Coração
noturno
A noite está vigorando. O homem não sabe
nem quer saber quais leis regem aquele funcionamento. Deitado no escuro do
quarto, finge que sonha. Enquanto for sonhando, a noite seguirá intocável.
Sonhando, o homem pode ocupar-se com
afazeres intermináveis, inadiáveis, incontornáveis. Em vez de delirar com
maravilhas, o nosso homem, coitado, nem liga explicar os mecanismos do seu
fastio.
Cada sonho traz dormências às suas angústias.
E nenhum sonho se parece com outro. Embora possa haver confusão, tal essência não
doma a realidade.
Sonhando que está acordado, o coitado nem
percebe que emenda sonho em outro. Contraditório, o desânimo estimula-o a querer
mais.
Tanto está viciado em sonhar que a sua
vida já começa a perder o limite do que é real. Ou melhor, já está há tempos
fora do pão, pão da vida que nem tem consciência do quanto de chão já tem andado.
Na rua, o lunático zanza mesmo pelo
mundo da lua.
E porque curte viver acordado de olhos baços,
o cidadão relapso pisa fundo num buraco. Pelo contratempo irritante, põe reparo
que a chuvarada sugere ter algo errado no planeta.
Quando tira os pés daquela incongruência,
bate a lama com tanta confiança que nem controla a mão frenética sem tempo pra
tapar um buraco. E logo esse tão real?
Como toma a sério as opiniões, até ficar
doente, prefere roncar. É por isso que nem especula sobre torcicolo, ou ronco.
Sua, e suado precisa dar um jeito.
Não irá deitar sem banho tomado. Porém,
vai ingerir a janta bem devagar. E a TV será degustada prodigamente.
Naturalmente, não sendo médico nem ilusionista,
dormirá.
Consegue; o quanto o corpo aguenta na
posição única, de bruços.
Ainda estava escuro quando acordou. Viu-se
incomodado pela dor na nuca. Todavia manteve os olhos fechados mesmo com ferroadas,
e tantos sentimentos difusos.
Se não teria de acordar cedo, por que
acabou deitando errado?
Queria ter o radar de andorinhas,
pardais e maritacas, que sabem, com autonomia absurda, da alvorada desgarrando-se
da noite.
Viria? Virá.
Ainda que pouco soubesse dos engenhos do
universo, o homem que acorda tendo a si mesmo como um condenado ansioso suava
em profusão.
Que coisa chata, suando no escuro. Cansativo.
Se a noite tem vez na ordem do universo,
o corpo desconhece. As pupilas ignoram fronteiras, passaportes. Cansadas, as
pálpebras não desdenham nem ironizam, querem mais sono. Precisam de sono.
Assim, o corpo suporta a passagem pra
face diurna da vida.
Assim, a mente acorda o homem de mente
que não dorme.
O homem tem razão de acordar abatido. Ignorante,
nada sabe das necessidades simétricas, de longitudes e latitudes. O mundo erguido
pela lógica talvez tenha sentido. Mas ele não se ouve.
Incompreensível ao homem que acordou na hora
de sempre, feito relógio atento ao absurdo de saber-se operando no escuro, ele
pensa que sonha, mas vive.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de dezembro de 2020.