Terrinha
boa
Pra dormir sem sobressaltos, desligo o
celular bem antes da janta. Ainda que ideias desarvoradas brotem do nada,
preciso de um pouco de paz. Da ideia de ter paz, é disso que preciso.
Noite e dia.
Pra permitir ao meu corpo que a necessidade
mais urgente possa se manifestar de modo proficiente, controlo a boca, mastigando
sem pensar que mastigo.
Pra poder me entregar ao devaneio de que
o encanto da música repousa na minha escuta propensa a viajar pelas
estratosferas afora, trato de ir digerindo a escuridão em que me abrigo.
Mas pouco posso sobre as circunstâncias
do entorno. Nem a luz apagada nem as almofadas no piso aliviam o estresse por
decúbito dorsal. Sim, sim, tenho costas.
As minhas costas ficam incomodadas depois
de ficar um tempinho numa posição. E não há Berlioz ou Saint-Saëns que me protejam
da mão do tempo. O esqueleto me quer bailarino, virando de lá pra cá.
Sem ginga, danço.
Pra terminar mais outro dia, acabo deitando.
Como o sono conta com as paredes, ronco.
Porém, a vida manda mensagem. Por etéreas, mensagens desconhecem barreiras de cal
e cimento. E sem mover um músculo, o sono faz das sementes de café portentosas canecas.
E dormindo, encafifo.
Encafifando, preciso beber café. E tenho
umas neuras que pioram bastante com café. Se bebo um gole, bebo mais um. E não
paro. Vou no sonho de ir sonhando até que não dá mais. Vira pesadelo, e surto.
Surtando, no sonho de estar surtando, tomo
outro copo. Poxa, não preciso de nada disso. Pra que os chamados do mundo me peguem
desprevenido, a mil no 220, sonho. Logicamente, vivo.
Se tem coisa que me põe melancolicamente
lírico é o sentimento de fazer parte de algo maior. De estar vivo e sonhando, é
evidente.
Como minhoca em vaso de flor. Como palmeira
num oásis. Como estrela no céu.
E tem mais. Tem certos lugares que
guardam encantamentos. Até a natureza passa a fazer sentido, como obra da
máquina do universo. Nem que seja pela percepção de encantado. Como água no
poço.
Lavo a alma com a água que bebo porque a
água que bebo traz à alma o que meu corpo nem sabia que podia ser lavado. Como
ar que se respira, acerola que se come, sabiá que se aprecia.
Há lugares que seduzem porque não se
está lá, pondo em mim o desejo de já estar. Imediatamente, estou. Pois estou
sonhando.
Faço a ausência surgir, preenchendo o
pensamento. Minha ideia é ver o ar num copo, como vinho pela metade.
A parte que me falta não faz falta,
posto que está em mim a pedir que beba o tanto que eu queira beber. Que não
será um dedo a mais que me deixará sossegado. Com abelhas e tudo, entorno o
mel.
E Maritacas da Serra é realmente um
lugar de sonho aos recantos que as Minas dão a entender que podem alvorecer com
os olhos da gente querendo murmurar experiência tão memorizável.
Quanto me carece estar lá, mais a ânsia seca
o poço.
E acordo.
Já dia, religo-me cotidiano quando ligo
o telefone.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de janeiro de 2021.