De
passagem
Como identificar um covarde? Por
certo, na fila do super onde faço compras. Claro que, por conta das
probabilidades, no trânsito pra São Paulo, pelo fluxo de milhares de turistas,
toparíamos com muito mais. No comezinho do cotidiano, refiro-me a mim mesmo, a
ninguém mais.
Calma aí, portanto.
E a mulher passa pisando forte, cara
enfezada, fala algo pro rapaz que estorvou na passagem, troveja sobre a caixa,
que se mantém em silêncio, que os 40 anos na mesmíssima firma a ensinaram a
fazer o serviço que dela era exigido.
Tempestades imperfeitas também passam
enlameando tudo.
Já que a miopia impede a nitidez dos
vícios que acalanto em mim, recorro a amigas e amigos. Mas esses queridos farsantes
dizem ouvir o curió na maritaca. Assim, acusando parciais as explicações sobre
a magia do universo, vago pelo mundo, pelo picadeiro que desconfia do medo deste
sujeitinho que até aparece em maquiagem de pacato, de quem sabe ficar na sua. E
fico numa boa. Mas, palhaço das perdidas desilusões, disfarço como posso. De
óculos, observo bem mais.
Às vezes, acordo a um palmo do abismo,
e recuo.
Minha vez de passar as bugigangas. A
moça deste caixa sorri feito o sol no horizonte, relaxa com um suspiro, torna o
dia ótimo.
Decisões pedem adiamento. E como
complica a urgência de saber o que se tem pra fazer. Ô negócio chato, correr
atrás de soluções. Se não houver problemas, negá-los da noite pro dia. Pois a
pessoa hoje tem mais é que ter motivos para ataques de ansiedade, distúrbios do
sono e fadiga muscular, mesmo com a bunda na cadeira.
Busco o meu telefone.
Pra que serviria o celular se não
permitisse arrumar encrenca?
Baixo o aplicativo do empréstimo
pessoal; meu CPF não permite.
Por falta de trampo, não há nada que
posso fazer. Nadinha. Nem mesmo tocar um funk; se soubesse, dançaria.
Dá para fingir alguma conta. Desconsiderando
os fatores. Embora o produto nem sempre some positivos ao cadastro, porque é
grave. Até os arquivos o engolem sem dó, apagam, dão sumiço.
Cadê o resto do que não sobra?
Que falta danada faz a quem nem ousa curtir
o ócio. Transformo a hora numa meleca de vinte horas sem dormir. Surto com as
cinzas no umbigo. O dólar acompanha as explosões em Bagdá. As chamas não
encobrem as fumaças do burro. Aliás, longe do Ártico e da Antártica, a lógica do
texto vira um coala de luvas.
Escancaram-se bocas, olhos, e a porta
do quarto.
Faz já um tempinho: retirei de casa o
alarme; deixo destrancada a porta; tem vindo me visitar em sonhos o noturno das
sobrevivências.
Faço o possível pra ser razoável. Sem bater,
serrar, roncar, zunir, isso tudo funciona, só não voa nem canta.
Depois das trocas? Como fruta duas
vezes ao dia; tomo banho de sol mesmo com o tempo tendo uns tremeliques; vejo
programas que se apiedam de mim; pra desintoxicar, vou fazer teatro.
Bravo!
Um molar superior decide doer-me.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 09 de janeiro de 2020.