Falatório
completo
Com saudades da minha saúde mais sólida,
estava lá, sentado ao balcão naquela espelunca famigeradíssima pela fauna de beberrões
profissionais. Como contestador resiliente, eu bebia suco de abacaxi e
petiscava uma farta travessa de queijo branco, o tal "minas".
Comia naturalmente apreensivo, olhando nervoso
a TV com todas aquelas suas notoriedades bem falantes, dadas ao entendimento
das tramas deste formigueiro tão assediado por cigarras.
Temia entender errado o que se
noticiava, digo, temia embaralhar o que era dito como notícia de um distante
mundo de tramoias, e isso me aborrecia. Estava assim, meio grogue, enfarado, mais
ouvindo os meus fantasmas do que aqueles fantoches.
Se bem que, em vez de fantoches, poderiam
ser marionetes.
Não separo estas daqueles, não porque padeça
o diabo com uma urticária de fundo emocional, ligada ao manejo de arames e
condões, é porque destaco o queijo, surpreendente.
E toda surpresa maravilhosa não deve ser
desperdiçada. Ou seja, como a azia sempre dá um nó nas minhas tripas, o melhor ambiente
para comer não tem nenhum chato no cangote, atazanando.
Mas o mundo não tem tranca de segurança,
assim uma banqueta de bar vira cadeirinha de bebê quando o seu ocupante força largar
a porção; mais que prejuízo, é insulto.
Com sal e orégano no ponto, a língua queria
ficar ocupada com o prazer, só que, aí, apareceu um dos donos da vaidade.
Pintando do nada, veio azarar justamente
do meu lado.
E eu lutava com uns pruridos eletivos: se
não suava pela paz do mundo, sonhava lambido o prato.
Mesmo desajeitado, o sujeito abriu aquela
boca. Escancarou-a.
Bebia, e falava. Bebia, e falava.
Todo borracho, disparou comentar a TV
toda.
No que ouvia de lá, rebatia de cá.
Com a grita da vida beirando o caos, o boteco
seguia natural; e a minha paciência ia indo pro ralo.
De tanto abacaxi, fui urinar.
Na casinha, pus na conta que iria até o
fim.
Reconheço que os fortes cortam pela raiz
o desejo exibicionista de quem mostra a dentadura sem olhar a quem.
Finquei a bunda no tamborete. Apelei para
a coragem de controlar a saliva. Mostrei-me o satisfeito ꟷ de garganta seca, sorridente.
De fato, tenho pavio curto e fico fulo
num pulo se me importunam, impedindo-me de usufruir a coisa boa de ser curtida numa
boa.
Pessoa maleável ao destino, não vou praguejar
agora porque não vituperei na hora.
Todavia, assumo a cumplicidade, pois
aguentei tantas bobagens, disparates em cascata e aquela penca de crimes contra
a honra dos ausentes.
Tenho propensão à idiotia, admito. Sob
tensão, não canto de galo nem mato os meus vermes interiores com formicida.
Que ideia implicante é esta que não
fulmina a mina que não falha?
A pandemia deprime, não suprime a
memória.
Então, nem tímido nem cândido, arremato
de boca cheia:
ꟷ Com faro pra festa, condenso em mim a
nata das ratazanas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de fevereiro de 2021.