Corpo
estranho
Nada mais estranho do que o mundo. Olho
a rua. Ocupo-me dos passantes. Antes de passar pela rua em que moro, o que estavam
fazendo? Vão para onde? O que irão fazer quando lá chegarem? Será que estão
indo trabalhar? Que vida esquisita.
Mas não vou especular. Ou errarei pelo
nonsense que nutre as sinapses com uns desequilíbrios químicos, na confusão de
dopamina, endorfina, sei lá o que mais.
Para falar de outras esquisitices...
Faz dias, começaram a repetir o George
Santayana, a frase: "Aqueles que não podem lembrar o passado estão
condenados a repeti-lo". Não sei dizer em que contexto foi dita, mas tem
validade pela advertência. O tanto de importância e relevância está na
construção: PODE lembrar. É a locução empregada, que diz o direito de lembrar,
rememorar, recordar. Mas não diz comemorar, celebrar, ou, sequer, festejar.
Ficou claro?
Entendo que seja este o teor do aviso.
Por precaução, e o faço sem tirar pela violência, volto àqueles dias.
De fato, e por direito, lembro o que
houve em 1964 e o que se seguiu ao golpe. Vi caminhões militares passando
diante da janela de casa; em seguida, não sei quanto tempo depois, com meu pai
e minha irmã, fui ver, onde havia um declive lamacento hoje está o cemitério
novo de Ibiúna, e vimos moças e moços do Congresso da UNE que foram presos num sítio,
em 68.
Mas foi só no primeiro ano da
faculdade de Jornalismo, em 1984, que liguei minhas memórias com o dia a dia da
noite que durou até o ano seguinte, 1985. Ano em que Tancredo morreu. E antes de
tomar posse como o primeiro presidente que, desde o tal março de 1964, não era um
ditador fardado. Um tranco.
Por dever e por direito, busco saberes
sobre o que não sei. Não uso óculos tecnologicamente desenvolvidos para limpar
da minha frente a poluição de pululantes telas de tantos trecos.
E é na TV que vejo uma fila
quilométrica, com mais de 15 mil pessoas procurando emprego e querendo
trabalhar. Leio os índices do IBGE; informam qual o método para os cálculos, o
mesmo usado mundo afora. Quer pulga, orelha?
Fecho os olhos, a realidade não some. Sou
teimoso, a bicha é mais. Nem sacudindo o troço que servia para telefonar...
Eca! Para não fazer miséria pela casa
toda, já que a barriga anda descontrolada como a vida, corro ao banheiro. Ufa.
Peralá! Não é porque nasci antes do
advento da Idade Mídia que condeno os trambiqueiros digitais. É porque, no admirável
mundo das redes, tolices puxam outras. Novidade?
Para posar de Família Margarina, tem
gente usando foto de filho dos outros como se fosse dela. Que fofo...
Depois disso tudo, melhor me comportar
direito. Se tudo der certo, vou dar jeito na vida. E passar a comer de 3 em 3
horas, dormir 8 horas, e curtir o celular só umas 20 horas por dia.
Ou os ETs que estão de butuca ─
paradoxalmente calados, Fermi? ─ vão escapulir do Hubble a mil zilhões de
anos-luz.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 04 de abril de 2019.