Identidade
secreta
Não sei bem o que anda acontecendo
comigo, pode ser efeito da reclusão forçada. Sem nenhuma formação psicológica,
então, aceito que seja, sim, sintoma de estresse por exposição contínua ao ser
que me habita. Ego que vem se apresentando angustiado e angustiante, com minha
forma e semelhança, com o volume afeiçoado aos setenta quilos neste metro e
meio de humanidade. Na pessoa que me vejo a suportar cargas e encargos do
mundo, o que me acarreta sustentar a envergadura psicoativa conhecida por eu.
Este meu eu, ele mesmo.
Como ia dizendo, tentando dizer, tendo
começado a querer dizer, venho me sentindo um tanto tonto. Por estes dias, os
quais já se sabe como têm sido, dias de afastamento, me perco fácil. Ô agonia.
Logo: chega de conversa mole. Uma vez...
quê?
Sem fim, o cotidiano vai impondo sua
agenda de repetições. Com ação depois de ação, das mais banais como comer pizza
fria no café da manhã ao cuidado para encerrar um telefonema com um tanto de empatia.
Sem que meu desejo de que tenhamos um dia bom não me faça soar hipócrita,
cínico ou tolo.
Queria, mas não consigo. E quero.
Estou perdido? Parece. Mas não perdi a
vergonha de admitir isso em público. Com você lendo que não perdi a noção de
que é preciso defender a relação: de um lado, a razão que manipula as situações
e o entendimento que as aquilata, de outro.
Desconfiando do que passo, encalacrado
no veneno de quem está atado à pessoa que não sabe, ou faz de conta. Um tarado?
Confuso.
Seguindo neste fado torto, bailo coxo
porque danço comigo. Que a cabeça solte os meus cachorros mais ferozes, que a
ideia cubra com areia meus cocôs mais imundos, que a lógica da postura mantenha
o sentido alerta, a pesar os pesares, em prontidão.
Mesmo com a mente rodando feito bêbado
de pinga?
Que ridículo.
E latindo mal meu latim, avançando meio
sem notar, caço a minha própria sombra. Desconcertado, largo dois litros de
sorvete de creme sem chegar a lamber o pote. Pelo rabo sem cueca, emporcalhando
o pijama, me sujo todo. Que feio falar isso de boca cheia. Melhor fechar a
matraca; pensar nas maritacas. Há muita vida boa alhures, mesmo com o medo que leva
a pôr espuma em excesso na careca por limpar dos brotinhos de cabelo. E um fio
solto nem...
Tome juízo, filho. Vá uivar pra lua, linda
e nua.
Enrolando, eu?
Vim... Estou... Queria esquivar-me da
razão de ser desta prosa.
Sem fazer do coração um covil de
sentimentos nefandos, sinistros, que embaraçam a mãe da gente, vou contar qual
pulga me pica.
Uma amável amiga avisou que iria parar
de ler as crônicas. E teria parado mesmo, mas informada que trataria da sua
decisão, ela topou mais umazinha, esta última.
Sem possibilidade de renovação do
interesse? Não, senhor, sem.
Dona do adeus, sem o travo da saideira
e já numa doce saudade, guardando seu nome comigo, envio um bom-bocado, o
abraço bom.
Saúde!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 09 de agosto de
2020.