quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

De passagem


De passagem

Como identificar um covarde? Por certo, na fila do super onde faço compras. Claro que, por conta das probabilidades, no trânsito pra São Paulo, pelo fluxo de milhares de turistas, toparíamos com muito mais. No comezinho do cotidiano, refiro-me a mim mesmo, a ninguém mais.
Calma aí, portanto.
E a mulher passa pisando forte, cara enfezada, fala algo pro rapaz que estorvou na passagem, troveja sobre a caixa, que se mantém em silêncio, que os 40 anos na mesmíssima firma a ensinaram a fazer o serviço que dela era exigido.
Tempestades imperfeitas também passam enlameando tudo.
Já que a miopia impede a nitidez dos vícios que acalanto em mim, recorro a amigas e amigos. Mas esses queridos farsantes dizem ouvir o curió na maritaca. Assim, acusando parciais as explicações sobre a magia do universo, vago pelo mundo, pelo picadeiro que desconfia do medo deste sujeitinho que até aparece em maquiagem de pacato, de quem sabe ficar na sua. E fico numa boa. Mas, palhaço das perdidas desilusões, disfarço como posso. De óculos, observo bem mais.
Às vezes, acordo a um palmo do abismo, e recuo.
Minha vez de passar as bugigangas. A moça deste caixa sorri feito o sol no horizonte, relaxa com um suspiro, torna o dia ótimo.
Decisões pedem adiamento. E como complica a urgência de saber o que se tem pra fazer. Ô negócio chato, correr atrás de soluções. Se não houver problemas, negá-los da noite pro dia. Pois a pessoa hoje tem mais é que ter motivos para ataques de ansiedade, distúrbios do sono e fadiga muscular, mesmo com a bunda na cadeira.
Busco o meu telefone.
Pra que serviria o celular se não permitisse arrumar encrenca?
Baixo o aplicativo do empréstimo pessoal; meu CPF não permite.
Por falta de trampo, não há nada que posso fazer. Nadinha. Nem mesmo tocar um funk; se soubesse, dançaria.
Dá para fingir alguma conta. Desconsiderando os fatores. Embora o produto nem sempre some positivos ao cadastro, porque é grave. Até os arquivos o engolem sem dó, apagam, dão sumiço.
Cadê o resto do que não sobra?
Que falta danada faz a quem nem ousa curtir o ócio. Transformo a hora numa meleca de vinte horas sem dormir. Surto com as cinzas no umbigo. O dólar acompanha as explosões em Bagdá. As chamas não encobrem as fumaças do burro. Aliás, longe do Ártico e da Antártica, a lógica do texto vira um coala de luvas.
Escancaram-se bocas, olhos, e a porta do quarto.
Faz já um tempinho: retirei de casa o alarme; deixo destrancada a porta; tem vindo me visitar em sonhos o noturno das sobrevivências.
Faço o possível pra ser razoável. Sem bater, serrar, roncar, zunir, isso tudo funciona, só não voa nem canta.
Depois das trocas? Como fruta duas vezes ao dia; tomo banho de sol mesmo com o tempo tendo uns tremeliques; vejo programas que se apiedam de mim; pra desintoxicar, vou fazer teatro.
Bravo!
Um molar superior decide doer-me.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de janeiro de 2020.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Refluxo


Refluxo

Você não tem curtido as minhas fotos, está fora do Face? Não viu a postagem sobre livros, por que não acessa minha linha do tempo? Que egocêntrico, ninguém entra numa bolha pra negar a realidade. É sinal de distúrbio mental muito sério, isso, dar as costas pro mundo.
O mundo acordou daquele jeito, com o pé trocado.
Seis da manhã por um ônibus, a consulta às sete. Ainda bem que a Imigrantes está livre, vem a Biquinha, entramos na Conselheiro.
A mente tem as suas veredas, e toca viajar.
Mas o sujeito era detalhista, se achava um. E por se tomar fosse um, a cada gesto ou fiapo de pensamento, afinava a própria marimba. Pois o detalhista autêntico, cuja consistência está em incumbir-se do papel do enfadonho, goza de si ao aporrinhar o próximo com a gaita da fala rica em sutilezas que se repetem, se misturam, enredam-se.
Não tenho faro apurado para detectar quem chega em funções de amolador, somente aturando o dito cujo pro esforço de respirar fundo, manter salivada a boca e deixar o irritante prosseguir no júbilo da sua própria pregação.
Os amáveis adoradores de mitos (enfatizo o rigor sem eufemismo) procriam-se dentro da lei, com as luzes apagadas, de acordo com o decoro de suas abstinências. Firmes no leme, que a onda bate forte.
Não atribuo chatice aos invictos, mas aos de megafone, sim.
Ânimo!
Também espalho ideias e ideais, porém estou de dieta.
Vem um treco, mentalizo uma canção há muito perdida. Recupero aqueles dias que se esqueceram de mim ali, bem na esquina da Rua Peixoto Gomide com a Rua Augusta. Ai! Se os anos 80 me ouvissem, que decepção. RPM. Capitulação emocional, pode ser. A segurança do já conhecido, digerido, introjetado ― um porto.
Nem tenho desculpa para tal reminiscência, afinal ando distante das geladas. Ô cabeça.
Aliás, pobres anos 20, mal começam e dão comigo a repuxar fios do passado daquele que um dia viveu alguma felicidade. Na certa, foi feliz. Por que distraído? Agora, querer assombrar quem anda curtindo o B. B. King ou a Anne-Sophie Mutter?
Já nestes anos 20, primeiros e únicos em minha jornada, percebo ter pouco controle. Arrasta-me o tempo, inclusive o telefone.
E o que precisa vir, não virá.
Eu vou. Em movimento, penso. Montaigne a cavalo, livro nem lido. À toa. Ando tenso. Penso. Logo, torto. Penso que sim. Para cada sim que não penso, mais penso eu ando. Tenso que só.
Até agora, tudo bem. Vou indo, e mantendo promessas que jamais irei cumprir. Andar de balão em Atibaia, já era. Mergulhar na Laje de Santos, outra a menos. Escrever uma carta ao Papa, tem zap.
Estou zen, de poucas palavras. Ô.
A nostalgia envenena a saudade. Poupo-me desses anos 80. Seja torpedeada a mensagem. Topo a parada. Lerei depois.
Sarcasmo? Talvez irônico.
Não bastasse o atraso do ônibus, virá lotado.
Nessa horinha, o estômago lembra que não fica prenhe, mas tem uma boca. Sorrio.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de janeiro de 2020.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Terrivelmente bom


Terrivelmente bom

Os bons seguem fazendo coisas boas. Como deles se espera que façam, sem dúvida. Por ventura, há quem os reprove tanto amor ao próximo. Embora condicionem o verão dentro de casa, sabem que só é possível abrir espaço planejando a mesa na cozinha.
Fazem bem de dispor dos três banheiros conjugados aos quartos, ou teriam a vida tolhida por uma perdiz assada em molho de aspargo. Mesmo sobrando cadeiras à mesa, o amargo da média está nos dois dedos de café sem qualquer pitadinha do mascavo.
Como não ter medo se o futuro está nos ponteiros? Para onde vão os famintos durante a noite? Anda-se muito para poder abraçá-los? E como dizer-lhes o quanto de amor há nas palavras por dizer?
Não se faça perguntas. Como se a bondade existisse sem os bons que a praticam. Com um pé atrás, nada ajuda quem precisa.
A generosidade do próximo só vem ao mundo porque os bons vão além das palavras, transformando-as em ações. A generosidade está na certeza de beijos, abraços e apertos de mão.
Simulacro do caos, com uma dose exagerada de desordem, o que tira da verdade a credibilidade da mentira desmascarada, o cotidiano merece da fé o concreto das obras bens realizadas.
O chão da rua não mede o luar pelo sonho. A boca quer do copo a água. Por isso, homens há que cuidam de: pôr regras a quem tem pústulas nas canelas; ditar orquestrações pra que a fila vá constante; confabular a moral da história para o bem geral.
Os bons é que conduzem ao bem-estar dos que mal conseguem ir em paz pelas praças sem coreto, embora possam dormir sem alegria.
Ainda que venham os pessimistas com números e tabelas, os tais que vivem a marcar flagelos, rinhas, balas perdidas. Embora venham, a eles sejam apresentadas a misericórdia do desprezo e a ociosidade da indiferença. Embora os bons não se comparem aos ruins, afinal o rei está nu a quem tem olhos pra nudez.
Ou seja, a alegria pode camuflar o ronco do desespero na fome que não enche a barriga de ninguém.
E seja dito sem rancor, ninguém como eles; homens bons que só fazem o que fazem porque há quem precise das coisas boas. Bons o bastante, pois homens de bondade não explicam nem querem saber as razões inconscientes que os mobilizam.
Homens de bondade comprovada pelos atos dão notícias do bem que propagam, divulgam, comentam, indicam, espalham, contaminam e tornam o mundo este lugar menos confuso. Homens bons põem as devidas ressalvas quando vírgulas atravancam a fluidez da corrente. Os bons, os que estão imunes à raiva, eles têm na honestidade dos propósitos a verdade da sua modéstia. Agem como bons.
Mas o selo que os diz bons está em mostrar tudo que fazem.
Uma vez que cai bem enviar um axé a quem dá o melhor de si até de olhos abertos, que 2020 seja bom, terrivelmente bom, àquelas e àqueles que seguem mantendo a dieta racional de ter aparelho de TV na cozinha apenas para as receitas do dia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de janeiro de 2020.

Esperançando


Esperançando

Caríssima paciência, saia do papel, vire sorvete ou um leque.
Que o plano fique bem definido, até porque o calor está fritando os meus miolos e tenho perdido o sono às noites de vampiros, atrás dos espelhos. Logo, é preciso ter um plano ou a coisa degringola. Assim, ter a ideia, organizá-la, executá-la. Tudo muito bonito, e prático. Aliás, nada de abstrações. Sem o fetiche de ficar marcando passo, naquele folclore de prender-se ao temido até não poder mais.
Se sorvete agrada à língua e abanar-se exercita músculos? Muito bem. Banco, dinheiro, sorvete. Sem lengalenga nem cara ou coroa.
É disso que estou falando ― do sonho ao tédio da satisfação.
Cruzo os braços. Não vou desperdiçar um minuto desta manhã. O dia de ontem foi de calor, praias lotadas, filas imensas e notícias que passaram feito boato. Corro aqui, corro ali, no corre-corre que faz por mim o que não ouso pensar. A cidade está segura de si, uma vez que as pessoas estão certas do que fazem. A paz tem seu dia e nada vai impedi-la de aliviar o desconforto de estar em mim como se dor de cabeça num corpo suado. E o pensamento volta-se para o desejo de imaginar um gesto menos apático. Descruzo os braços.
Posso ter cinco minutos digitando? Apagando as palavras.
Melhor sorte quando tentar de novo. Mais ainda, com algo a dizer.
Tédio. Poderia ter ido mesmo ao banco, veria pessoas passeando com seus cachorros. Brincaria com alguns, manteria distância ou iria querer fazer cafuné nas pessoas. Haveria interação, realidade.
O sorvete. O ar-condicionado. A vizinha que está fazendo suco, no liquidificador. Ouço as rodas de um carrinho, no apartamento superior tem criança, até ligo o chorinho à criança que brinca.
Pais e mães sabem cuidar, negam o que bebês pedem. Conforme sua disposição. A disposição deles, de pais e mães.
Como devolver o sorvete já consumido? Como negar caixinha ao entregador de água mineral? Como vencer o tédio, já entediado?
Ligo a TV, desligo. Fuço páginas no celular. A rede está falhando, tem mesmo muita gente na cidade.
Agora me lembro de que tenho uma lista de compras, mas pensar em ir ao mercado já me aborrece. O tédio como aborrecimento.
O primeiro dia do ano? A chatice de sempre.
Nem mais nem menos. Babar no sofá. Pensar.
Há milhões de pessoas que passam fome. Há milhares que estão nos aviões, automóveis, ônibus e nos transatlânticos. Há uma gente que lotaria a praça, todavia o coreto está em obras.
Tomo água. Sinto a peçonha. Espero reagir quando o pernilongo vier para me picar. Não quero acabar vencido pelo tédio. Preciso das esperanças. Vou trabalhar a minha mente com caminhos outros que não os óbvios. É o melhor que posso neste momento de certezas que me levam a ter uma ideia do que não prometo ao espelho.
Se nada digo sobre o futuro, penso: estou em movimento.
Pena que me abraça um tédio que gruda em mim.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de janeiro de 2020.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Estupidamente


Estupidamente

Pra desanuviar desse ano, vem a voz de alguém que não recordo quem seja, leio como provocação: “todo bicho que camina va a parar a la Facultad de Filosofia y Letras”.
O lápis, com a ponta quebrada. Poetas e novelistas, enlivreirados nas estantes. Em virtude desta cabeça de papel, não marcho o mapa mental que em mim borbulha.
Quedo-me aqui, neste meu apartamento da afluência que segue na torcida pra que não faltem, pelo menos isso, as sete ondas no mar das gratidões.
Confirma-se a desculpa, padeço dor de cotovelo. Estou murcho no escuro, obra de janelas e cortinas cerradas. Sob aquele turbilhão do maravilhoso, a espocar cores, sons e cheiro de pólvora? Cancelada, a presença na praia.
E diante da incompreensão estapafúrdia da assim chamada atual conjuntura, decido soltar as amarras da linguagem. Porém, o pássaro não alça voo, e escolhe ficar aninhado no obscuro, de geolocalização pânica, posando de extração difícil.
Pego do copo d’água, tomo a parte que me cabe. Deixo metade a quem queira beber. Basta beber, nem precisa mastigar os cacos; daí, como se saliva fosse, nem vai precisar engolir o próprio sangue.
Talvez no peito.
O coração pede para livrar-se de um punhado de dores que serve pra alimentar com sofrimentos a angústia que me chama até pra bem perto, toda íntima. Coração que pulsa também para, e, numa tristeza patética, fica a conferir os erros que cometo.
Ô bicho mais sem graça. Com asas de mágoas já em rugas, feitas das penas mais pesadas que o amor. Sufoca uns brotinhos de alegria que mal chegam comigo ao sono. Ô urucubaca a comer-se.
Quero dormir. Peço ao travesseiro, não afunde mais no sombrio. A coisa não tá boa a quem quer se livrar do bicharoco. A insônia joga areia nas miopias, pesa pálpebras.
A anomalia? A temperatura vai a 36,5º. O pulso chega a 12/8. O batimento cardíaco desacelera. A sensação de que a virada vai levar ao hálito. Se houver amanhã, será nefasto. De um aziago pátina.
Pra piorar o que já está aberrante, comigo a poetar em silêncio, a névoa do abismo sobe dos pulmões aos calcanhares. Amorcegado, nesse sono de pinceladas de origem, ponho Rothko no Rotkho.
São manchetes na garganta. Garrafais, letras e não nenúfares. Aí o estômago finge conhecer o que não sabe. Entalo a pensar. Meu é o desprazer que trata de me roer sem mastigar.
Massa de ar tóxica, nuvem que não flutua nem voa, circunscreve. Nada tem de urubu, corvo, anu. Tal ave, que faz dos últimos instantes de 2019 uma estação sem nome, acalanta os meus tormentos.
Mas está por um fio. O chão já se abre. O sangue que restou dos meses de doação compulsória azeita a engrenagem que não acelera.
Bebe de mim, Margarida. Suga-me. Há tanto ainda por esgotar.
Tenho nas veias a luz da entrega, só não vou dizer.
Ô ano inibido pela pressa. Tais 365 dias como cachaça.
E o meu 2020? Por favor... estupidamente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de dezembro de 2019.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Última hora


Última hora

Quer desassossego maior do que uma espinha?
Costumo ir ao supermercado mais próximo do prédio onde moro pelo caminho mais curto. Todavia, só vou às compras quando alguns itens de primeiríssima necessidade dominam a lista de falta iminente. Obrigado ao consumo do que preciso com urgência, percorro o trajeto a bolar como fugir da hecatombe do ambiente.
Pego e pago. Mas, terrifica-me o banal.
Com firmeza, um segurança toca o maltrapilho fedorento para fora do estabelecimento. Que ele tenha lá 51 razões de reivindicar direitos às moedas que jura possuir; que vá empenhá-las em outra freguesia, aqueles bíceps instruem-no.
Curioso, têm brotado umas garrafinhas nos interstícios da cidade. Terá quem beba pinga distribuída sem patrocinador evidente? Haverá quem queira tomar um refrigerante desses, embora esteja em vigor a dica velha de guerra de não aceitar balinha nem de conhecido?
Caramba, alguém deve ter virado a placa do desvio.
Resolvo conhecer o shopping que abriu onde já teve um shopping. Muito espaço à espera dos empreendedores. Muita gente despojada de sacolas. De regata, bermuda, chinelos e assobiando mentalmente La vie en rose, nem me reconheço.
Quase terminando a minha voltinha, dá-se um imprevisto.
Perturbo-me quando o brusco se faz notável, por isso acabo preso ao interesse de ver qual desfecho terá o imbróglio dessa mulher, cuja barra do vestido engasgou a escada rolante.
Juntam-se pessoas no primeiro andar, juntam-se outras no térreo. Que providência tomará o funcionário chamado? Já o chamaram?
Isso, aquilo, e nada de tirar o pano emperrando as engrenagens.
Com uma tesoura, executa-se o sacrifício. Dá-se a libertação.
Todos aplaudimos. Como não é mais a véspera do Natal, há quem viva no alívio das promessas que teve de pagar. Com a comilança da ceia natalina bem digerida, há quem espere de camarote. Muitos são os aplausos, muitos deles mesmo de sincera empatia. De tal maneira aplaudimos, há clima pra tanto.
Tesoura para quê? Os dentes da escada rolante já mastigaram o anonimato dessa daí, solta a mulher vestida idêntica àqueloutra.
Quem me dera a impetuosidade de comentar a vida a quente.
Traço as esquinas.
Engraçado, talvez aí estivesse, mas fui que nem vi a senhora dos cachorros. Sentada com as costas escoradas no portão da garagem da casa sem morador, ela come do marmitex na presença da mulher das boas-novas em folheto.
Entro pelo apartamento.
Oxe. Gastei a última hora sem percebê-la tão suarenta.
Estará a brincadeira em desconfiar que a neura que me trava em pensamento rola por que, avesso a descargas de adrenalina, não fico recorrendo ao subterfúgio de viver aos sobressaltos?
O espelho do banheiro me pega sorrindo à toa. Nada mais ridículo que se achar menos ridículo que o outro. Ora, ora, ora. E que sorriso torto ele tenho pra mim.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de dezembro de 2019.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Cara de bobo


Cara de bobo

O poeta recôndito, a postos em mim, vez ou outra quer tomar sol. Pensamos de acordo, o bolor gosta dos cantinhos desconhecidos dos ventos da luz. Assim, para não nos asfixiarmos na palidez que enruga a cútis de tanto pudor, vem a calhar levá-lo pegar um ar.
Nada como sair pra espairecer um pouco.
Quanto a mim, entretanto, não entro em fria por impulso. Topo um sacolé. Da carteira, tiro a sorte. Seja feita esta minha vontade.
O calçadão lotado convida a observações desinteressadas. Passo por turista. Pachorrento, que adoro mormaço, que o calor cansa, que o depois do almoço, então, pede mesmo um chupe-chupe.
Nem vendedor, nem banco para sentar a lerdeza.
Como lombriga mata, apelo para um picolé.
Pesam-me os pés, jogo-os ao mar, bem em frente da lotérica. Pra quem vibra com pescarias, porto de apostas nesta época é rede farta. Com a serpente fluindo águas de enseada, afino os ouvidos para me deliciar com os pescados do alarido.
Sabe aquele sonho de muro baixinho, quintal amplo, criançada na laranjeira. Sabe aquela fera para as veias do temporal no barro. Sabe aquela ressonância que o plano da minha avó apressa enxotar. Sabe aquelas taxas de gente graúda da peneira infantil do time.
Pra enfrentar a realidade, perdê-la ao domá-la por atos e palavras. Que brilhe a máscara, o disciplinado aos fatos. Se dois mais dois dão quatro, que a raiz quadrada de dezesseis venha a dar no mesmo.
Em outras palavras, se estiver mentindo ou gracejando, querer-se errado é induzir ao erro. Para entender a vida, torná-la um jogo.
Numa partida de xadrez, aliás, os jogadores parecem quietos, têm calculadoras tinindo, podem a tossinha pro gole d’água. No conforto do embate escancarado, o diálogo ali é confronto. Afinal, haja jogada pra atirar os ponteiros pra fora do tempo. Exigem-se, ambos. Então, a derrota aponta que há um vitorioso; o outro sofre a sua derrota. Sem o compensatório da persuasão, basta o aperto de mão.
Pra compreender a habilidade da leitura do mundo, aprendê-la.
Embora haja quem faça de conta, como bem lhe convém, ponha a pitada de lucidez, acrescente o pitaco dos falsificadores, mais pilhéria a gosto, vá mexendo devagar mas com firmeza, na convicção perdida de quem mais vê do que enxerga.
A matéria não causa espécie, produz energia. O cosmo, segundo adoradores de truísmos, de acordo com temperatura e pressão, está a ponto de não mais prescindir da precisão dos números. Pode cegar ou flamejar-se em explosão. Extraordinário, o fogo que houver.
Voilà.
Por leis, códigos e contraditórios, o repentino da poesia sussurra um número. De posse da dica dada pelo universo, vejo a apontadora, que não disfarça ter a sua fezinha da Virada. Como azar é pra quem tem, arriscarei umas merrecas. Na cabeça.
Mas quê!
Melados de Chicabon, um dínamo de vida vem dar suas lambidas nos meus dedos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de dezembro de 2019.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Aquela canção


Aquela canção

Hoje? Ontem? Na dúvida, permaneci parado. E não apenas, fiquei na minha. Embora não soubesse qual era mesmo a minha. É que não penso direito quando estou queimando o carbono das pestanas. Sei, a emoção suplanta a razão. Estímulo? Os ritos da travessura azedam as coisas, e o sono tira a paz bem no meio do sonho. Dali em diante? Mantenho os olhos fechados, naquela quietude de quem tem mais é que ficar dormente. Que a noite germine calamidades. Padeço ouvir o que não ouço? Fácil, passo a sorrir pra chuva que imagino. E quando topo desperdiçar a lucidez, acordo.
Sei aquela canção da manhã cantada como quem bebe histórias da ostra encontrada sob a areia, coberta de terra, retirada da lama. O ventre da noite cósmica protegia a ciência. Sim, até das ambições.
Aquela canção do fim da manhã diz que há pérola dentro de mim. Há o sol, como objeto de valor fora das vitrines onde o penhor ofende desigualdades. À medida de algas petrificadas, o grau da eclosão em mares sempre navegados, sem que os extintos nas eras evaporadas queiram reinar nos veios calcinados do bicho agora exposto. Eu?
Aquela canção no meio da tarde cantada junto, desafinada junto, acompanhada com o estralo dos dedos, com abraços acolhedores, é o mundo redivivo a cada assobio. Tal canção traduz: a esperança na fatia do peru, mesmo o gosto alterado; a promessa na solidariedade, já mofado o lixo na lata. Ambas impregnadas do tão humano? E isso faz máculas vencerem o amor. E isso pode cálculos. Nós?
Aquela canção no meio do gole de água vem despida da sede que não devo prometer a quem espera que, a qualquer instante, a boneca que fala que me ama naquele inglês perfeito brote ao pé da árvore ou a capotão nº 5 de costura grossa crescerá túrgida junto da lareira.
Nem lareira nem pinheirinho, que o país tá numa draga. Eles?
Dá-se um jeito, pois tudo nesta vida tem como. Basta querer. E se basta, que venha a nós de uma vez. Se puser fé na reza brava, virá logo. Se tiver figa de madeira roxa na bolsa. No meio da tranqueirada da bolsa, o cartão der crédito a quem precisa.
Entre as folhas do contrato do apartamento e o celular cuja bateria pifou, aí está o cartão do SUS. E os dias andam mesmo pedindo esse basta bem dado. Sem fazer fita, bem na fuça do olho grande.
Que os invejosos sonhem. Também.
Depois que apreciadores da fantasia alheia saírem em segurança, o restante fique como se encontra. Sem perdão, o atendimento canta alto. E com tanto amor no coração, a noite maravilhosa sempre quis ser uma noite feliz. Mas a canção no meio da madrugada tinha de vir logo com a geladeira entupida de pudim de leite condensado? A vida de ingratidões estraga a humanidade, o gelo no freezer também.
Ontem. Descascada, a banana adoça. Hoje. A bunda amorteça a queda. Somando saberes: coma-se o fruto com casca e tudo.
Mesmo sem entender os estratagemas, cantemos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de dezembro de 2019.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Panetone cancelado


Panetone cancelado

Antecipando-me às festanças, começo pedindo pra esclarecer que pouco tenho a dizer sobre o tal do Santa, esse que nunca mostrou a cara que dizem que ele tem. Embora baseado no depoimento sincero de pais observadores, atentos às sutilezas consumistas dos rebentos, o que há a respeito não passa de retrato falado. Em outras palavras, quem põe a mão no fogo pra negar que a barba não é agregada ou o barrigão de tanto chocolate? Assim, de chofre, faço este meu pedido, mesmo soando como prévia das desculpas esfarrapadas.
Isso vai de mal a pior. E do pior ao péssimo é um pulinho.
Por ora, admito a dívida com uma amiga que veio visitar-me, mas eu estava desfilando meu espírito de Natal. A coitada da minha amiga viajou da infância para dar com o desamor da porta, insensível a três horas de campainha.
Renas mascando juros? Ficam banidos os enfeites da porta.
Ô vida.
Como o Velhinho anda num aperto danado. Soube que os pedidos de todo mundo estão na nuvem, que tá pesando pra caramba, e, com a lista quase infinita de gente que não paramos de nascer, corre-se o risco de desabamento.
Quê? O mundo acabar em água não está descartado?
Acabar...
A semana poderia ter acabado na segunda-feira, com aquela Tati falando o que falou na TV, mas a boa família brasileira tá de ouvidos lacrados com o mimimi pra cima do Trio ― o Pai, o Filho e o...
Ué. Que fim levou?
Tá osso. Cadê misericórdia pra patos, burros e vacas leiteiras?
Sim, sagaz leitora e fanfarrão leitor, os jornais online informam que Wakanda está em guerra comercial com o Tio Sam.
Assim, os bichos mencionados estão deletados do planisfério.
E precisamos falar da Terra e de suas filhas e seus filhos, desses que andam por aí aprontando que nem o pé de vento que aqui bateu agorinha de pouco.
Como o troço veio de roldão, homens e mulheres, cães e gatos, todo mundo e seu pai também, toda gente que estava no olho da rua viu-se pega no contrapé.
E foi um tal de pôr o bichinho no colo, encolher-se junto ao tapume do prédio que virá, implorar pra que São Pedro lá do céu desligasse o aspirador rapidinho, ê.
Ê? E fez-se o que não se fez.
A tarde vai no ritmo. A chuva não veio, nem temporal se formou. O azul esplêndido. A dona do cão vai faceira. 37 graus. O sol manda no pedaço. O Atlântico segue blefando as suas ondas. Na passada leve, já curtindo a leitura próxima, a casquinha me abocanha R$ 3,00. E o sabor promete, No centro do reino de Ártemis, por Eucanaã Ferraz.
Ainda bem que me lembro da revista que não li. Toco pra casa.
Haja desvios de vultos empacotados.
Que lindeza o par de vaso: a distinta num tamanquinho de Rodes e a... Filhinha? Amiguinha? A fofinha... Uma cabrita. A dupla de rosa: o chapeuzinho na cabeça das duas; o lacinho no tornozelo destro de uma e na patinha posterior direita da outra.
Méé? Mesmo com um 2019 desses?
Mééé!
Tá bom. Boas Festas pra você também.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A neblina


A neblina

Como hoje não estou para brincadeiras, digo que o que orienta os meus sentidos, direcionando o foco das minhas alegrias e filtrando o grau das minhas decepções, tem a ver com momento e lugar, é o que me apanha na sua teia de acontecimentos. Sem confusão nenhuma, a vida de cada dia deve a sua existência a circunstâncias que fogem indubitavelmente ao entendimento, ou têm razões imponderáveis.
Mas será?
De que me adianta o absurdo de não entender o que querem dizer os sinais do mundo. Indecifráveis, portanto incompreensíveis.
Será o acaso o menino de todas as crônicas perdidas?
Esta, ô exemplo, está atravessada pela imagem que somente me vem nas palavras: o horror devorando sardinhas.
Estará nisso a origem do fantasma que trago em mim?
Nas paredes do estômago, na ceva do íntimo, nada prevenia que, em meados de 2006, a crise viria daquele 2005, de cujo dia único me despertei um tão fundo mar? Obscuro, repulsivo, mar arredio a boias de carinho e braçadas de acolhimento. Horror que segue.
Fui ao médico, e ao mundo veio um nome: gastrite.
Sob ataque do inexplicável, insondável provedor de mal-estar, me azedei de tal modo que, examinado nas raízes, o despautério ainda zomba do diagnóstico. Devorando...
Comigo à porta daquele prédio, já aí em 2017, que havia consulta urgente. O doutor dessa minha cabeça mantinha ali seu consultório. Pro acesso, preciso ter autorizada a entrada? Bastava o CPF digitado no painel eletrônico ou poderia a identificação do indicador, quiçá do polegar, cadastrado no sistema. Aceito o CPF, por favor.
Ladeado por seguranças de ponto sem fio no ouvido, o balcão era grande o bastante para que três funcionárias de crachá e coque bem visíveis checassem documentos e a sua veracidade, para autorizar o acesso aos elevadores.
Oito portas largas, divididas igualmente à direita e à esquerda, sob o comando de dois funcionários, cada qual responsável pela bateria do seu lado; esse digitou no painel o código do meu crachá; instruída a máquina do andar a que, individualmente, fui autorizado, subi.
Pelo endereço da sala, à direita e à esquerda, a ordem era: A pros pares e B pros ímpares. Um horror...
A ironia é que o doutor que poderia me trazer de volta à voz do dia a dia está submerso nessa rede em que sereias seguem afogando.
Ai, ai, meu bom Bacamarte, estou aqui, sujeito a ser nauseado por desejos que até me conseguem dourar.
Mas... é da vida.
A vida sedutora, bicho que se come pelo rabo, a olhos vistos.
Tal o encanto do mar, bravio, indomável, o sol nas próprias vagas, fúria a espumar nos rochedos o sal que o farol não anuncia.
Sigo, tão útil aos diagnósticos. Sigo, desconfortável no rótulo. Vou que vou, devorando sardinhas que me devoram.
A existência puxa pra 2002 e os fracassos, pra 2020?
Há perguntas que dilaceram pelas respostas que não tenho.
A neblina é agora.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de dezembro de 2019.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O olho da noite


O olho da noite

Se o dia promete, cumpra-se o ordenado pelo que se há de fazer.
Sentado à mesa de trabalho, a tanto de implicar com a insistência do vento a desnudar a face do espelho: que poesia haverá em ficar bulindo com as coisas da gente? Bafo da Terra, vá brincar lá na praia, tem tanto azul para poder pôr pra fora as suas asinhas.
Sem o susto do medo que prega peças, faço minha parte e, neste texto, vou movendo o fio do realismo, o elixir dos prosaicos, uma vez que, à cata de alguma personificação, não darei corda ao místico.
De prosa em prosa, com a mão do cronista abrindo mão da língua do vento, chego aonde o gatinho familiar do Manuel e as enigmáticas pedras do Carlos vão ninar o poeta, já fora de cena.
Uma vez que não acreditar em nada pode causar problemas, trato indispensável montar o quadro, ajeitar o figurino e decorar o texto.
O que tenho para dizer?
Conheço uma anedota, dessas que não fazem rir, que minha avó contava nas ocasiões mais esquisitas, quando a parábola soava mais estranha. Só depois, bem depois, quando as lufadas já não eram tão violentas, então a fresca tomava rumo, como frescor de brisa.
A historieta diz que um campônio estava indo pela estrada. Num saco às costas, levava queijos e compotas de doces; e num carrinho, um sortidão de vegetais.
A caminho do vilarejo mais próximo do lugar onde morava, ele ia vendendo os seus produtos. E tinha pressa.
Para aliviar-se das iguarias de açúcar, tanto punha fé que o sol as mudaria que até o saco foi logo vendido. E queria apressar-se.
Na lábia, professava que ia atrás de unguentos pros dedos tortos de trabalho. Quem o ouvia lamentar-se da faina dos dias comprava mais do que precisava. Ele sabia matar a sede que sugestionava.
Tendo já percorrido quatro partes da sua jornada, o pelintra viu-se com uma cebola. Como a estrada chegava ao fim, o jeito era negociar com quem aparecesse na frente.
Vindo dar-lhe as boas-vindas, da choça de palha a pique saiu um velhinho de andar pesaroso.
Cantou-se a ladainha de restar apenas aquela mísera cebola.
O ancião, assentando-se junto do andante, propôs comerem a tal cebola; repartida entre ambos, ao sabor da pinga do seu alambique.
Eles comiam, eles bebiam.
Falaram das noites frias que anunciavam o outono vindo, e o gole. Falaram dos dias do inverno que pediam despensas, outro gole. Daí a primavera aflorou de permeio, daí o gole derradeiro.
Não seria o caso de sair de mãos abanando.
Se o velhinho jogou de longe uma moeda de cobre nas mãos em concha da visita? Pois beberam juntos. O cego atirou-lhe uma moeda de prata? Que manhã boa tinha sido aquela. E como paga da farra na cidade, o homem da choupana deu-lhe a sua moeda de ouro.
Mostrasse as mãos; elas estavam sem nada. No sério da palavra, aí a cebola do ano germina em quem só tem olhos pra ver.
E foi, é?
Oxe. No véu do espelho, a lua de dezembro tá que nem pisca.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de dezembro de 2019.

domingo, 15 de dezembro de 2019

O ofício


O ofício

Quando abelhas param um ônibus, será sinal dos tempos?
Largo a notícia sobre os últimos eventos na Inglaterra eleitoral, no súbito da chuva. Corro às janelas, chove forte. E na chuvarada, umas crianças desgarram-se do pai e da mãe que vão conversando, como se chuva não houvesse.
Como não havia dessa vez, no recuperado do acontecimento.
Talvez me conjurem de tê-lo trazido pelo prazer da rememoração sem motivo. Não fosse o homem aí sentado no meio-fio com a boca escancarada pras nuvens que mandam água do céu.
Tirando sentido disso?
Lá estava eu, engessado na autoridade do paletó. Como padrinho, no engravatado da cerimônia. Sorrindo minhas dissimulações. Então, deu-se a entrada dum figurão do interior, da cidade paulista, que era Piedade.
Pelas tantas, veio o merecedor das devidas vênias. Mostrando-se, pelo porte, considerar-se vereador, prefeito, quiçá um dos magnatas do comércio, e mui digno dos maneirismos de alguns dos presentes.
A jovem e o jovem, os mocinhos, contavam com a vinda daquela agenda apertada. Providencial, mesmo, foi uma senhorita tomar-lhe o braço para composição do nosso lado, que ele era como éramos ali, testemunhas do casamento.
Se fosse uma história da carrochinha...
Quebrando o protocolo, tornado vilão pelas circunstâncias, um cão viria conferir o que estava ocorrendo. Sem convite que o autorizasse entrar, viria assuntar a mulheres e homens, com os seus olhinhos a indagar o motivo da reunião. Contudo, sendo conto de outra espécie, aqui não se verá no encalço do filósofo de patas o óbvio barnabé de laço na mão.
Com o ritual seguindo seu rumo, sequer a presença em cena do homem das ruas mereceu ter sido notada. O invisível seguia fora de foco àquela gente orgulhosa das conquistas, cidadãs e cidadãos que, nas palavras do pastor, houveram-se por abençoados.
Todavia, façamos jus a uma história que faz em cacos o esperado, pois o protocolo, uma vez introduzido na crônica, é para ser feito em pedacinhos.
Dito isso...
Quando a magia da celebração parecia já bem encaminhada, eis que duas menininhas, gêmeas até em suas roupinhas, ei-las a correr em meio aos convidados, na algazarra das trancinhas em disparada.
Acabei perdido do interesse no compartilhamento do fogo de uma vela para duas menores que a ladeavam. Adeus, metafísica. Adeus, ó metáfora do amor supremo. Adeus, adeus.
Fez-se a fila dos cumprimentos, noiva e noivo acolheram por bem recebê-las, as felicitações, com aquela resignação dos receptores da verdade, havida como fogo no sacramental da explicação.
Guardei ouvidos sobre o ministro, que era pai de satãs sem sutiã, que, embora constrangidas, ó hormônios do demônio, sabiam sorrir.
Tais olhares numa contradança?
Sob pancadas perdigotas de renitentes, a graça dos peraltas está em manter o clima sem ferrarmos o rebolado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Fumacê


Fumacê

Como não tem podido ficar em casa, que hoje fosse o caso. Bem faz que seja, está chovendo. Puxa a cortina, o tanto pra conformar-se com o aguaceiro a impedi-lo de ir aonde houvesse de ir. Frio, vento e chuva, que não sejam tais condições a vencê-lo? Irritam-no. Com a cabeça pegando fogo, e sem ao menos arranjar uma cara digna, a de quem escolhe por si o constrangido do apático, topa a máscara que resulta na mensagem digitada. Aos vivos, diz que a vontade é mesmo de ir-se para atender os compromissos, mas esse tempo. Não fosse, teria podido sair de casa. Como queria ter podido mais. Até bate uma saudade, do nada.
Aconteceu. Num ônibus, indo ao psiquiatra em Santos. Se mais ou menos? Em atrito consigo mesma, que trate a mente de se retratar:
Como tenho talento pra me concentrar no que faço, procuro errar bastante, assim no desembaraço de ir escrevendo, sem ficar vigiando que a fala da escrita vá ditando o seu ritmo, na velocidade com que a mão consegue acompanhar o que o pensamento solto vai saltando, é como se a correnteza fosse menos de água e mais de ar na ventania de sua necessidade de expressão, sem as rédeas das margens, sem os arreios de impor ao xucro a cavalgada do conformado ao cabresto, passo a estudar como cheguei aos erros, e ir mudando, aprimorando, custa o esforço da coisa querida, vou aparando o excesso, e vou na levada, até que os erros ganhem em mim o estatuto da virtude, assim conquistada na concentração da melhoria, a do mal tornado bem, do imperfeito que foi sendo lapidado, burilado, decomposto, recomposto, até revelar a luz do limite do possível, o que ganha de mim um ufa!, que é aquele peso tirado dos ombros, ufa!, nada como fazer o que dá pra fazer sem se descabelar, que assim o fabricado desse modo tem ainda a preservação das cicatrizes, cascas, feridas, manchas, do que não sai nem com cândida, mas tem que o resultado não vou chamar de horripilante, uma vez que monstro é a perfeição, que é o antípoda do bem feito. Se gostou da coisa, roube-a pra você. É isso, a vida diz verdades sem as platitudes do verdadeiro, como se uma pérola fosse achado do improviso. Toca! Pegue, pegue sem medo, que ideia não se rouba, se compartilha.
Rosa? Rita, o nome que a voz turva dos ruídos parece borbulhar. Decantá-la, a face, trabalho que os trapos da memória cobrem mal. Da visão captada, o aplicável ao real; da apreensão, o rebarbativo.
O ato, pra quê. Pra escrever, o quê. O que pensa, como. Como se vive, quando. Quando escreve, sobrevive. Até por quê? O texto diga o que tem pra dizer. Embora a razão sofra derrotas, que ela lute com o reles da cuca.
Que fogo é esse?
Se não do trânsito dos neutrinos que passam pelo corpo que não os ampara, de onde vem?
Ao tirar o dia para o disponível do ócio, a recompensa do espanto resultaria em maior fracasso se tentasse frear-se ao menor gozo.
― Ô pirralha do cacique.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de dezembro de 2019.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Um abraço


Um abraço

No friozinho deste instante, passa por mim um cão. No encruado deste instante, vegeta no seu olhar uma flor sem viço, o baço do seu desatino. Este desgarrado reverbera o mundano da sua presença. No seu olhar, a solidão de quem espera o que deseja. Na ânsia de suas necessidades, algo estranho manifesta essa vontade que não sabe de si, mas busca abrigo. Uma incompreensão aquietada no diapasão do pedestre; um rocio na raiz da muda ― abismo de cão no homem.
Irmanados na dor, nessa dor funda de quem pouco deixa de si nos rastros do mundo, como desejo que se cala pelo desconcerto diante da vida. Embora negado, seguidamente negado, o cão não se busca nas perguntas que não faz, guarda o amor aos pés dos sentimentos. Chega a abanar-se ligeiro, atiçado talvez por ter sentido a resposta, e veio tão somente outro gesto qualquer.
Diante do que passa, o menino não fica sentado.
Se falta a palavra, que se invente. Que seja a mais precisa, a mais íntima do que sente, a que expresse o que quer dizer. Com pontos de fuga, perspectivas de espirais, abstrações de névoa, esse tanto que o confunde. Afinal, quem roda em torno de si afaga a vertigem.
Sol? Pelo brilho quando pronunciada, talvez seja mesmo a palavra sol a que esteja imaginando, no momento deste ardor.
O menino sorri, pois algo aí não o convence de que esteja certo. A boa nova da coisa toda é que não quer nem pensar que esteja certo. O sol, isso o põe bastante alegre, cheio de si nessa alegria, embora nem desconfie que seja euforia, aquilo, o que o move.
Ô sarna! Vai ao lápis para exprimir o que pulsa na mente.
A gravidade do pensamento sugere a poesia que lhe escapa mal o grafite baila no ar. O inefável que o inspira nem sopra ruínas; pétalas e espinhos somem ao redor da folha.
Encantado pelo que não veio, abre-se ao sorriso do singelo?
Fechados os olhos, ajeitado ao corpo, desnudo na cama, sente-se de volta ao figurino de menino só.
Levo-o, quem almejava cantar o que hoje canto. Não apenas por mim nem só por ele, me apetece pedir por tantos que zanzam por aí, enfiados numa tosse que logo vai passar, entretanto não passa coisa nenhuma.
Menino, conquanto possa um tropeço, cuide que estão olhando de soslaio. Bem no momento da passada, há uns trecos que gostam de fazer piada. Rapaz, a rua anda louca para rir da nossa cara.
Vou-me, e sou levado a ir. Reluto, e luto. Escolho baixar a febre.
Quando passo ao pranto, conheço o triste do desamparo. Todavia, pela lágrima, importa saber que o mundo não sente da maneira como sinto o osso do viver?
O sol sobe as montanhas, desce os poços, escala as notas, atalha frases. Sem interromper o fluxo, sua língua estrala. Há uma implosão, há este sol que se apaga. Há uma explosão, o eco do que se perde à razão do ser.
Trocando em miúdos, o menino que carrega o homem nos braços claudica ao traduzir, em palavras, o que significa esperança.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de dezembro de 2019.

sábado, 7 de dezembro de 2019

O amor indispensável


O amor indispensável

Nas compras, com a multidão pagando pela paz na Terra.
O amor que nos une é que nos afasta dos maus, diz o homem de guarda-chuva na mão. Permanece calada a mulher de sombrinha na mão, mais interessada em uma sandália de prata. Talvez quem pouco amor tem recebido possa negar que as festas do Ano Novo já dobram a esquina, mas não o faz.
Pode acontecer, pois está vindo. E traz o branco do vestido curto e o branco do bermudão pelas canelas. Funde a saliva pela sandália de prata à da perdição do sarongue cor de sangue com girassóis, araras e um coiote ocre. Isso, ocre no rubro.
Sem gritar e sem ultrajar, passa uma turma. Vem de cabeça baixa, telefone na mão. Meninas e meninos; em grupo, e sem tropel.
Por sua vez, o amor que une muito agrada a quem vive grudado no próximo, de modo que, afinal vindo, será pérola a mais no colar da vida, insiste o chato de pescoço à mostra.
O inocente não perde a inocência quando se diz inocente, reza o tagarela. Perde-a quando diz coisas sem pensar, emenda no gatilho a distraída. Põe a palavra depois de outra, diz àquela a terceira, a essa a quarta. Até que o poço dê no fundo de outro. E? E? Juntos fazem correr suas águas. Olham-se e vão pensando, vão.
O ar continua condicionado. Não como batatinha nem bebo refri.
Logo ali, na fila do caixa, a estudante de Direito conversa consigo, se faz o dia virar noite, entendo; se faz o que entendo, aí me arrisco a querer pra mim uma folga; o doce amarga de azedo, quero ir embora.
O professor de História está atrasado pra aula depois do almoço, em vez de espantalho, instalem-se parabólica e painéis solares, pra que os ouvidos possam ouvir, pra que os olhos possam ver.
Também tenho ilusões, mas elas voam. Lá fora, são andorinhas.
A mulher passa pano úmido no chão do shopping, a queda do céu não pode vir, então, que não venha, já o suor faça do milho estocado as broas às mães que se aproximam como luz das madrugadas, bebe a água que pode, e se borboletas sabem virar vaga-lumes, podem o que mais?
Também entra na história o senhor que tem tempo de sobra, se a noite sai, o sol entra, se as nuvens rodam no céu, trazem chuva, água boa pros frutos que serão colhidos na estação, pra que bocas comam seu quinhão.
Sigo comigo, minha vó cirandava em silêncio, entrada na lucidez octogenária, vergonha não punha no que fazia, punha o medo de ter perdida a vontade de seguir como gente, bicho que pensa, flor do riso que chora, deixava maldizer da vida quem vigilante da fé apregoada a si mesmo, minha vó olhava, eu olho.
2020, meu caro.
Desde já, saiba que não pularei nenhum dia e vou tirar o coração pela boca quando for justo que o tire. Caso o amor queira ficar numa boa, ficarei lendo e pensando. Mesmo que a desfeita seja dígitos em uma urna, essa boçal que me come feijão e frevo? Haverei de ferver, e faço voto que não me falte sequer uma sombrinha.
Inté mais, 2020.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de dezembro de 2019.