repita que... Não! Desta vez, não.

Neste dia 17, Ludwig van Beethoven teve o nascimento registrado há 250 anos e um mês.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de janeiro de 2021.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Uma vaga lembrança

 

Uma vaga lembrança

 

Para expressar uma opinião, é preciso tê-la.

A questão, portanto, está em ir pelas pegadas até o ponto que for possível, sem exagerar na dose. Para não acabar borracho, portanto incapacitado de avaliar se aquela água toda é o mar ou uma lagoa. À noite, então, melhor nem se empolgar. Ainda que a lua colabore com o seu poético e brando fulgor. Há encantos, no entanto, que vão além do romantismo, servindo como detalhes num postal. Ou seja, é bom estar atento aos indícios e tratar de ir juntando os fios da meada, pois é isso que permitirá a localização mais precisa: no emissário da José Menino ou às margens da Itupararanga.

Localizando-se, vem outra etapa.

O que estou fazendo? Com esse frio, com essa garoa escorrendo pelas pálpebras, estarei abrigando o inverno na minha cabeça?

É por experiência própria, mergulhado no barato dessa psicologia sem elementares fundamentos científicos e sem sólidos argumentos lógicos, que bebo dessa água. Confesso, estou gostando de bebê-la.

E sem quem me chame à razão, vou bebendo.

Mas não há consolo, há porre.

Depois, mas antes da água de coco, viro mais outra dose. Até que amanheça, vou no embalo. Com o dia posto, então, é o caso de ir pro bar mais longe de casa. Assim a volta poderá se prolongar, tornando improvável cortar caminho.

Se a opção é sair da rua perpendicular pra entrar na paralela, em ambas, porém, é possível seguir dando carga às células nervosas.

Muitas, muitas, e muitíssimas cargas depois, já convém me admitir encarnado no bêbado exemplar.

Aquele que vomita para abrir espaço para mais doses, porque ele conhece, sem nostalgia da aguardente, o fogo que desce rasgando, e vai aquecendo nas entranhas esse desejo de enfiar o dedo na goela. E vale a pena pensar, especula esse bebum.

Portanto, só com a roupa do corpo, faz sentido levar dinheiro e os cartões. Faz-se isso pra não dar tempo ao tempo, cuja sabedoria não se discute.

Política e religião, isso pede debate acalorado.

Quanto a beber... O melhor é beber por beber. Não pra esquecer nem pra tripudiar.

Assim, embriagado de mim nesse extravio pela lembrança, sento praça na conveniência de querer-me autoridade sobre o assunto. De mim falo eu sem medo de errar. Por isso, é certo, não erro feio.

Diretamente na jugular, e reconheço a letra só de bater o olho, diz a mensagem na garrafa: toque a vida que lhe toca viver, José.

Onde estou, José?

Entre esse convidado que só foi entrando e mim, tenho apenas a memória que não me sai do pensamento. A me forçar a mão, a pegar pesado pro reconhecimento do que ando aprontando.

Sem isenções de impessoalidade, o que me enche vagamente de certeza é dar comigo a ler uma entrevista da Cecília Jorge. Talvez por que seja uma busca pessoal e intransferível?

Destarte, calmo no sereno, faço minha esta ideia de que conhecer a identidade é uma forma de sobreviver.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2021.

 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Um porre e tanto

 

Um porre e tanto

 

Você provavelmente conhece a situação. Quando o domingo entra num chove não molha que não sai do lugar, isso aborrece.

Este, todavia, tem seus encantos. Diferentes. Embora não chegue a conceber-se de uma raridade inigualável, a memória precisa fazer um esforço maior que o normal pra que seja constatado o horror.

Sim, depois que o tédio se instala, vem a sensação desagradável de que tem coisa errada. O mundo anda emperrado.

Enguiçadas, as horas vão rodando que nem porquinho-da-índia na gaiola. Nem um pouco legal nem nada fantástico, o bicho prefere ficar olhando. E fica nisso.

Coisa esquisita, até lembra rolha ressecada desafiando tirá-la sem esfarelar. Esfarelada, sujaria o merlot. Cujo tinto vai seguir reservado pra quando estiver vivendo um momento mais comum. Pra degustar com gosto, sem a afobação de encher a cara.

Veja bem, apelar pra porquinho-da-índia?

Com o jogo rolando, é preciso continuar jogando. Do jeito que dá, e com o que esteja disponível. Procurando organizar as ideias.

Feito chuva que chove no molhado significando a perda de tempo, o olhar do porquinho-da-índia está indicando algo, só que, por demais implícito, o sentido confunde.

Como parece que o problema passa pelo olho que vê pelo filtro da sua miopia, pra despir a boca das certezas que teimam corrigir o que diz, vê tão mal que não diz nada.

Nem basta esfregar os olhos pra que suma de vez. Aliás, será erro acusá-lo monstro? Será fácil. E você não gosta de facilitar.

Temendo cometer sincericídio, desengasgando o que pensa como prognósticos enfáticos sobre a vida, forma-se uma película sobre as coisas. Daí o desconforto de ver-se sob a pele irrespirável do medo.

Avesso a normas universais de validade profundamente duvidosa, empaca na quietude de quem se obriga a um silêncio nebuloso, mas útil a evitar vergonhas por falar muito, perdendo-se pelas palavras.

Se há névoa, se permanece impassível diante da deterioração da própria reputação, há culpa. Então, culpa-se pela culpa de sincericida que se cala.

Nascido para aglomerar-se com os seus dessemelhantes, imbuído do desejo de afirmar-se em meio a quem tanto o despreza por suas dúvidas conflitantes, surta ao ver-se a perpetrar insinceridades.

Para tentar apaziguar-se, terá de ouvir-se desencanado. Portanto, sem se fingir de mudo. Apesar de certas dificuldades de entender-se consigo, procure ao menos escutar o que não fala.

Fosse mais leve, mas não é. Você se angustia ao não se furtar a prazeres estimulantes. E dependente de endorfina, põe-se à roda; e carente de adrenalina, prende-se à gaiola.

Dolorosamente fitando aquele porquinho-da-índia que não existe, precisa separar o vinho do vinagre.

Fantasma livre para nada, suspenso na intensidade do instante, o domingo não corre.

Não é à toa que a carantonha o assusta, embriaga-se.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2021.


domingo, 10 de janeiro de 2021

Uma caricatura regular

 

Uma caricatura regular

 

Do que se trata, afinal?

Parece que, a noite inteira, passou parado no sono.

Como pedreiro que fez o seu melhor, tem esse direito.

Possivelmente, tenha levantado uma parede, aprumado a massa do reboco, usado a ciência da técnica. Fazendo o possível, melhor.

Correu com o banho morno; engoliu mais feijão que arroz; tão logo escolheu livrar-se dos apocalipses da TV, viu que estava só.

Embora só, é bem possível que se tenha mantido são, do jeito que pensava ser correto. Como pessoa que se esforça manter a mesa em pé, solidamente nas quatro pernas de objeto do dia a dia, tem dessas obrigações.

Ainda a perseverar, queria refrigerante uma vez por semana. E ele bebia guaraná, por isso era domingo.

Simples, aos domingos podia o refrigerante, porque se oferecia os luxos bobos de trabalhador austero.

É pessoa que ama a família, dá à esposa e aos filhos um domingo menos apertado. Não está falido, pois respeita o rigor das economias ajustadas pelo essencial.

Assim, na solidão, decidiu amar sua mulher.

Então, do que se lamenta?

Da repetição dos dias. Com seus gestos de esforço, que fosse ao assentar tijolos e ao alinhá-los conforme ao desenho do projeto, disso gostaria de ver-se dispensável.

Que merecesse outra oportunidade, pois estudara nas geografias dos mapas, aprendera das negociatas de café e borracha.

Às vezes, pelo que hesita, entra a palpitar.

Contudo, nem que parecesse negativo, insistia praticar a liberdade de não amar se escancaradas as intimidades indeclináveis da cama.

Havia alegrias interditas; exibidas, de mãos dadas a gracejos nos corredores de shopping. Que ele sabia disso por ter ido para as datas anunciadas fundamentais. E fundamentava sua vida para mães, pais, nascimentos e Nascimento.

Fiava viver pra melhorar.

Ainda que as costas andassem pedindo intervenções, precisando dos dedos experimentados em restauração das carnes desnaturadas, ainda assim, adotava airosamente os remédios, pesados no custeio e de apuradíssimas soluções biomecânicas.

De maneira geral, do que se esquiva?

Certamente, com tantas tarefas e umas poucas diversões, bebe o leite que a alvorada fria pede seja esquentado no fogão. Tem sentido que aquela vida vem forçando os músculos dos braços.

É certo que, na constância forçada da hora, na sobriedade do que consegue oferecer a si mesmo pelo que lhe pagam, almoçará a coxa de frango com a macarronada ainda comestível na segunda. Tivesse opção, devoraria hambúrgueres.

Sem agonia alguma, conta com afagos pra amar com afeto.

Afinal, num preto e branco de caricatura em traços ligeiros, é disso que se trata ꟷ de se contentar com o que tem feito; de se apegar ao sentimento razoável de viver em dores, para flores, por amores; de se avaliar bem feliz, indecorosamente vaidoso por ocupar a sua vida em manter assinada a carteira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de janeiro de 2021.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Terrinha boa

 

Terrinha boa

 

Pra dormir sem sobressaltos, desligo o celular bem antes da janta. Ainda que ideias desarvoradas brotem do nada, preciso de um pouco de paz. Da ideia de ter paz, é disso que preciso.

Noite e dia.

Pra permitir ao meu corpo que a necessidade mais urgente possa se manifestar de modo proficiente, controlo a boca, mastigando sem pensar que mastigo.

Pra poder me entregar ao devaneio de que o encanto da música repousa na minha escuta propensa a viajar pelas estratosferas afora, trato de ir digerindo a escuridão em que me abrigo.

Mas pouco posso sobre as circunstâncias do entorno. Nem a luz apagada nem as almofadas no piso aliviam o estresse por decúbito dorsal. Sim, sim, tenho costas.

As minhas costas ficam incomodadas depois de ficar um tempinho numa posição. E não há Berlioz ou Saint-Saëns que me protejam da mão do tempo. O esqueleto me quer bailarino, virando de lá pra cá.

Sem ginga, danço.

Pra terminar mais outro dia, acabo deitando.

Como o sono conta com as paredes, ronco. Porém, a vida manda mensagem. Por etéreas, mensagens desconhecem barreiras de cal e cimento. E sem mover um músculo, o sono faz das sementes de café portentosas canecas. E dormindo, encafifo.

Encafifando, preciso beber café. E tenho umas neuras que pioram bastante com café. Se bebo um gole, bebo mais um. E não paro. Vou no sonho de ir sonhando até que não dá mais. Vira pesadelo, e surto.

Surtando, no sonho de estar surtando, tomo outro copo. Poxa, não preciso de nada disso. Pra que os chamados do mundo me peguem desprevenido, a mil no 220, sonho. Logicamente, vivo.

Se tem coisa que me põe melancolicamente lírico é o sentimento de fazer parte de algo maior. De estar vivo e sonhando, é evidente.

Como minhoca em vaso de flor. Como palmeira num oásis. Como estrela no céu.

E tem mais. Tem certos lugares que guardam encantamentos. Até a natureza passa a fazer sentido, como obra da máquina do universo. Nem que seja pela percepção de encantado. Como água no poço.

Lavo a alma com a água que bebo porque a água que bebo traz à alma o que meu corpo nem sabia que podia ser lavado. Como ar que se respira, acerola que se come, sabiá que se aprecia.

Há lugares que seduzem porque não se está lá, pondo em mim o desejo de já estar. Imediatamente, estou. Pois estou sonhando.

Faço a ausência surgir, preenchendo o pensamento. Minha ideia é ver o ar num copo, como vinho pela metade.

A parte que me falta não faz falta, posto que está em mim a pedir que beba o tanto que eu queira beber. Que não será um dedo a mais que me deixará sossegado. Com abelhas e tudo, entorno o mel.

E Maritacas da Serra é realmente um lugar de sonho aos recantos que as Minas dão a entender que podem alvorecer com os olhos da gente querendo murmurar experiência tão memorizável.

Quanto me carece estar lá, mais a ânsia seca o poço.

E acordo.

Já dia, religo-me cotidiano quando ligo o telefone.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de janeiro de 2021.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Restos

 

Restos

 

Passada a vaca fria da virada, o negócio é turbinar os tamborins pro carnaval pegar. Aliás, por conta das comilanças nem um pouco prosaicas, à base de peru e bacalhau, frios e pães andaram murchos.

Pão mofado no lixo?

De fato, o cérebro traduz a imagem: é desperdício.

Mesmo sem pânico nem faniquito, acabo macambúzio.

O passado olha por mim. Vendo-me triste, bem jururu nestes dias confinados ao caminho do tédio, quer-me feliz por tantas glórias.

Todavia, não escondo que me alimenta a paixão dos fervorosos, a ânsia de quem vive contrariado. Pois opto por andar, junto e ao lado, dos que não se deixam corroer pela modorra do sempre igual.

Mas, não entendo a rotina só como mesmice.

Tenho hábitos a preservar, que os vou construindo passo a passo, uma vez que sinto ter a necessidade da reconstrução da autoestima a cada ano, mês, a cada dia.

Não exagero, a ponto de dizer o que me soaria leviana tolice, que busco equilíbrio entre razão e instinto a todo instante. À vera, acaso desse eu ao momento a primazia da definição da minha identidade, avaliaria mal, como ilusão, em autocomiseração enganosa. Ou enfim, entraria pela loucura, e ao louco não busco nem almejo.

Admito, que, vez por outra, entreouço seus sussurros de pitonisa, ora melífluos, pouco abissais, ora ácidos, nada utópicos. No fundo, há esse artifício vulgar: como serpente peçonhenta, o mesmo de sempre sabe hipnotizar.

E notícias na TV asseguram-me que as chuvas de verão seguem varrendo morros e valas pro leito assoreado de riachinhos posando de Velho Chico ou Amazonas.

Meus sais, céus!

Só com a mão firme de Maradona pra barrar o brochante 2020.

Recorro ao 03 de julho de 1990, ao primeiro tempo da prorrogação em Nápoles, à semifinal da Copa realizada na Itália, aos oito minutos de acréscimo, ao inexplicável do tempo, à cabeça do árbitro francês Michel Vautrot, porque houve um treco, talvez um encantamento por adrenalina, uma febre mental por conta da divisão entre os italianos do norte e os do sul que o Dios argentino soube explorar, a seu favor, no duelo dos platinos com a Azzurra.

Será indício de que a realidade me escapa?

Caramba. Não me é possível agir com 100% de confiança no êxito dos meus atos, nem como ação nem como reação. Assim, comigo no leme, tchau mundo perfeito.

A minha cabeça tem os seus próprios jogos. Há pensamentos que brincam comigo, querendo-me submerso em frustrações.

Tenho limitações. Não tenho acesso a tudo o que penso. Portanto, não me controlo. Passional, ajo racionalmente. Portanto, tenho como ser diferente. No instante em que vivo, mergulhado na realidade, não tenho a sensação de estar naufragando. Afinal, resta-me ser humano.

E o quico?

Neste 04/01/2021, há 40 anos, lembram-me as folhas que o tento, miserável e único, que marcou o Dez Eterno contra o Brasil foi nesse clássico disputado em Montevidéu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de janeiro de 2021.