quinta-feira, 4 de abril de 2019

Corpo estranho


Corpo estranho

Nada mais estranho do que o mundo. Olho a rua. Ocupo-me dos passantes. Antes de passar pela rua em que moro, o que estavam fazendo? Vão para onde? O que irão fazer quando lá chegarem? Será que estão indo trabalhar? Que vida esquisita.
Mas não vou especular. Ou errarei pelo nonsense que nutre as sinapses com uns desequilíbrios químicos, na confusão de dopamina, endorfina, sei lá o que mais.
Para falar de outras esquisitices...
Faz dias, começaram a repetir o George Santayana, a frase: "Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo". Não sei dizer em que contexto foi dita, mas tem validade pela advertência. O tanto de importância e relevância está na construção: PODE lembrar. É a locução empregada, que diz o direito de lembrar, rememorar, recordar. Mas não diz comemorar, celebrar, ou, sequer, festejar. Ficou claro?
Entendo que seja este o teor do aviso. Por precaução, e o faço sem tirar pela violência, volto àqueles dias.
De fato, e por direito, lembro o que houve em 1964 e o que se seguiu ao golpe. Vi caminhões militares passando diante da janela de casa; em seguida, não sei quanto tempo depois, com meu pai e minha irmã, fui ver, onde havia um declive lamacento hoje está o cemitério novo de Ibiúna, e vimos moças e moços do Congresso da UNE que foram presos num sítio, em 68.
Mas foi só no primeiro ano da faculdade de Jornalismo, em 1984, que liguei minhas memórias com o dia a dia da noite que durou até o ano seguinte, 1985. Ano em que Tancredo morreu. E antes de tomar posse como o primeiro presidente que, desde o tal março de 1964, não era um ditador fardado. Um tranco.
Por dever e por direito, busco saberes sobre o que não sei. Não uso óculos tecnologicamente desenvolvidos para limpar da minha frente a poluição de pululantes telas de tantos trecos.
E é na TV que vejo uma fila quilométrica, com mais de 15 mil pessoas procurando emprego e querendo trabalhar. Leio os índices do IBGE; informam qual o método para os cálculos, o mesmo usado mundo afora. Quer pulga, orelha?
Fecho os olhos, a realidade não some. Sou teimoso, a bicha é mais. Nem sacudindo o troço que servia para telefonar...
Eca! Para não fazer miséria pela casa toda, já que a barriga anda descontrolada como a vida, corro ao banheiro. Ufa.
Peralá! Não é porque nasci antes do advento da Idade Mídia que condeno os trambiqueiros digitais. É porque, no admirável mundo das redes, tolices puxam outras. Novidade?
Para posar de Família Margarina, tem gente usando foto de filho dos outros como se fosse dela. Que fofo...
Depois disso tudo, melhor me comportar direito. Se tudo der certo, vou dar jeito na vida. E passar a comer de 3 em 3 horas, dormir 8 horas, e curtir o celular só umas 20 horas por dia.
Ou os ETs que estão de butuca ─ paradoxalmente calados, Fermi? ─ vão escapulir do Hubble a mil zilhões de anos-luz.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de abril de 2019.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Pedaço de mim


Pedaço de mim

Sabe a pedra do Sísifo? Pois, esqueça. Conhece Enigma? O poema do Drummond do livro A rosa do povo, sabe? Pense nele. Desprevenidas, as pedras seguiam na sua vida de pedra, todavia uma forma obscura barra a caminhada, então, é mal de enigmas não se decifrarem a si próprios, vai daí que as pedras, no esforço de compreender, chegam a imobilizar-se de todo.
UMA PIADA, minha crônica última do passado 31 de Março, fabriquei-a com o deliberado hermetismo dos objetos obscuros. Nada mais enigmático que o evidente. Como a forma que veio deixar petrificadas as inteligentes e sensíveis pedras do poema do Gauche de Itabira, e fi-lo vir, o meu texto, para zombar da tentativa de interpretação. Piada, a crônica; e não o poema.
Para não perder a mão, nesta, corro de explicar enigmas. É que piada contada ou causa efeito no ato ou já era. Era?
Era uma vez a ocasião de um determinado fulano, o capitão anônimo que foi pescar numa angra dessas em que a pesca é proibida por lei. Daí, veio lá um funcionário de órgão específico de inspeção, cuja lavratura de multa imputou ao capitão fulano a ilegalidade praticada. Conforme-se, é a regra. A barca passa, o praça fica. Rasgaram a multa. O multador foi-se porta afora, por ato do superior recém-lotado no cargo.
O mais, deixo às inteligências leitoras que liguem os pontos para obter o desenho, caricatural e grotesco, da hora. Tão logo resulte o quadro em riso, ou não. Assim fisga quem lê, entre a falta e o excesso, sendo texto, o instante feito para efeito.
Avante!
Há qualquer coisa que se move na minha mente, está lá em algum lugar da minha consciência, algo informe, uma presença que diz meu nome com todas as letras. É da sedução, farol do reflexo. Leio o espelho, pisco de volta. Sinto que pisca, que me espelha. Deseja para si a palavra, na petulância de querer-se final. Como não lembrar a poesia pelos calafrios da agitação? É destino, isso não passa de ato humano.
Tropeço no minério.
A jazida do inesperado me atravessa o caminho. São ímã as palavras do João Pereira Coutinho: quem disse que as nossas paranoias têm de ser reais – para os outros? Elas são reais para nós, e o que interessa é a verdade subjetiva de quem cria.
O texto, publicado na Folha no dia 26 de março, fala de Nós e Corra!, filmes roteirizados e dirigidos por Jordan Peele. Não se tire pela preguiça e não se faça de gugoulista, leia a coluna e veja os filmes. Ouse viver com a perturbação de pensar por si a partir das provocações de quem pensa por si. Duvida? Bingo!
Idiota míope, algo me impede de ler a pedra pela lapidação necessária. Permaneça inacessível ao valor do uso, sua bruta. Oposto ao MEC que ─ a ir, voltar, fazer, desfazer ─ é exemplo do que quer quem não sabe o que quer. Fico na mesma?
Volto ao Drummond, sobrevivo à consciência. Sei, rio algum transborda do homem sedento. Pela vanglória, é pescado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 02 de abril de 2019.

domingo, 31 de março de 2019

Uma piada


Uma piada

Leitoras e leitores, pesco onde a lei permite. Saibam mais: o “Pi” é a resultante da razão entre a circunferência e o diâmetro de um círculo. Não sei o que isso significa — apenas copiei a descrição do jornal. Então, fui pescar ao Ruy Castro.
Com mil tamoios! Logo o Pi?
Pois. Convocam-me, pelo Messenger, a mobilizar a Ciência à resistência aos botocudos que, fulos e acelerados, passam o compressor do rolo sobre vales, montes e cordilheiras. É plano de certa turma provar-se certa, e sem ninguém a fazer questão de perguntas. Duvidar não ilumina, só aumenta a escuridão.
Estou dentro. Hoje mesmo, já agorinha, enviei este amuleto chamado Pi para todos, meus contatos. Para tirar o Galileu das chamas? Pi. É o fetiche do momento. É preciso manter a roda girando, ou a Fortuna não saberá a quem está destinada. Pi!
Não ficarei entre os obtusos que jogam o Santos-Dumont do alto da Sabedoria ao associá-lo à destruição das massas pelos artefatos nucleares. Sem bombardeio, sou anticriminoso.
Não me juntarei aos acólitos da obscuridade que alardeiam, com desperdício de cautelas, ordenarmos em calendário dias e noites, darmos nomes a bois e vacas, e tirarmos pela semente a goiabeira, pois é fruto da dentada cobrir-se nas vergonhas.
Economizarei minha beleza, quero mais na íntegra o BPC. A quem de direito os centavos, cada um deles, pois, de cabeça erguida, hei de seguir lutando pelo lugar à mesa. Xô, migalhas!
Nem patrioteiro ou acaciano. Na justa das narrativas, Celan.
Pela porta da frente, entro e saio. E são tantas as fachadas, mas sem fundos. Nada vezes nada? Sigo a dizer do meu jeito, de ibiunense oswaldiânico: a alegria é a prova dos nove.
Sobre tuítes imbecis? Não me são anzol, sigam nadantes. A caminho do chão de terra, de asfalto, da fuligem do concreto? Não entram na foto, erram da imprescindibilidade. O caminho? Vou por onde passo, posso e não peço. Nem me apresso. Vou, pois ir é voltar-me para o próximo passo, ao que dou valor, no apreço de saber-me de mim nisto, até pelos outros.
O que há? Penso, dou pontos no penso que não me cura. Remediado? Pelas palavras, dou-me à febre, pois: visionário, o poeta é também uma visão; através dele todos podem ver.
Assim, solidão não é levar minhas janelas para espiar a vida ao redor e não ser visto. As janelas, que alguns chamam olhos, dão voltas pelas vizinhanças. A trabalho, que vagamundear é respirar. Não vão a passeio, que os olhares magoam. Fere-me o excesso do visível, que o caos das desmesuras ceva em mim a inadequação. E cevado como um bacalhau?
Bagre, aquele que come na lama o que a lama rejeita.
Todavia, quem pia os seus males arrepia. A zorra não passa de uma realidade. Contudo, quanto mais avanço, mais recuo. A Lei é a 1079. Em... bala... me... o artigo? Pesquei... 7. É o 7!
Ô inferno! A televisão, aqui, pega apenas este canal maldito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de março de 2019.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Boca aberta


Boca aberta

Quem dera a fortaleza dos espontâneos, mas fraco que sou, ensaio bem minhas deixas. Se de mim não cobram nada, cedo. Nem reclamo mais felicidade. E até o sabido do Spotify vê que, de bem com a vida, compro esta onda do feliz.
Disfarçando, soltando piadas quase engraçadas, meneando a cabeça aos de repentes, tiro espinhos do porquinho. Delícia é não ter modos à mesa, para deixar o almoço bem temperado. Assim parece, pois camarada confiante pega da realidade para desviá-la pelo teatro. Embora canastrão, juro ter vocação.
Boca aberta faz questão de matraquear. Com permissão, rir. Quem pouco pode, muito deve? Como se o dever de servir não implicasse o quinhão da sua parte, rir. Voluntariado é o termo apropriado a quem obrigado à entregar-se. Para benefício? Do coletivo ─ e dele está: excluído, na repartição do prato feito; e incluído, pelo amor à ordem estabelecida. A boca é livre?
Por isso, acho incontrolável a sanha de me divertir metendo cacos no que vou escrevendo. Tiques de um automatismo que nada tem de inconsciente, mas digo que é. Para desconsolo do lado racional. Mas o cartesiano em mim faz festa também, até arrisca um pas de deux, estapafúrdio e bizarro. Posto que: um vai de tênis; outro, de agulha sete centímetros. Patético e pateta, chego ao denominador comum: escritor.
À vista disto, deixaria de fora o desejo? Nananinanão.
Unicórnios me mordam! Fabulo ter peito. Quero provar dos valores que os conto ao me narrar, mas sou tépido. Caramba, como tremo na base ao pensar no tiro sem saber de onde vem a bala. Carambola, morro de medo só de me imaginar na mira. Não quero levar bala a troco de miseráveis celular ou dez paus. Câmeras? Continuam por aí. Se o pânico me desnuda, queria piscar de volta. Pois não caçarei os unicórnios.
Digo à minha verdade o que ela não quer ouvir, nem de mim nem de ninguém. A verdade, qualquer que seja, não passa de articulação de palavras, para que se sustente um conceito, seja o que for. Porque entendo o que o ordenamento das palavras significa, me levo a aceitá-lo como verdade. Ou seja, dou fé ao sentido que a linguagem propõe. A semântica revela metáforas que a revelam. Isto é, o significado é passível de ser captado porque palavra é metáfora construída com sons (se é falada) e grafismos (quando vista). A palavra funciona, por convenção. E sem entender o que se diz, palavra é ruído. Contudo?
Não é porque gosto do que faço que estou fazendo um bem danado pela humanidade. Mais do que ofício, escrever é vício.
Que humanidade? A que, das três patas, logo dá a mental por que é a mais curta? A que, por não saber das horas, corre feito louca na gaiola? Ou, ainda, a que vem com esta novidade organicamente legal: chega de enterro e cremação, útil mesmo é cadáver adubar o solo para tulipas e beterrabas?
Assim como os poetas, humanos somos outros.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de março de 2019.

terça-feira, 26 de março de 2019

Conversando com fantasmas



Conversando com fantasmas

De vez em quando, para respirar ares mais carregados de descaminhos, becos sem saída, quebradas que dão na alegria, preciso sair da vida encantada das palavras. E vou indo por aí, para fora do mapa mental que me seduz enquanto aprisiona, a me convencer de que a liberdade abstrata é mais concreta que a realidade do mundo. Para ter vida no mundo: tenho de anotar o número da linha ou não irei aonde quero comprar um livro; ou espero minha vez ou me mandarão passear sem ter comprado a casquinha de chocolate; ou me comporto como os demais ou pago pela consulta com o médico que escolherei.
Mas é perturbador. Volto voando, prefiro o mundo da lógica milimétrica de quem conhece os cálculos pelos números que representam o cotidiano. Na ficção, a realidade faz sentido. E nela, o herói da nossa gente, um pobre, não passa de vítima, e sofre por querer sentir o gostinho da boa vida dos afortunados. Para quê? Para morrer no final, com tiros ilegítimos e ilegais.
Textos, assim, são mesmo literatura. Na real?
Quem investiga e acusa não julga. Quem julga não investiga nem acusa. Um Ato Institucional do STF, quem diria...
Chamam-se visionários os que lutam por mim e iluminam o caminho para que esteja organizado com meus semelhantes ─ pessoas dramaticamente livres, mas não libertas. Merda! Isso nada tem de humanismo, tem vícios, muito de autoritarismo.
Então, cretinas e cretinos, não é comigo servidão voluntária. Faço questão do entendimento. Pois a política é raiz do que me faz agente e paciente de mim, das pessoas e das conjunturas. Estou com o Agualusa, livros são territórios de debate. Se um livro não servir para fazer pensar no presente, na sociedade em que se vive, então serve para quê?
No livro da vida, há quem ceda às redes sociais a condição de tribuna livre, porque as pessoas expressam as vontades por via direta e imediata. Peralá, botecos são comitês do povo?
Foge o recanto das muitas lindezas... Mas a serenidade luz na alma o espírito que achei perdido de mim. O que me impede de ter asas? Pés e mãos, na labuta diuturna de quem sonha.
Sorrio, a mão conversa com o papel. Conversando, penso. A voz que se pronuncia sabe do chão ao caminhar. E pouco sei da fraternidade descalça que existe para além da possibilidade. Mas entra o acaso na probabilidade que revigora, alimenta, me recompõe a dizer o que digo, entendo e compartilho. Quero acreditar na pessoa que julgo ser. Quero confiar no desejo do que quero.
E tanto está por vir. Conseguirei chegar a mim? E vou estar lúcido, inteiro, coerente? Que me falhem as palavras, que erros me enlouqueçam, me condenem as culpas. Estou a caminho.
Um passo a distanciar-se do passo dado?
Quanto mais vou para lá, mais venho para cá. Porque estou onde estou, e lutando com as palavras. Bem aqui. E onde é?
É o instante do amor. Em construção permanente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de março de 2019.

domingo, 24 de março de 2019

O bacalhau do tapete


O bacalhau do tapete

Como as banalidades sabotam o cotidiano?
O primeiro passo. Foco na imagem veiculada na TV: o sofá.
O coronel Lima tentou esconder, porém os federais fisgaram os celulares, trazendo no puçá de malha grossa o parceiro do Temer. Se o código penal não serve de arpão, é para o quê?
Desde que a pescaria começou, há 40 anos, este grupo, do Michel, Moreira Franco, Lima e caterva, pôde jogar como bem quis com a baleia branca de hum bilhão e oitocentos milhões de arrobas. Fora os quilates ainda não aferidos.
Deve ser por que usando onda miúda peguei tsunami.
Oxe! Com meu apego a mentirinhas imperceptíveis, feito os pescadores que aumentam aqui e ali, mas que o fazem para ir apimentando o sushi, vai daí que abusei da raiz forte. Eca.
O Brasil está virado num tapete imenso, continental, pois fui tramando voto a voto, a cada eleição. Se me foi preciso? Foi, é que busquei dar um jeito na sujeirama. Já a fedentina...
Truta!
Sempre achei que era um problema de glândulas ou falta de banho de sais e ervas. Nenhum nem outro. É mesmo cheiro de vômito, por golfadas recentes e seguidas. Fon! Fon!
Longe do Magalhães em matéria de circum-navegação, fico estupefato por rodopiar enjoado sem mar nenhum. Que bater o pé no coreto da praça causa ânsias. É isso.
Haja praças por aí afora. Lá em Brasília; no Fla-Flu de todas as latitudes; no caís santista, se vem do mundo, vem também.
O balanço de terramarear enjoa e mantém patente a fetidez na alma. Calma? Quem fecha os olhos e tapa o nariz é calmo.
O próximo passo. Atenção ao que se quer dizer: a urna.
Não se trata de botar fogo no tapete, mas de lavá-lo. Sem a farsa dos incomodados pela poeira que a limpeza levanta. Só que é preciso limpar a casa, toda. Arrumar os móveis, lavar a roupa impregnada de corrupção, servir feijão a quem tem fome, e com poemas, encantar o coração. Dar sonhos às mãos.
Sozinho ninguém dá conta, é muito trabalho. Sem vizinhas e vizinhos, fica difícil o baile. A gente precisa urgente. Já se ouve o alarido da festança. Está vindo a eleição. Não é para depois do carnaval, é durante. Não é para quando a Páscoa der ovos, é pela ressurreição. Não é para trocar os presentes do Natal, é pela hora. Porque a hora é agora. E do modo que for, preciso e necessário. Dentro da lei, mudando as leis. Até tornar o Brasil a casa a nos abrigar, domiciliar e aprazer ─ a todas e todos.
Voto é escolha. Escolher é ato individual. Se escolho certo, beleza; se errado, é o caso de pensar. Repensar, para: abrir-se à claridade da janela aberta; arejar-se; e, à luz do sol, vital para plantas e animais, dispensar-se das trevas de quem insiste em forçar goela abaixo que as 51.589 pessoas assassinadas em 2018 mereceram, ou estariam vivas. Quer confundir, Brasil?
A ALERJ recolher autógrafos em Bangu 8 é bom para atrair câmeras para quem faz pose ao escarrar no tapete, Teresinha.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de março de 2019.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Está na cara



Está na cara

Sabiá canta bonito. Num pé, eis-me na sacada, para ver o bichinho. E como manda bem o danado. Quando canta o sabiá, gosto para dedéu. Disponho do tempo para desfrutar do canto. O artista ignora a plateia, daí se esmera, capricha, pontifica.
Estrela inteligente que é, o ornitóptero tem lá estratagemas.
Para dirigir forças para estufar o peito, trata de imobilizar-se. Meu olhar vira sonar. Suspendo a respiração, como quem tem na manga um full house. Se soubesse fazer cara de jogador de pôquer, seria matador. Entretanto maioral, ele corta o baralho, dá as cartas e canta vitória.
Não sou de parar muito tempo no lugar. A ansiedade tira de mim a ilusão de estátua. Quero, rápido, consumir a beleza da maviosidade eloquente. Mas, para tanto, preciso ter a imagem inteira do corpito exibido, na estirpe da plumagem toda. Ave!
Acho-o, o meu Sinatra das Palmeiras. Deste aqui, os olhos azuis são, verdade seja dita, o corpo preto salpicado de branco nas asinhas bailarinas. Que ele todo canta, de fato, no balanço de prodígio. Tão hipnótico, nem prendo a baba do fã.
Localizo e meço, o passarinho. Menos o sentido do que ele diz por música. Ser de outra espécie, um bípede sem plumas, carregado de penas incomunicáveis, só observo. E sei comer com os ouvidos a iguaria que a natureza produz.
A solidão é minha. Por incapacidades minhas, nem dá para compartilhá-la com meus semelhantes, que dirá com quem tem outras prioridades. Assento a digressão aqui. Entendo tal falta de comunicação interespécies como falha de comunicação e não como sintoma de algum abismo emocional que me possa controlar as faculdades mentais. Se estou emocionado?
À espera do canto do sabiá, há um cheiro que me captura. É outra pepita que nem dá por mim debruçado no que inalo. É perfume que nem sabia que desejava inalar. Inspiro fundo.
E vem da planta na qual está pousado o passarinho.
Ouço, deliciado. Sinto, arrebatado. Sabiá e Dama-da-Noite.
Se estivesse com o celular nas mãos, fotografaria. De perto, dando zoom. De longe, para situar o sabiá nas circunstâncias em que acontece a cantoria. Sim, é um acontecimento.
Para o dia seguinte? Quero ir ao Portinho. Dane-se o bom senso de fazer supermercado, de pagar contas na lotérica, de não furar a consulta no oculista. Portinho, sempre, Portinho.
Que beleza! Ficar de papo com o mato, minúscula ilha entre edifícios, é uma panaceia que apaga da mente a realidade.
Então, preservemos a natureza. Cultivemos o amor natural.
E o sabiá? O sabiá não passa de um reles trinca-ferro que está louco para transar. Sou prontamente informado pelo dono da Dama-da-Noite. De língua afiada, o sujeito chega ralhando com a bicharada que bica as frutas no pé, espalha folhas pelo quintal e emporcalha a piscina.
Arre! Dou asas ao vetusto?
Como todo preconceito é óbvio, meu sabiá segue cantando.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 21 de março de 2019.

terça-feira, 19 de março de 2019

Maçã do amor


Maçã do amor

Na claustrofobia do cotidiano, haja barulho. A gente ignora o silêncio. Não dá para entender quem não sabe ficar quieto. E o quê? O mentiroso sempre fala a verdade. É revelador.
Aposto a minha cerveja que a alegria de escrever que sinto me leva a pensar que tem cara de fruto proibido. A gente come escondido, olhando de soslaio, mas não para. Há uma série de desculpas na ponta da língua, bem ensaiadas. Escrevo porque nasci para denunciar as mazelas do mundo. Escrevo porque já muito cedo descobri que tinha facilidade para a coisa.
Mas o mundo nada tem a ver com minha indignação. Menos ainda a coisa. À escrita, pouco se lhe dá minha habilidade. Ou a minha humildade, pela sinceridade da modéstia. Por certo, e por mim, penso o ato de escrever como ação da dor na carne. Trabalho as palavras. Construo-me amoral, anarquista e ateu.
Perfectível, fabrico-me com o que tenho à mão e ao que me disponho alcançar em pensamento. A existência, que imagino ao praticá-la, é a expressão do prazer que a gente reprime e estimula, disfarça e disseca, revela e oculta. Temos razões que a razão sente. Mesmo sem tirar os olhos do celular.
A função do escritor? Quero a escrita que não oprime e nem se omite ao apontar quem ocupa o lugar que não lhe cabe. Sou pela escrita que não silencia a voz do outro nem tira a máscara que bem quer usar. Abro em mim esta clareira: mentira não é a ficção da história que nunca possa ser contada. Mil contos.
Subscrevo, logo gozo.
Lambuzado, julgo trabalhar as palavras ao brincar com elas. Se quero adestrados os neurônios? É foda. Pois as ideias que mais me dão satisfação, ao fim e ao cabo, são aquelas que me levam a esgotá-las, contrariá-las, nutrindo-me inconformado, a duvidar do que se mostra de cara, ouvindo no sutil as filigranas.
Mesmo fraco de tanto pelejar, prossigo. O que me fortalece é que o lugar comum dá por trivial não pensarmos. O óbvio não desorienta nem perturba. É só fazermos do rosto a máscara da verdade, e o preconceito leva-nos a aceitarmos a tranquilidade de seguirmos cuidando da vida. Dia a dia.
Agora, se coloco a lupa sobre o lugar comum para examinar de bem perto, desmontando sua máquina de sentido, tentando com isto me testar com quais conhecimentos julgo tratar, ei-lo, o jogo do prazer. Passo a remontar a ideia com as palavras em outra ordem ou trocando-as. Será que a diversão não educa?
Num texto de 2012, Anna Veronica Mautner diz: Aceitar-se com defeitos é o único jeito de suportar o olhar do outro sem ser aniquilado.
Sim. Vou beber água. A página está no meio do caminho. O meio leva ao fim. Os fins pedem os meios. E quem se esquece de ir pelo meio, estanca. Fica pela metade. O texto travado faz alheia a minha vergonha. É ridículo o incômodo do ridículo que não finjo. Tento me persuadir de que estou parado, indo.
Mordo a isca. A máscara e o rosto têm valor de face.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de março de 2019.

domingo, 17 de março de 2019

A leitura plausível


A leitura plausível

Consegui. Mantive-me longe do inferno. Senti o bafo quente, mas me recusei a ser consumido por suas labaredas. Foi uma semana difícil, tenho de admitir. Só que lutei por mim, tratei de pôr a minha saúde mental ao largo do horror espalhado pelos ventos. O tanto que sei de mim é que, me mantendo centrado e pouco suscetível à correria das ansiedades, posso me fazer útil às pessoas ao ouvi-las e ajudá-las a ouvir e ajudar outras.
Penso que estar no mundo é deixar-se viver no mundo. Não me isolo dos acontecimentos, dos fatos, das notícias. Porque a vida corre solta aqui ao lado, nos apartamentos vizinhos. A vida está logo ali, no ponto de ônibus, e dentro deles. A vida não tira férias, cumpre o batente na fila do banco e segue na lida entre as gôndolas do mercado. Nas areias do Forte, e onde haja uma faixa de praia para tanto, a vida estica as pernas. A vida quer o cigarro na madrugada fria e um cafezinho quente numa padoca da COHAB. A vida pede silêncio na oração pelos enfermos e é tão ruidosa na confraternização de amigos e simpatizantes.
Quero-me simpático, empático, tolerante. E escrevo.
O barulho ao escrever é brisa refrescante no meio da tarde, mas a leitura produz pé de vento com genes de tufão. Quando escrevo, com um lápis ou digitando no teclado do laptop, busco me concentrar no que tenho a dizer e, para não me dispersar e ir por algum desvio que faça perder-me das ideias que desejo registradas, reduzo os ruídos ao mínimo. Quando leio, todavia, o vendaval levanta as linhas, escancara entrelinhas, descobre o além dos acentos, faz a minha cabeça entrar no turbilhão do compromisso com semântica, múltiplos sentidos, pois escolho, interpreto, pondero, avalio, julgo, reflito, minto, desminto, viro e reviro, frustro, ilustro, escarro e engulo, seduzo e sou seduzido, afinal, o texto me lê enquanto vou lendo, e é com gosto que me deixo ser lido, assim.
Mas o dia a dia foi pesado. Massacre em Suzano, massacre na Nova Zelândia, desabamento de escola na Nigéria, a nova velhusca corrida pela África, Coletes Amarelos saqueando lojas em Paris, a vida boa da elite na Venezuela, boçais chamando boçais de boçais, STF X PGR X MPF. E para terminar o circo de horrores que não tem fim? Diz a medicina que as fezes são um bruta remédio e, nos States, já tem bancos para vendê-las!
Que fazer?
Ao fim e ao cabo, a vida é indomável e insubstituível.
Não vou fugir para o deserto, enfiar-me numa caverna para ficar jejuando, vivendo de orvalho. Não vou cavar um buraco e esconder a cabeça, fazendo de conta que o real são os meus pensamentos de justiça, igualdade e pizza de muçarela para todo mundo. Não, não fugirei para lugar nenhum, porque a vida está em todo lugar ─ com sol ou chuva, de dia ou de noite, na escola ou no hospital, fazendo pose ou tirando a foto.
E para não pirar na batatinha, preciso é manter o foco.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de março de 2019.

terça-feira, 12 de março de 2019

A escrita possível



A escrita possível

Escolhi voltar de Pasárgada. Não conheci reis nem a louca, a mulher que sempre quis. Nem um bêbado veio acusar a Mãe d’Água de ter postado no meio da noite que o mais ignóbil da tristeza iria matar-me. Como me consolar desse outro mundo?
Não vejo o impossível na clarividência dos loucos.
Assim a cada dia, outra vez e de novo, preciso tornar viável o Brasil que continua a não existir. Sem mim, haverão de existir os brasileiros? Nada. O Brasil não nos quer. Está farto de nós!
Ordeiros e progressistas, vamos à luta por nosso idealismo. Nos mantemos de pé, funcionando vinte e quatro horas, damos emprego a quem não tem preguiça de trabalhar, enfiamos mais bolas no gol do adversário e enchemos o copo dos que bebem sem ligar para barriga grande. De mente antenada, na ideia da pátria pela qual sabemos amar, a gente brinca no pé e tira da cabeça o nefasto, o que, a brasileiros de boa cepa que somos, é impróprio. Damos valor a quem sabe o que podemos. O pão? Há de vir. Como o país há 519 anos almejado por nós, virá.
Por mim, autoritários não passarão. Porque dizem ódio para raiva, medo, consciência. Mas os inimigos do povo continuam a passar. Posto que suas mentiras pululam no GOSTEI, as suas invejas adoecem de tantas selfies. Na realidade, tal história é o meme que vai seguir sendo o narrador tendencioso de quem puxa para si a sardinha alheia. Que história é essa, hein.
Os brasileiros somos a grande família? Não nos preocupa o próximo, aquele carente deslocado dentre a gente? Muito mal nos sentimos admitir que poderíamos mais, acaso não agissem contra o povo os que se alardeiam seu defensor? Entendo?
Meu trabalho é escutar as pessoas e, por ser desconhecido, posso ouvi-las sem que distorçam o que contam. E tomo notas, analiso, ponho no papel defeitos e virtudes. Resisto no diálogo, abreviá-lo faz mal. Reflito, penso. Para mim e para o outro.
Pois olhos leem o mundo, ouvidos leem sua visão. Vejo.
Aprendi a aprender, fui educado para isso. E me encanta a lua cheia no olhar selvagem de quem acaba de acordar. Vê?
Sonhos filtram à memória a realidade, passam a limpo o que conto. Descontam de mim, por inconsciente. Dormindo reconto. Maravilha? Quando a pessoa recorda o que nem sabia do que poderia vir a lembrar-se. É o aprendizado que as horas de sono tratam de manter. Só o que realmente marca, o resto é basura e vai para o esquecimento, onde a luz respira a treva.
Como andei tagarela em algumas crônicas, movido por um obscuro desejo de explicar-me, contenho-me para que a razão do texto surja da leitura. Escrevo sonho e leio pesadelo? Quiçá em mãos adestradas, as palavras falem; em poetas, digam.
Ademais, os bárbaros nunca tomaram o trem das onze. Por isso, voltei. Para mais bem escutar o que se diz quando nada é dito, vim. Calado?
Refazer o ingênuo em palavras, na esgrima de cada jogada, espanta-me.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de março de 2019.

domingo, 10 de março de 2019

A escuta sensível


A escuta sensível

Oxalá haja Oxalá.
Pronto, o espetáculo começa pela frase que não deveria ter encerrado a crônica anterior. Relapso, deixei. Se nem sei editar um texto? Ficou, daí a tortuosa explicação.
Soa duplo o espírito? Oxalá, do árabe insha’Allah, se Deus quiser, tomara. Oxalá, do iorubá Òrìsànlá, diz: luz (oxa) branca (alá), um Deus? Pondo acaso no cálculo, tem-se o cruzamento de um significado com outro: Oxalá haja tomara; tomara haja Oxalá; tomara haja tomara.
Tomara em mim reverbere nítido, abundante, adube terras e águas o fora faiscante. A distância flexível vem à probabilidade. Não penso em primeira travessia, primeiro beijo, primeiro livro.
Reinações de Narizinho? O Noventa e Três? O Alienista?
Das leituras, o gosto vai além das retinas. São osso novo a cão velho das ruas. Mesmo relendo, nova é a leitura.
Se lerei o artigo 142? Necas! Prefiro gozar de comentários, correções e adendos. O veja bem o que eu disse é a cara dum Brasil que não se corrige porque nunca aprende. Entendo que há método, e vejo nisso o jogo sujo dos perversos. Janiossauro fala sem dar pelo lugar que está ocupando, primeiro o errado e, em seguida, correr se emendar. Assim, é nossa referência para aprendermos sem ajoelhar no milho. Como nos convém, aliás.
Janiossauro? Está no Fausto de Thomas Mann, que perdeu o privilégio de ter cruzado com o bicho, toda a gente sabe que nenhum tolo estremece em face da sua própria alucinação.
Aprender pelo exemplo? Mentira! Pois tomo da Bíblia antes de deixar a cama, e, durante a corrida na esteira, fico em ponto com o noticiário, e o café me destina às capas dos jornais que assino. A Constituição, à mão na mesa de trabalho, consulto-a quando me sacode alguma dúvida sobre legalidade. Há umas inconveniências. E para que não se perca do mundo a ordem pela qual zelo insone, prevaleço à verdade.
Nada de protagonismo infantiloide, confesso minha limitação física. O cérebro cansa fácil com a pirotecnia dos malabaristas amadores, a boca seca logo, há tensão em músculos, tendões e nervos, sobretudo os nervos. Confesso que nem julgo direito o Brasil que me consome. Por que julgaria repentino? Me deixo consumir por trampolinices dos Malasartes sem escol. Gaiato.
Desejo o que penso, concebendo-me abjeto. Posto que meu maior abjetivo da vida é fazer-me menos esotérico, vagamundo e lucifeérico. A focinheira, opcional a quem ousa aproximar-se, será para grunhir o que não calo? Nem de longe nem de perto sequer no interior, é infâmia que, de tão feroz, chega a marcar o pescoço ao cobrar nortes. Quando me chamo à fala, banal.
Desloco o que em mim palpita. Olho à esquerda, à direita. O torso projeta a sombra, reconheço-me. Identifico em mim a voz que sonda o ar, vamos pôr a embaixada em Jerusalém? Quero disciplinar-me por meio das palavras, que tal Alcântara na mão dos gringos? Sim, dizer palavra é orientar o ar. Entretanto, pela alucinação que vivencio, digo que preciso ter o que dizer. Sem ruídos, dizê-lo: nada de chuva dourada?
Educo-me pelo limite do que posso, penso e acredito.
E há quem empregue a linguagem para passar informações, sejam dados empíricos, exatos, comensuráveis, sejam estados de mente, psique, alma. Não sigo por aí. Linguagem é sintoma, até com estilo. Freudiano leitor de orelhas, consigo escutar-me. Divirjo de mim como criatura portadora da palavra. Que cortam, fazem sangrar, e espirrar. Se palavras levam a mudanças?
Ciente, consciente, inconsciente ─ sofro, e faço sofrer.
A coração dos pudicos não interessa, se verdadeira. A falsa, porém, a que me põe perplexo e perturbado, por essa aguço os caninos. Abro o peito à faca, jorro no sangue que não enregelo, coagulo, aborreço. O coração que enrubesce é triste, todavia ri ao entrar em erupção diante do inédito inesperado enigmático. Tal coração sabe de cor que a razão é eterna enquanto passa. Inaudível e tímido, enrubesço. Reação de circo, é?
Sou passista, faço jus à sombra que sabe de mim por meu corpo. Como o presente guarda do futuro a relação do que não se espera, o instante fabrica as lágrimas no riso. Se não estou a morrer, muito me engano? Sobrevivo ao oásis que me impõe areia até os olhos. Fiz de mim o sarcófago que me carrega.
Condenado ao amor por liberdade do inconsciente, finjo-me arbítrio a desdenhar da racionalidade. Traçada tão ridícula nos desenhos da criança. Onde a árvore, uma chaminé? Onde uns palitos, a família? Onde a tosse, os urubus. Para descarrego do pó, o acaso é a cova mais viva, a do corpo que canta e dança porque se reprime. E passo o recibo. Haja paciência!
De amores, me componho. Pela paz da ciência, amores.
Por amores. Ao equilíbrio mental, não. À justiça social, não. Ao socialismo, não. Aos perigos da infância, não. Ao precipício da maturidade, não. Ao suplício artrítico, não. Na vigilância, me sinto efêmero. O mais são flores de plástico ao pé do busto do precário. De encontro em encontro, a piedade. Este amor sutil não falta, e vicia. Pois a incerteza não satisfaz. E tu?
Um dia basta, uma hora é o bastante, um segundo já foi tão basto quanto a minha insônia. Agora, estralando em mim como uma sibipiruna na chuva. Lapidado por dentro, sofro. O oco.
Então, como condenar minha mãe que nunca escondeu que deixa pelo meio o que escrevo? Ela está certa na razão de sua vontade. Cavalo xucro, o meu cérebro inventa um cão que é o cabeça da cidade? Crianças viram gato? Bota a denunciar um criminoso? Flor de pedra? Barroco isso, né?
Sabe minha bunda o que mais brotará deste pântano mental que me castiga na cadeira por sete horas diárias. Escrevo, mas a quem me dirijo? Nem a Ele nem a Outro, apenas a nós dois.
Sem dormir, sem banho e sem tempo, é no silêncio do muito sério que gozo da minha retórica impura. E tu:
“Você existe, logo existo”.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de março de 2019.

quinta-feira, 7 de março de 2019

A palavra não cura





A palavra não cura

Nesta Terça Gorda, n’O Globo, para Cora Rónai os imbecis representam-se apenas a si mesmos e faríamos um bem para a sociedade se não compartilhássemos o que publicam, seja em relação à política, seja em relação ao que for.
Por rato, acolho tal opinião. De minha parte, todavia, apenso a ela uma reparação, sem a pretensão de apurá-la. Pois, a mim me parece, uma tolice querer-me autoridade sobre a necedade de outrem. Basta a minha. Por pusilânime que soe a quem lê a admissão. De topada em topada, não crio calo nem me quebro. Sangrar é maneira de se conhecer. Dolorido, mas um modo.
Tolo como posso, não minto todo o tempo. Também invento.
Invento? Penso na poesia. E quando trato da poesia, apesar da dúvida que me põe renitente quanto à presunção do juízo, é que trato de juntar alhos com bugalhos. Do pé faço mão, para erguer em engenho a visão de mundo, a minha própria.
De que é feita a minha visão? Dos retalhos alheios, moldo a minha alma como quem fabrica o fuxico. Aprendo a coser com os cacos de prazer que me escolhem. Com João Cabral, Murilo Mendes, e confraria dos Andrade, seja Oswald, Mário, Carlos.
Deixei de imitá-los. Passei a vivê-la, a Língua Portuguesa. E pus tijolo por tijolo na ponte para chegar à linguagem, e ainda não cheguei. Preciso dinamitar a travessia para fazê-la minha. Da mão faço pé. Ando até onde vou, pois saio para ficar.
Visão esta que me leva à realidade, conforme a leio a partir de mim. Realidade, e não mundo. Mundo faz pensar em limite, fronteira, pátria, nação, civismo, fortes depressões, falésias de alturas estonteantes, nauseabundas certezas topográficas. Só que a noite escura da minha mente topa coriscar quando vem à ideia uns pensamentos. Até mesmo imbecis, tênues e pessoais à beça. Ouço o Manoel de Barros. Fiz poemas, pois a poesia é a virtude do inútil. Inutilidade, e não imbecilidade.
Exatamente porque são parcos os meus conhecimentos de física: intuo que o tempo é uma dimensão da matéria, ou seja, não há tempo fora da substância; palpito que da supernova ao resfriamento, da semente ao fruto, da fecundação ao pó, tempo é ilusão. E a ele nos apegamos como uma contestação, contra o fim. A matéria morre, junto vai o tempo. É concomitante: sem suporte, não há tempo.
O reparo é preciso?
Meu asinismo não acha absurdo em saber que a árvore desaba na mata mesmo sem meu testemunho. É fato natural. Preciso é orientar-me a não temer o que não sei nem espero. Sempre a mesma queda: nem o mal nem a imaginação. Egoísta o eu por que existe?
A coisa funciona assim, sou quem pensa e fala por mim. O que digo é que o tempo não me possui nem o possuo. Apesar da aparência, não há relação temporal direta entre a percepção e a consciência que reflete sobre o que sente. Por segundo, é o eterno presente, o instante que não passa, o momento agora. O que sinto? O sentido quase epidérmico da consciência, e a angústia de pensá-lo; é isso um átimo? O átomo, o indivisível, o ímã que continua ímã no fragmento? Tal sensação de sentir-se inteiramente na poeira de si. No entanto, o corpo sente-se à velocidade do som e a mente, na velocidade da luz. O instante é a máscara para brincar este carnaval.
Minha morada na estética, a colcha de retalhos é a prova de que a vontade tem nome, foto na carteira e números, que são para viver o carnaval. Contudo ele não basta. Não basta dizer para sentir nem sentir para poder dizer. Topar as palavras não é saber o que tem a dizer ou o que pode vir a dizer. Caso queira ou saiba o que quer. Experimente dizer o resultado. Não resulta em pensamento o que em palavra não se estrutura. O arcabouço do sentimento com a emoção da razão na lógica do sonho, feita de pandemônios a imitação. Quem desconhece diz sofrimento, para torná-la inteligível, medível e compreensível. À sombra da própria sombra, medir-se? Depende da perspectiva. Diz Clarissa Pinkola que escolher tornar-se mais sábia significa sempre escolher aprender de novo. Excitação? Pensamento a imaginar-se em toda extensão. É da pessoa.
E tempo é movimento bem o sente o homem sentado, pois escrevo sentado. E sentado, sinto. Sentindo, penso. Pensando, imagino. E imaginando, movo-me por mim. Bem como o Sol.
Que coisa. Isso não é coisa para se pensar em voz alta nem em pensamento. Rompimento, e não deformação. Ruptura, e a quebra do vaso. Ficam lembranças, recordações,  memórias. A vida, por uma interpretação. O que dá vida às coisas não são as palavras, é a interpretação que as vivifica, degela. Interpreta quem dá nome às coisas. Entretanto frágeis. Recordáveis.
Lembro, como história baseada em acontecimentos reais ou por imaginação a convertê-la em fatos reais, recordo a casa do meu avô, pai de minha mãe, e a ordem configurada a partir da vontade dele. Almoço, à mesa o dono da casa, minha avó, dois primos e eu. Daí que lembro assim, ou invento que assim seja, e lembro que só depois que a minha avó falava conosco (nós, os infantes ─ os meus primos e eu) é que podíamos falar as besteiras de criança. Funcionava, nem me ocorria o prazer da fala. Havia ordem, e era para ser cumprida. Ficou na memória, está em mim ainda.
Quando encontro pensas as fotos? Contra o misterioso gozo do hábito, julgo caricato emoldurar o outro como imagem do desejo ou evitar que minha família equilibre-se no menos torto. Desentortar-me, porém, é interpretar como se nada fosse inútil. Quem dera a cura fosse menos outra doença. A dor, no fundo, é não ter fé sequer na escrita. Sinto, o tempo não cura o que não há de ser curado. Pressinto que existir é procurar escutar. Rato após rato tantos anos, a ir-me a nada. E será débil admitir que a fragilidade encanta mas não completa? Nem só o poeta percebe o quão inútil é buscar sentido onde não há. Ruído?
Deve ser por que sou...
Oxalá haja Oxalá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de março de 2019.



terça-feira, 5 de março de 2019

Cidadania, cidadãos


Cidadania, cidadãos

Às vezes, tento me impedir mas não consigo. Reconheço as minhas muitas falhas. Por exemplo, afeiçoei-me a enveredar pelos caminhos da palavra difícil. Ponho relevância nesse vício, porque a sedução de pegar das palavras, até mesmo das mais comezinhas, pego-as, digo eu, para dar um nó no pensamento, revirando-as para integrar uma obscuridade, cujo entendimento fuja ao fácil. E, com gosto, admito obrigar ao malabarismo a espinha das palavras. Vai daí que o chão batido da estradinha mais chã se revela do Neguev a areia mais sagrada.
Por que ajo assim? Não deveria a simplicidade pautar a fala dos mansos que gostam de entabular um papo bom e útil?
Que barata a liberdade, comprada à perversidade. Tomo da culpa, e como o miolo de pão...
Propenso a me acomodar ao mal-estar que pareço tolerar, não o transfiguro em ira, ódio ou raiva. Não o faço, porém, por alguma qualidade intelectual ou por algum capricho espiritual. Talvez por que me tomo por um bom rapaz, desses que estuda para não perder das origens a educação abençoada do pai ao pai do pai, indo por onde o rastro afiança. Acho.
Deixo quieto. Sentado, elefante observa mais.
Penso a fratura da realidade comigo, e nem sei dizer se esta atitude tira de mim a oportunidade de autodescoberta ou, pelo contrário, faz leitura do mundo em queda livre. Do acaso, e isso é possível porque a ruptura veio antes ou não haveria a fenda do meu olhar a desvelar o surreal da vida, tiro do acaso, então, a chance de explicar o que não explico.
Quando os olhos não temem as monstruosidades que trago a lume, traduzo-as para mais bem se desentenderem o homem (minha carne de ossos e carências) e sua consciência (o sopro que reconfigura o ar relampejante dos vazios). Diz o que diz o mundano fraturado. O fosso não me obscurece em bloco único, posto que pulsa o poço da mente, há zonas graduadas de luz ─ da luminosidade da lua acima da boca ao breu do fundo mais fundo, sete palmos na lama que suporta sete metros de água represada por medos sem nome e tristezas muito vívidas.
Como os ingênuos gozam ao atribuir valor incomensurável àquilo que nem entendem, o preço da lucidez é a solidão. No livro dos dias, entretanto, não desperdiço a incomunicabilidade que preciso esquecer. Preservo-a pela leitura. Divirto-me, leio.
Na escola estadual Laurinda, enfiado num bolso bordado no pátio a cantar o Virundum, foi nesses dias que o banheiro virou território da Loira, a cuja ubiquidade atribuía-se a mais excelsa das fantasmagorias, a da aparição. O medo aguçava o desejo, pois ela vinha do desconhecido e os hormônios dos treze anos me expunham ao ridículo. E fui jogado às paredes e portas, e à calça molhada também. Na realidade, vi-me. Leio-me, agora.
Abespinha? Sim. Mas, cidadãos estão para opinião pública assim como a cidadania grassa longe das redes sociais.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de março de 2019.

domingo, 3 de março de 2019

Chuva noturna


Chuva noturna

Não preciso esquecer o que finjo lembrar? O silêncio deseja me dizer, mas as condições são adversas. Como a vida, nestes dias de hipocrisia suprimida, a nos opor uns aos outros. Farejo encrenca. Quero escrevê-la, talvez para torná-la mais palatável ou menos indigesta. Do nada, como certas ideias que cravam estacas onde a dor me chama pelo apelido, ocorre que não sei quem seja o tal menino que desmonta a boneca, sobra-lhe um parafuso e acusa sua irmãzinha de jogar sujo, pois o parafuso sobrante é do urutu das suas maquinações, da mana, menor e mais nova, portanto capaz de defender-se com unhas pontuais.
É isso, amigo. O oprimido, por ser quem é, veio a mim para desabafar, abrir o coração, exagerar na mão ao solicitar minha empatia. Mas é das consequências desse exagero que passei a racionalizar, movido que estou, tanto agora como então, mais pela compaixão e menos pelo alinhamento. Porque a facilidade carimba a cegueira com o sinete do amor. Amor, guarda-chuva a abrigar opostos. Fervo como coração de mãe enlouquecida de tanto fermentar calor humano em ídolos de barro. Outra vez, o excesso. Humanidade, amigo. É a partir do meu humanismo que penso, penso embora a contrapelo ao me querer aliado. E quando muito, ocupo-me de mim como ouvinte, interlocutor, até um moralista. Pois me cabe pesar, ponderar, escolher a quais valores avaliar. Acolho refletir por mim, não pelo peso da mão no meu ombro. Peso vivo do morto que não morre. A opressão do oprimido ainda segue sendo opressão, apesar da simpatia.
Para conversa prosseguir ─ que diabos?
A especulação calha-me agora, enquanto estou escrevendo, por conta de uma visita peculiar de outro dia. Ou melhor, outra noite, o sábado da semana passada, dia 23 último. Peculiar e particularíssima visita, aliás. À reflexão.
Tantos desentendimentos entre as palavras falada e escrita. Assim, passo aos fatos. Não me envergonho nem dou por mim que, por ventura, me tomem bichado dos nervos, com a minha cuca impregnada de tanta laranjada, tão incorreta.
A ventania da noite anterior, da chuvarada da sexta, parece que elegeu ficar alojada no meu apartamento. Fez em absurdo, mais precisamente, o domicílio da familiaridade. Digo que torna a estranho o normal. O vento passa em revista o vão recôndito, monta-se em campana para não enxergar. Sendo ar, rebela-se ao natural da constituição, estanca em névoa. Sinto-a na nuca, bafo de ontem a servir de ponte. Mas antes não fosse. A noite recusa a dissipação, é o vento que fica. Nada natural, portanto. A noite joga com o futuro em nome da força do passado. Diz-se em movimento. Posso o choro?
O instante não dissipado configura a presença. A ela passo, apenas depois de me desassombrar. Tão logo postos em tela o ambiente e as circunstâncias. Para tal manifestação.
Menos um encontro. Pois, de uma manifestação.
Para resumir, mesmo de modo breve, haverá quem censure em mim a narrativa, pelo insólito e pelas incongruências nada lógicas do relato. Como se os vícios partissem do cronista.
O fato é que, por volta das nove horas da noite, chovia, fazia frio e, petrificada em pensamentos sobre meu pai falecido há quase trinta anos, a minha alma sabia que ainda era o dia de nascimento dele: o 23. Fora o pasmo de ter vivido o dia sem uma fala sequer. Sério.
Foi quando, uma vez instalado o vento nos quadros, indo de um para outro sem o pudor da conversa racional de mil e uma veredas, então a figura surgiu no desenho que fica acima dos meus pés, quando estou deitado no sofá a ver televisão.
Por conta de um cochilo ou talvez pela percepção de estar a pestanejar, veio. Orientou-me a perdoar meus erros. O meu pai propondo que fosse indulgente, complacente? Delírio meu, de abstêmio. Impura a alucinação, humana.
O vento está solto.
Daí? Permanência, em inesperado trânsito.
Encafifado. Perturbador. Ter o vento encarnado entre quatro paredes. Varrendo os frutos de outra mão. Os quadros são um Nu descendo a escada? Sem exceção, ou Duchamp.
O fato é que naquele dia, por volta das nove horas da noite, chovia, fazia frio, a mente horrorizada, perdida da realidade. Os (muitos) jornais do dia estavam lidos, recolhidos os detritos da fricção do real com o código moral. Quem diz tal coisa sem ao menos ruborizar? E foi quando, aberto ao abismo pela fissura do assombro, fiquei de pé, comecei a cantarolar. Com a timidez dos princípios, fiz a minha parte no teatro da minha submissão. Os inzoneiros cerrados murmurantes... Cantou-me o Brasil da minha gente que tanto amo, exaltou por mim a mão na terra a semear frustrações, derrotas, perdas irreparáveis. Por isso, não se paga nem multa? Deixo a outros o berço admirável.
Com a repressão de ir desenho adentro, pesco à parede a sombra do coração. A me replicar a mim. Bastasse fingir o que esqueço. Porque ao recordar, não me perco; rememoro.
Tomo do risco o vão que flui seus trilhos. O gélido na luz da veia, a frieza de quem calcula a próxima jogada. Estátua a me vibrar do pé ao olho. Na retina, a TV apaga a coragem. Ainda a me divisar dos quadros, a figura do pai pede para entender-me comigo. Antes que passe a temporal, a alvorada desenha-se outra madrugada.
O sangue é o pacto? A propósito, não.
E logo hoje, entrado março: temos carnaval. É preciso ter na ponta da língua, não de cor, o nome da autoridade. É preciso escolher o urgente. A demonstrar respeito, apreço, distinção. É vontade, índole e juízo exemplares. Por 33.763 razões, hei de pleitear a honorabilidade da aceitação. Despido da história que a bílis teima em fazer brotar na boca agreste, de quem cospe desertos. O anjo do vento que testemunha o que confronta. Em vez de rir-se? Às costas, um breu.
Deprimido? Comprimido? Essa noite fabricou-me feito mar: reprimido, nunca suprimido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de março de 2019.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Na banguela


Na banguela

Sem mais, um sujeito dispara: Muito sinto o que penso.
Para sua própria surpresa, a mulher topa: O senhor sente?
No ônibus, às 6h30, o diálogo se faz.
Sinto mesmo. Penso muito sobre os meus sentimentos.
E o senhor gosta do que faz?
Sim. Quando dá, decido o que quero fazer e faço.
Como assim?
Olha, costumo colocar bombas nas engrenagens do trem. E como funciona a bomba que fabrico? É simples, e algo direto. Construo um tipo único de bomba. Tem um jeito só, mas minha bomba tem matizes diferentes. Conto com as sutilezas, moça. Porque o sutil está nos detalhes. E a bomba só explode, ela só funciona de verdade, por contar com quem está no trem. Gente que não se contenta em ser só passageiro. Se o camarada for só um passageiro do tipo que fica olhando besta a paisagem, então, a bomba não é detonada. Se a companheira for só uma turista que fica satisfeita com as comidinhas servidas a bordo, então, a bomba não irá funcionar. Agora, se as pessoas topam conversar, ouvem-se, trocam ideias, e formam uma opinião por meio da argumentação, então, a bomba já eclodiu. Entende?
Não, senhor. Estou perdida.
OK. Eu vou explicar melhor. As bombas que coloco no trem não ficam escondidas. Não encaixo num vão do assoalho nem coloco num buraco do teto. As bombas que espalho pelo trem entram nos ouvidos porque saem das bocas. São transmitidas de celular para celular. Até suportam os tipos de computador, seja de mão, de colo, de mesa. São bombas necessárias para fazer andar o trem. Então, sem as bombas o trem para. E daí a gente fica no lugar, pois não faz o trem rodar. São bombas que tiram o medo da gente. Tais bombas são para que as pessoas queiram conhecer outras paisagens, sintam vontade de ouvir mais pessoas, tenham muito mais interesse no mundo. Minhas bombas só estão nas engrenagens do trem porque as pessoas existem. Entendeu agora? Sem pessoas, nada de bombas. Eu enfatizo a palavra: pessoas. Não disse indivíduos. Não falei em exemplares. Repito: pessoa. As bombas que mais preciso são pessoas, pois sem elas a vida morre, o mundo vira pedra. E daí a energia da realidade acaba convertida em brasão de família no bolso da camisa, fica pendurada na parede do consultório, vira um teclado último modelo para unhas manicuradas. Se as bombas somos nós, então, vamos detonar a petrificação. Sem medo, o que precisamos fazer é romper com essa agonia de ir em frente só porque estamos indo em frente. Nós podemos.
O senhor fala com propriedade. Por acaso, é professor? É filósofo? Pois o senhor fala como quem sabe o que diz. Tomara mais gente pudesse ouvi-lo. Pois concordo com o senhor. Todo trem precisa de uma locomotiva.
Sem embargo, à altura do Cemitério da Consolação, ela diz: Trabalha aí? Às 6h45, o estranho salta do ônibus: Fazer o quê!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de fevereiro de 2019.