Em
eclipse
Quando abriu os olhos, o sonhador
tinha a nuca suada, dores nas pernas, a mente pesada. Havia semanas de horas
erráticas. Limpava que limpava os vidros do apê. Tirava cartola da cartola, numa
chatice fora de razão. A prioridade agora era mesmo dedicar-se a algo bom, que
produzisse um efeito imediato. Arfou.
Que alívio correr daquilo.
Epa! Pegou-se na estrada errada, que tomara
um desvio como um atalho. O seu conforto estava em envolver-se na situação pelo
ângulo das consequências, pondo-se enredado no saldo; a torto e a direito,
todavia.
Era óbvio que lhe faltava tocar as
pessoas.
Queria abraçar, aproveitava-se das
roupas por lavar, abraçava as camisetas sujas. Resultava igualmente imundo, recoberto
de nódoas ― flor miserável a gozar de um abraço abjeto; um jardim de vilanias a
almejar mais abraços tão embriagadores.
Ê porcaria que não passa!
Queria era beijar de uma vez a tela da
TV, quando explodia ao ver as imagens de uma lebre assobiadora driblando a
morte que vinha na pele de um urso tibetano. Sentia a alegria da vida ganhando mais
um tempo para a reprodução. A intensidade dessa alegria ao torcer pela natureza.
Uma explosão que ultrapassava a euforia, aquele fortíssimo entusiasmo, de quem
se revelava portador do fogo vivo a prosperar. Assombroso. De verdade, causava
estupor. O estupor contaminante. Suando, tremendo, e a carne que queima, à beira
de uma explosão.
Explodia?
Quando conseguiu abrir os olhos, a
realidade era bem diferente e aquilo, seu mais que admirável Big Bang, não
passava de mal-estar. É que havia uma fresta na porta-balcão e a brisa noturna aproveitava
da oportunidade aberta para minar a noite que, ao recolher-se caindo de sono, imaginara
inabalável.
E precisou acordar para a necessidade premente
de agasalhar-se. Puxou a coberta até o queixo, protegendo-se da madrugada. Para
ter uma manhã menos amarga, o jeito era dormir de novo. Ou iria acabar sozinho
no banheiro, ocupando-se de viajar para longe, via celular.
Porém, o aparelho tinha um por cento
de carga, e, se ficasse sem telefone, perderia as apresentações dos artistas
favoritos, seus ídolos desde criança.
Como?
Quando finalmente conseguiu abrir os
olhos, o poeta virou-se, só que o relógio sumira do criado-mudo. Foi atrás das
horas na cozinha, mas o despertador que ganhara da mãe sumira também. Ô
encrenca! Mas a bateria já deveria estar 100% lá na sala, que estava bem mais
escura que o normal. Não tinha luz na rua nem nos prédios vizinhos.
Sem terror.
O hábito de colocar o aparelho sempre
no mesmo lugar iria servir para pegá-lo do chão, ao pé da tomada, junto da
porta da entrada do apartamento. Coisa simples, que poderia fazer de olhos vendados.
Ê caramba!
Quando finalmente conseguiu manter atentos
os olhos, a crônica estava chuchu beleza, naquele ponto que a publicação
estraga.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 17 de maio de 2020.