terça-feira, 19 de março de 2019

Maçã do amor


Maçã do amor

Na claustrofobia do cotidiano, haja barulho. A gente ignora o silêncio. Não dá para entender quem não sabe ficar quieto. E o quê? O mentiroso sempre fala a verdade. É revelador.
Aposto a minha cerveja que a alegria de escrever que sinto me leva a pensar que tem cara de fruto proibido. A gente come escondido, olhando de soslaio, mas não para. Há uma série de desculpas na ponta da língua, bem ensaiadas. Escrevo porque nasci para denunciar as mazelas do mundo. Escrevo porque já muito cedo descobri que tinha facilidade para a coisa.
Mas o mundo nada tem a ver com minha indignação. Menos ainda a coisa. À escrita, pouco se lhe dá minha habilidade. Ou a minha humildade, pela sinceridade da modéstia. Por certo, e por mim, penso o ato de escrever como ação da dor na carne. Trabalho as palavras. Construo-me amoral, anarquista e ateu.
Perfectível, fabrico-me com o que tenho à mão e ao que me disponho alcançar em pensamento. A existência, que imagino ao praticá-la, é a expressão do prazer que a gente reprime e estimula, disfarça e disseca, revela e oculta. Temos razões que a razão sente. Mesmo sem tirar os olhos do celular.
A função do escritor? Quero a escrita que não oprime e nem se omite ao apontar quem ocupa o lugar que não lhe cabe. Sou pela escrita que não silencia a voz do outro nem tira a máscara que bem quer usar. Abro em mim esta clareira: mentira não é a ficção da história que nunca possa ser contada. Mil contos.
Subscrevo, logo gozo.
Lambuzado, julgo trabalhar as palavras ao brincar com elas. Se quero adestrados os neurônios? É foda. Pois as ideias que mais me dão satisfação, ao fim e ao cabo, são aquelas que me levam a esgotá-las, contrariá-las, nutrindo-me inconformado, a duvidar do que se mostra de cara, ouvindo no sutil as filigranas.
Mesmo fraco de tanto pelejar, prossigo. O que me fortalece é que o lugar comum dá por trivial não pensarmos. O óbvio não desorienta nem perturba. É só fazermos do rosto a máscara da verdade, e o preconceito leva-nos a aceitarmos a tranquilidade de seguirmos cuidando da vida. Dia a dia.
Agora, se coloco a lupa sobre o lugar comum para examinar de bem perto, desmontando sua máquina de sentido, tentando com isto me testar com quais conhecimentos julgo tratar, ei-lo, o jogo do prazer. Passo a remontar a ideia com as palavras em outra ordem ou trocando-as. Será que a diversão não educa?
Num texto de 2012, Anna Veronica Mautner diz: Aceitar-se com defeitos é o único jeito de suportar o olhar do outro sem ser aniquilado.
Sim. Vou beber água. A página está no meio do caminho. O meio leva ao fim. Os fins pedem os meios. E quem se esquece de ir pelo meio, estanca. Fica pela metade. O texto travado faz alheia a minha vergonha. É ridículo o incômodo do ridículo que não finjo. Tento me persuadir de que estou parado, indo.
Mordo a isca. A máscara e o rosto têm valor de face.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de março de 2019.

domingo, 17 de março de 2019

A leitura plausível


A leitura plausível

Consegui. Mantive-me longe do inferno. Senti o bafo quente, mas me recusei a ser consumido por suas labaredas. Foi uma semana difícil, tenho de admitir. Só que lutei por mim, tratei de pôr a minha saúde mental ao largo do horror espalhado pelos ventos. O tanto que sei de mim é que, me mantendo centrado e pouco suscetível à correria das ansiedades, posso me fazer útil às pessoas ao ouvi-las e ajudá-las a ouvir e ajudar outras.
Penso que estar no mundo é deixar-se viver no mundo. Não me isolo dos acontecimentos, dos fatos, das notícias. Porque a vida corre solta aqui ao lado, nos apartamentos vizinhos. A vida está logo ali, no ponto de ônibus, e dentro deles. A vida não tira férias, cumpre o batente na fila do banco e segue na lida entre as gôndolas do mercado. Nas areias do Forte, e onde haja uma faixa de praia para tanto, a vida estica as pernas. A vida quer o cigarro na madrugada fria e um cafezinho quente numa padoca da COHAB. A vida pede silêncio na oração pelos enfermos e é tão ruidosa na confraternização de amigos e simpatizantes.
Quero-me simpático, empático, tolerante. E escrevo.
O barulho ao escrever é brisa refrescante no meio da tarde, mas a leitura produz pé de vento com genes de tufão. Quando escrevo, com um lápis ou digitando no teclado do laptop, busco me concentrar no que tenho a dizer e, para não me dispersar e ir por algum desvio que faça perder-me das ideias que desejo registradas, reduzo os ruídos ao mínimo. Quando leio, todavia, o vendaval levanta as linhas, escancara entrelinhas, descobre o além dos acentos, faz a minha cabeça entrar no turbilhão do compromisso com semântica, múltiplos sentidos, pois escolho, interpreto, pondero, avalio, julgo, reflito, minto, desminto, viro e reviro, frustro, ilustro, escarro e engulo, seduzo e sou seduzido, afinal, o texto me lê enquanto vou lendo, e é com gosto que me deixo ser lido, assim.
Mas o dia a dia foi pesado. Massacre em Suzano, massacre na Nova Zelândia, desabamento de escola na Nigéria, a nova velhusca corrida pela África, Coletes Amarelos saqueando lojas em Paris, a vida boa da elite na Venezuela, boçais chamando boçais de boçais, STF X PGR X MPF. E para terminar o circo de horrores que não tem fim? Diz a medicina que as fezes são um bruta remédio e, nos States, já tem bancos para vendê-las!
Que fazer?
Ao fim e ao cabo, a vida é indomável e insubstituível.
Não vou fugir para o deserto, enfiar-me numa caverna para ficar jejuando, vivendo de orvalho. Não vou cavar um buraco e esconder a cabeça, fazendo de conta que o real são os meus pensamentos de justiça, igualdade e pizza de muçarela para todo mundo. Não, não fugirei para lugar nenhum, porque a vida está em todo lugar ─ com sol ou chuva, de dia ou de noite, na escola ou no hospital, fazendo pose ou tirando a foto.
E para não pirar na batatinha, preciso é manter o foco.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de março de 2019.

terça-feira, 12 de março de 2019

A escrita possível



A escrita possível

Escolhi voltar de Pasárgada. Não conheci reis nem a louca, a mulher que sempre quis. Nem um bêbado veio acusar a Mãe d’Água de ter postado no meio da noite que o mais ignóbil da tristeza iria matar-me. Como me consolar desse outro mundo?
Não vejo o impossível na clarividência dos loucos.
Assim a cada dia, outra vez e de novo, preciso tornar viável o Brasil que continua a não existir. Sem mim, haverão de existir os brasileiros? Nada. O Brasil não nos quer. Está farto de nós!
Ordeiros e progressistas, vamos à luta por nosso idealismo. Nos mantemos de pé, funcionando vinte e quatro horas, damos emprego a quem não tem preguiça de trabalhar, enfiamos mais bolas no gol do adversário e enchemos o copo dos que bebem sem ligar para barriga grande. De mente antenada, na ideia da pátria pela qual sabemos amar, a gente brinca no pé e tira da cabeça o nefasto, o que, a brasileiros de boa cepa que somos, é impróprio. Damos valor a quem sabe o que podemos. O pão? Há de vir. Como o país há 519 anos almejado por nós, virá.
Por mim, autoritários não passarão. Porque dizem ódio para raiva, medo, consciência. Mas os inimigos do povo continuam a passar. Posto que suas mentiras pululam no GOSTEI, as suas invejas adoecem de tantas selfies. Na realidade, tal história é o meme que vai seguir sendo o narrador tendencioso de quem puxa para si a sardinha alheia. Que história é essa, hein.
Os brasileiros somos a grande família? Não nos preocupa o próximo, aquele carente deslocado dentre a gente? Muito mal nos sentimos admitir que poderíamos mais, acaso não agissem contra o povo os que se alardeiam seu defensor? Entendo?
Meu trabalho é escutar as pessoas e, por ser desconhecido, posso ouvi-las sem que distorçam o que contam. E tomo notas, analiso, ponho no papel defeitos e virtudes. Resisto no diálogo, abreviá-lo faz mal. Reflito, penso. Para mim e para o outro.
Pois olhos leem o mundo, ouvidos leem sua visão. Vejo.
Aprendi a aprender, fui educado para isso. E me encanta a lua cheia no olhar selvagem de quem acaba de acordar. Vê?
Sonhos filtram à memória a realidade, passam a limpo o que conto. Descontam de mim, por inconsciente. Dormindo reconto. Maravilha? Quando a pessoa recorda o que nem sabia do que poderia vir a lembrar-se. É o aprendizado que as horas de sono tratam de manter. Só o que realmente marca, o resto é basura e vai para o esquecimento, onde a luz respira a treva.
Como andei tagarela em algumas crônicas, movido por um obscuro desejo de explicar-me, contenho-me para que a razão do texto surja da leitura. Escrevo sonho e leio pesadelo? Quiçá em mãos adestradas, as palavras falem; em poetas, digam.
Ademais, os bárbaros nunca tomaram o trem das onze. Por isso, voltei. Para mais bem escutar o que se diz quando nada é dito, vim. Calado?
Refazer o ingênuo em palavras, na esgrima de cada jogada, espanta-me.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de março de 2019.

domingo, 10 de março de 2019

A escuta sensível


A escuta sensível

Oxalá haja Oxalá.
Pronto, o espetáculo começa pela frase que não deveria ter encerrado a crônica anterior. Relapso, deixei. Se nem sei editar um texto? Ficou, daí a tortuosa explicação.
Soa duplo o espírito? Oxalá, do árabe insha’Allah, se Deus quiser, tomara. Oxalá, do iorubá Òrìsànlá, diz: luz (oxa) branca (alá), um Deus? Pondo acaso no cálculo, tem-se o cruzamento de um significado com outro: Oxalá haja tomara; tomara haja Oxalá; tomara haja tomara.
Tomara em mim reverbere nítido, abundante, adube terras e águas o fora faiscante. A distância flexível vem à probabilidade. Não penso em primeira travessia, primeiro beijo, primeiro livro.
Reinações de Narizinho? O Noventa e Três? O Alienista?
Das leituras, o gosto vai além das retinas. São osso novo a cão velho das ruas. Mesmo relendo, nova é a leitura.
Se lerei o artigo 142? Necas! Prefiro gozar de comentários, correções e adendos. O veja bem o que eu disse é a cara dum Brasil que não se corrige porque nunca aprende. Entendo que há método, e vejo nisso o jogo sujo dos perversos. Janiossauro fala sem dar pelo lugar que está ocupando, primeiro o errado e, em seguida, correr se emendar. Assim, é nossa referência para aprendermos sem ajoelhar no milho. Como nos convém, aliás.
Janiossauro? Está no Fausto de Thomas Mann, que perdeu o privilégio de ter cruzado com o bicho, toda a gente sabe que nenhum tolo estremece em face da sua própria alucinação.
Aprender pelo exemplo? Mentira! Pois tomo da Bíblia antes de deixar a cama, e, durante a corrida na esteira, fico em ponto com o noticiário, e o café me destina às capas dos jornais que assino. A Constituição, à mão na mesa de trabalho, consulto-a quando me sacode alguma dúvida sobre legalidade. Há umas inconveniências. E para que não se perca do mundo a ordem pela qual zelo insone, prevaleço à verdade.
Nada de protagonismo infantiloide, confesso minha limitação física. O cérebro cansa fácil com a pirotecnia dos malabaristas amadores, a boca seca logo, há tensão em músculos, tendões e nervos, sobretudo os nervos. Confesso que nem julgo direito o Brasil que me consome. Por que julgaria repentino? Me deixo consumir por trampolinices dos Malasartes sem escol. Gaiato.
Desejo o que penso, concebendo-me abjeto. Posto que meu maior abjetivo da vida é fazer-me menos esotérico, vagamundo e lucifeérico. A focinheira, opcional a quem ousa aproximar-se, será para grunhir o que não calo? Nem de longe nem de perto sequer no interior, é infâmia que, de tão feroz, chega a marcar o pescoço ao cobrar nortes. Quando me chamo à fala, banal.
Desloco o que em mim palpita. Olho à esquerda, à direita. O torso projeta a sombra, reconheço-me. Identifico em mim a voz que sonda o ar, vamos pôr a embaixada em Jerusalém? Quero disciplinar-me por meio das palavras, que tal Alcântara na mão dos gringos? Sim, dizer palavra é orientar o ar. Entretanto, pela alucinação que vivencio, digo que preciso ter o que dizer. Sem ruídos, dizê-lo: nada de chuva dourada?
Educo-me pelo limite do que posso, penso e acredito.
E há quem empregue a linguagem para passar informações, sejam dados empíricos, exatos, comensuráveis, sejam estados de mente, psique, alma. Não sigo por aí. Linguagem é sintoma, até com estilo. Freudiano leitor de orelhas, consigo escutar-me. Divirjo de mim como criatura portadora da palavra. Que cortam, fazem sangrar, e espirrar. Se palavras levam a mudanças?
Ciente, consciente, inconsciente ─ sofro, e faço sofrer.
A coração dos pudicos não interessa, se verdadeira. A falsa, porém, a que me põe perplexo e perturbado, por essa aguço os caninos. Abro o peito à faca, jorro no sangue que não enregelo, coagulo, aborreço. O coração que enrubesce é triste, todavia ri ao entrar em erupção diante do inédito inesperado enigmático. Tal coração sabe de cor que a razão é eterna enquanto passa. Inaudível e tímido, enrubesço. Reação de circo, é?
Sou passista, faço jus à sombra que sabe de mim por meu corpo. Como o presente guarda do futuro a relação do que não se espera, o instante fabrica as lágrimas no riso. Se não estou a morrer, muito me engano? Sobrevivo ao oásis que me impõe areia até os olhos. Fiz de mim o sarcófago que me carrega.
Condenado ao amor por liberdade do inconsciente, finjo-me arbítrio a desdenhar da racionalidade. Traçada tão ridícula nos desenhos da criança. Onde a árvore, uma chaminé? Onde uns palitos, a família? Onde a tosse, os urubus. Para descarrego do pó, o acaso é a cova mais viva, a do corpo que canta e dança porque se reprime. E passo o recibo. Haja paciência!
De amores, me componho. Pela paz da ciência, amores.
Por amores. Ao equilíbrio mental, não. À justiça social, não. Ao socialismo, não. Aos perigos da infância, não. Ao precipício da maturidade, não. Ao suplício artrítico, não. Na vigilância, me sinto efêmero. O mais são flores de plástico ao pé do busto do precário. De encontro em encontro, a piedade. Este amor sutil não falta, e vicia. Pois a incerteza não satisfaz. E tu?
Um dia basta, uma hora é o bastante, um segundo já foi tão basto quanto a minha insônia. Agora, estralando em mim como uma sibipiruna na chuva. Lapidado por dentro, sofro. O oco.
Então, como condenar minha mãe que nunca escondeu que deixa pelo meio o que escrevo? Ela está certa na razão de sua vontade. Cavalo xucro, o meu cérebro inventa um cão que é o cabeça da cidade? Crianças viram gato? Bota a denunciar um criminoso? Flor de pedra? Barroco isso, né?
Sabe minha bunda o que mais brotará deste pântano mental que me castiga na cadeira por sete horas diárias. Escrevo, mas a quem me dirijo? Nem a Ele nem a Outro, apenas a nós dois.
Sem dormir, sem banho e sem tempo, é no silêncio do muito sério que gozo da minha retórica impura. E tu:
“Você existe, logo existo”.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de março de 2019.

quinta-feira, 7 de março de 2019

A palavra não cura





A palavra não cura

Nesta Terça Gorda, n’O Globo, para Cora Rónai os imbecis representam-se apenas a si mesmos e faríamos um bem para a sociedade se não compartilhássemos o que publicam, seja em relação à política, seja em relação ao que for.
Por rato, acolho tal opinião. De minha parte, todavia, apenso a ela uma reparação, sem a pretensão de apurá-la. Pois, a mim me parece, uma tolice querer-me autoridade sobre a necedade de outrem. Basta a minha. Por pusilânime que soe a quem lê a admissão. De topada em topada, não crio calo nem me quebro. Sangrar é maneira de se conhecer. Dolorido, mas um modo.
Tolo como posso, não minto todo o tempo. Também invento.
Invento? Penso na poesia. E quando trato da poesia, apesar da dúvida que me põe renitente quanto à presunção do juízo, é que trato de juntar alhos com bugalhos. Do pé faço mão, para erguer em engenho a visão de mundo, a minha própria.
De que é feita a minha visão? Dos retalhos alheios, moldo a minha alma como quem fabrica o fuxico. Aprendo a coser com os cacos de prazer que me escolhem. Com João Cabral, Murilo Mendes, e confraria dos Andrade, seja Oswald, Mário, Carlos.
Deixei de imitá-los. Passei a vivê-la, a Língua Portuguesa. E pus tijolo por tijolo na ponte para chegar à linguagem, e ainda não cheguei. Preciso dinamitar a travessia para fazê-la minha. Da mão faço pé. Ando até onde vou, pois saio para ficar.
Visão esta que me leva à realidade, conforme a leio a partir de mim. Realidade, e não mundo. Mundo faz pensar em limite, fronteira, pátria, nação, civismo, fortes depressões, falésias de alturas estonteantes, nauseabundas certezas topográficas. Só que a noite escura da minha mente topa coriscar quando vem à ideia uns pensamentos. Até mesmo imbecis, tênues e pessoais à beça. Ouço o Manoel de Barros. Fiz poemas, pois a poesia é a virtude do inútil. Inutilidade, e não imbecilidade.
Exatamente porque são parcos os meus conhecimentos de física: intuo que o tempo é uma dimensão da matéria, ou seja, não há tempo fora da substância; palpito que da supernova ao resfriamento, da semente ao fruto, da fecundação ao pó, tempo é ilusão. E a ele nos apegamos como uma contestação, contra o fim. A matéria morre, junto vai o tempo. É concomitante: sem suporte, não há tempo.
O reparo é preciso?
Meu asinismo não acha absurdo em saber que a árvore desaba na mata mesmo sem meu testemunho. É fato natural. Preciso é orientar-me a não temer o que não sei nem espero. Sempre a mesma queda: nem o mal nem a imaginação. Egoísta o eu por que existe?
A coisa funciona assim, sou quem pensa e fala por mim. O que digo é que o tempo não me possui nem o possuo. Apesar da aparência, não há relação temporal direta entre a percepção e a consciência que reflete sobre o que sente. Por segundo, é o eterno presente, o instante que não passa, o momento agora. O que sinto? O sentido quase epidérmico da consciência, e a angústia de pensá-lo; é isso um átimo? O átomo, o indivisível, o ímã que continua ímã no fragmento? Tal sensação de sentir-se inteiramente na poeira de si. No entanto, o corpo sente-se à velocidade do som e a mente, na velocidade da luz. O instante é a máscara para brincar este carnaval.
Minha morada na estética, a colcha de retalhos é a prova de que a vontade tem nome, foto na carteira e números, que são para viver o carnaval. Contudo ele não basta. Não basta dizer para sentir nem sentir para poder dizer. Topar as palavras não é saber o que tem a dizer ou o que pode vir a dizer. Caso queira ou saiba o que quer. Experimente dizer o resultado. Não resulta em pensamento o que em palavra não se estrutura. O arcabouço do sentimento com a emoção da razão na lógica do sonho, feita de pandemônios a imitação. Quem desconhece diz sofrimento, para torná-la inteligível, medível e compreensível. À sombra da própria sombra, medir-se? Depende da perspectiva. Diz Clarissa Pinkola que escolher tornar-se mais sábia significa sempre escolher aprender de novo. Excitação? Pensamento a imaginar-se em toda extensão. É da pessoa.
E tempo é movimento bem o sente o homem sentado, pois escrevo sentado. E sentado, sinto. Sentindo, penso. Pensando, imagino. E imaginando, movo-me por mim. Bem como o Sol.
Que coisa. Isso não é coisa para se pensar em voz alta nem em pensamento. Rompimento, e não deformação. Ruptura, e a quebra do vaso. Ficam lembranças, recordações,  memórias. A vida, por uma interpretação. O que dá vida às coisas não são as palavras, é a interpretação que as vivifica, degela. Interpreta quem dá nome às coisas. Entretanto frágeis. Recordáveis.
Lembro, como história baseada em acontecimentos reais ou por imaginação a convertê-la em fatos reais, recordo a casa do meu avô, pai de minha mãe, e a ordem configurada a partir da vontade dele. Almoço, à mesa o dono da casa, minha avó, dois primos e eu. Daí que lembro assim, ou invento que assim seja, e lembro que só depois que a minha avó falava conosco (nós, os infantes ─ os meus primos e eu) é que podíamos falar as besteiras de criança. Funcionava, nem me ocorria o prazer da fala. Havia ordem, e era para ser cumprida. Ficou na memória, está em mim ainda.
Quando encontro pensas as fotos? Contra o misterioso gozo do hábito, julgo caricato emoldurar o outro como imagem do desejo ou evitar que minha família equilibre-se no menos torto. Desentortar-me, porém, é interpretar como se nada fosse inútil. Quem dera a cura fosse menos outra doença. A dor, no fundo, é não ter fé sequer na escrita. Sinto, o tempo não cura o que não há de ser curado. Pressinto que existir é procurar escutar. Rato após rato tantos anos, a ir-me a nada. E será débil admitir que a fragilidade encanta mas não completa? Nem só o poeta percebe o quão inútil é buscar sentido onde não há. Ruído?
Deve ser por que sou...
Oxalá haja Oxalá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de março de 2019.



terça-feira, 5 de março de 2019

Cidadania, cidadãos


Cidadania, cidadãos

Às vezes, tento me impedir mas não consigo. Reconheço as minhas muitas falhas. Por exemplo, afeiçoei-me a enveredar pelos caminhos da palavra difícil. Ponho relevância nesse vício, porque a sedução de pegar das palavras, até mesmo das mais comezinhas, pego-as, digo eu, para dar um nó no pensamento, revirando-as para integrar uma obscuridade, cujo entendimento fuja ao fácil. E, com gosto, admito obrigar ao malabarismo a espinha das palavras. Vai daí que o chão batido da estradinha mais chã se revela do Neguev a areia mais sagrada.
Por que ajo assim? Não deveria a simplicidade pautar a fala dos mansos que gostam de entabular um papo bom e útil?
Que barata a liberdade, comprada à perversidade. Tomo da culpa, e como o miolo de pão...
Propenso a me acomodar ao mal-estar que pareço tolerar, não o transfiguro em ira, ódio ou raiva. Não o faço, porém, por alguma qualidade intelectual ou por algum capricho espiritual. Talvez por que me tomo por um bom rapaz, desses que estuda para não perder das origens a educação abençoada do pai ao pai do pai, indo por onde o rastro afiança. Acho.
Deixo quieto. Sentado, elefante observa mais.
Penso a fratura da realidade comigo, e nem sei dizer se esta atitude tira de mim a oportunidade de autodescoberta ou, pelo contrário, faz leitura do mundo em queda livre. Do acaso, e isso é possível porque a ruptura veio antes ou não haveria a fenda do meu olhar a desvelar o surreal da vida, tiro do acaso, então, a chance de explicar o que não explico.
Quando os olhos não temem as monstruosidades que trago a lume, traduzo-as para mais bem se desentenderem o homem (minha carne de ossos e carências) e sua consciência (o sopro que reconfigura o ar relampejante dos vazios). Diz o que diz o mundano fraturado. O fosso não me obscurece em bloco único, posto que pulsa o poço da mente, há zonas graduadas de luz ─ da luminosidade da lua acima da boca ao breu do fundo mais fundo, sete palmos na lama que suporta sete metros de água represada por medos sem nome e tristezas muito vívidas.
Como os ingênuos gozam ao atribuir valor incomensurável àquilo que nem entendem, o preço da lucidez é a solidão. No livro dos dias, entretanto, não desperdiço a incomunicabilidade que preciso esquecer. Preservo-a pela leitura. Divirto-me, leio.
Na escola estadual Laurinda, enfiado num bolso bordado no pátio a cantar o Virundum, foi nesses dias que o banheiro virou território da Loira, a cuja ubiquidade atribuía-se a mais excelsa das fantasmagorias, a da aparição. O medo aguçava o desejo, pois ela vinha do desconhecido e os hormônios dos treze anos me expunham ao ridículo. E fui jogado às paredes e portas, e à calça molhada também. Na realidade, vi-me. Leio-me, agora.
Abespinha? Sim. Mas, cidadãos estão para opinião pública assim como a cidadania grassa longe das redes sociais.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de março de 2019.

domingo, 3 de março de 2019

Chuva noturna


Chuva noturna

Não preciso esquecer o que finjo lembrar? O silêncio deseja me dizer, mas as condições são adversas. Como a vida, nestes dias de hipocrisia suprimida, a nos opor uns aos outros. Farejo encrenca. Quero escrevê-la, talvez para torná-la mais palatável ou menos indigesta. Do nada, como certas ideias que cravam estacas onde a dor me chama pelo apelido, ocorre que não sei quem seja o tal menino que desmonta a boneca, sobra-lhe um parafuso e acusa sua irmãzinha de jogar sujo, pois o parafuso sobrante é do urutu das suas maquinações, da mana, menor e mais nova, portanto capaz de defender-se com unhas pontuais.
É isso, amigo. O oprimido, por ser quem é, veio a mim para desabafar, abrir o coração, exagerar na mão ao solicitar minha empatia. Mas é das consequências desse exagero que passei a racionalizar, movido que estou, tanto agora como então, mais pela compaixão e menos pelo alinhamento. Porque a facilidade carimba a cegueira com o sinete do amor. Amor, guarda-chuva a abrigar opostos. Fervo como coração de mãe enlouquecida de tanto fermentar calor humano em ídolos de barro. Outra vez, o excesso. Humanidade, amigo. É a partir do meu humanismo que penso, penso embora a contrapelo ao me querer aliado. E quando muito, ocupo-me de mim como ouvinte, interlocutor, até um moralista. Pois me cabe pesar, ponderar, escolher a quais valores avaliar. Acolho refletir por mim, não pelo peso da mão no meu ombro. Peso vivo do morto que não morre. A opressão do oprimido ainda segue sendo opressão, apesar da simpatia.
Para conversa prosseguir ─ que diabos?
A especulação calha-me agora, enquanto estou escrevendo, por conta de uma visita peculiar de outro dia. Ou melhor, outra noite, o sábado da semana passada, dia 23 último. Peculiar e particularíssima visita, aliás. À reflexão.
Tantos desentendimentos entre as palavras falada e escrita. Assim, passo aos fatos. Não me envergonho nem dou por mim que, por ventura, me tomem bichado dos nervos, com a minha cuca impregnada de tanta laranjada, tão incorreta.
A ventania da noite anterior, da chuvarada da sexta, parece que elegeu ficar alojada no meu apartamento. Fez em absurdo, mais precisamente, o domicílio da familiaridade. Digo que torna a estranho o normal. O vento passa em revista o vão recôndito, monta-se em campana para não enxergar. Sendo ar, rebela-se ao natural da constituição, estanca em névoa. Sinto-a na nuca, bafo de ontem a servir de ponte. Mas antes não fosse. A noite recusa a dissipação, é o vento que fica. Nada natural, portanto. A noite joga com o futuro em nome da força do passado. Diz-se em movimento. Posso o choro?
O instante não dissipado configura a presença. A ela passo, apenas depois de me desassombrar. Tão logo postos em tela o ambiente e as circunstâncias. Para tal manifestação.
Menos um encontro. Pois, de uma manifestação.
Para resumir, mesmo de modo breve, haverá quem censure em mim a narrativa, pelo insólito e pelas incongruências nada lógicas do relato. Como se os vícios partissem do cronista.
O fato é que, por volta das nove horas da noite, chovia, fazia frio e, petrificada em pensamentos sobre meu pai falecido há quase trinta anos, a minha alma sabia que ainda era o dia de nascimento dele: o 23. Fora o pasmo de ter vivido o dia sem uma fala sequer. Sério.
Foi quando, uma vez instalado o vento nos quadros, indo de um para outro sem o pudor da conversa racional de mil e uma veredas, então a figura surgiu no desenho que fica acima dos meus pés, quando estou deitado no sofá a ver televisão.
Por conta de um cochilo ou talvez pela percepção de estar a pestanejar, veio. Orientou-me a perdoar meus erros. O meu pai propondo que fosse indulgente, complacente? Delírio meu, de abstêmio. Impura a alucinação, humana.
O vento está solto.
Daí? Permanência, em inesperado trânsito.
Encafifado. Perturbador. Ter o vento encarnado entre quatro paredes. Varrendo os frutos de outra mão. Os quadros são um Nu descendo a escada? Sem exceção, ou Duchamp.
O fato é que naquele dia, por volta das nove horas da noite, chovia, fazia frio, a mente horrorizada, perdida da realidade. Os (muitos) jornais do dia estavam lidos, recolhidos os detritos da fricção do real com o código moral. Quem diz tal coisa sem ao menos ruborizar? E foi quando, aberto ao abismo pela fissura do assombro, fiquei de pé, comecei a cantarolar. Com a timidez dos princípios, fiz a minha parte no teatro da minha submissão. Os inzoneiros cerrados murmurantes... Cantou-me o Brasil da minha gente que tanto amo, exaltou por mim a mão na terra a semear frustrações, derrotas, perdas irreparáveis. Por isso, não se paga nem multa? Deixo a outros o berço admirável.
Com a repressão de ir desenho adentro, pesco à parede a sombra do coração. A me replicar a mim. Bastasse fingir o que esqueço. Porque ao recordar, não me perco; rememoro.
Tomo do risco o vão que flui seus trilhos. O gélido na luz da veia, a frieza de quem calcula a próxima jogada. Estátua a me vibrar do pé ao olho. Na retina, a TV apaga a coragem. Ainda a me divisar dos quadros, a figura do pai pede para entender-me comigo. Antes que passe a temporal, a alvorada desenha-se outra madrugada.
O sangue é o pacto? A propósito, não.
E logo hoje, entrado março: temos carnaval. É preciso ter na ponta da língua, não de cor, o nome da autoridade. É preciso escolher o urgente. A demonstrar respeito, apreço, distinção. É vontade, índole e juízo exemplares. Por 33.763 razões, hei de pleitear a honorabilidade da aceitação. Despido da história que a bílis teima em fazer brotar na boca agreste, de quem cospe desertos. O anjo do vento que testemunha o que confronta. Em vez de rir-se? Às costas, um breu.
Deprimido? Comprimido? Essa noite fabricou-me feito mar: reprimido, nunca suprimido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de março de 2019.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Na banguela


Na banguela

Sem mais, um sujeito dispara: Muito sinto o que penso.
Para sua própria surpresa, a mulher topa: O senhor sente?
No ônibus, às 6h30, o diálogo se faz.
Sinto mesmo. Penso muito sobre os meus sentimentos.
E o senhor gosta do que faz?
Sim. Quando dá, decido o que quero fazer e faço.
Como assim?
Olha, costumo colocar bombas nas engrenagens do trem. E como funciona a bomba que fabrico? É simples, e algo direto. Construo um tipo único de bomba. Tem um jeito só, mas minha bomba tem matizes diferentes. Conto com as sutilezas, moça. Porque o sutil está nos detalhes. E a bomba só explode, ela só funciona de verdade, por contar com quem está no trem. Gente que não se contenta em ser só passageiro. Se o camarada for só um passageiro do tipo que fica olhando besta a paisagem, então, a bomba não é detonada. Se a companheira for só uma turista que fica satisfeita com as comidinhas servidas a bordo, então, a bomba não irá funcionar. Agora, se as pessoas topam conversar, ouvem-se, trocam ideias, e formam uma opinião por meio da argumentação, então, a bomba já eclodiu. Entende?
Não, senhor. Estou perdida.
OK. Eu vou explicar melhor. As bombas que coloco no trem não ficam escondidas. Não encaixo num vão do assoalho nem coloco num buraco do teto. As bombas que espalho pelo trem entram nos ouvidos porque saem das bocas. São transmitidas de celular para celular. Até suportam os tipos de computador, seja de mão, de colo, de mesa. São bombas necessárias para fazer andar o trem. Então, sem as bombas o trem para. E daí a gente fica no lugar, pois não faz o trem rodar. São bombas que tiram o medo da gente. Tais bombas são para que as pessoas queiram conhecer outras paisagens, sintam vontade de ouvir mais pessoas, tenham muito mais interesse no mundo. Minhas bombas só estão nas engrenagens do trem porque as pessoas existem. Entendeu agora? Sem pessoas, nada de bombas. Eu enfatizo a palavra: pessoas. Não disse indivíduos. Não falei em exemplares. Repito: pessoa. As bombas que mais preciso são pessoas, pois sem elas a vida morre, o mundo vira pedra. E daí a energia da realidade acaba convertida em brasão de família no bolso da camisa, fica pendurada na parede do consultório, vira um teclado último modelo para unhas manicuradas. Se as bombas somos nós, então, vamos detonar a petrificação. Sem medo, o que precisamos fazer é romper com essa agonia de ir em frente só porque estamos indo em frente. Nós podemos.
O senhor fala com propriedade. Por acaso, é professor? É filósofo? Pois o senhor fala como quem sabe o que diz. Tomara mais gente pudesse ouvi-lo. Pois concordo com o senhor. Todo trem precisa de uma locomotiva.
Sem embargo, à altura do Cemitério da Consolação, ela diz: Trabalha aí? Às 6h45, o estranho salta do ônibus: Fazer o quê!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de fevereiro de 2019.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A centímetros, o paraíso


A centímetros, o paraíso

A implicância começou com o travesseiro. Muito baixo.
Só poderia ter relação. O travesseiro de algodão, em vez de qualquer outro material ─ sintético ou natural. Talvez não fosse o motivo, mas a altura que tinha era razão para o desconforto. Sem dúvida. Era preciso aceitar esse porquê. As horas do sono entrecortado, com as imagens perturbadoras, servem de prova.
Passar o dia cochilando não faz bem. Não bastasse a feiura de berço. O corpo fica ridículo com o rosto amassado no vidro do ônibus. Sem mais, toca o celular.
Alguém me obriga a engolir a baba. Respondo que a Malala foi alvejada por talibãs, mas não, não foi por isso que, aos 17 anos, recebeu o Nobel da Paz. Foi por sua defesa do direito de meninas do Paquistão poder estudar.
O monitor sequestra para um mundo de infográficos. Nada me parece mais convidativo. Cochilo. A mão escora as ruínas da noite. Porque dá pouca firmeza ao maxilar, a boca começa a produzir ruídos. Conforme testemunhas, ronco.
A mensagem estridente interrompe o reinado de Morfeu. Por resposta, digito. Beber cerveja aumenta o ácido láctico e o gás carbônico, liberados ao suar. Além de cairomônios, que atraem mosquitos. Daí o maior número de picadas.
No grupo do Zap, seres especiais, cujo dom maior é o olho clínico, enxergam na pessoa o que tenta disfarçar. A tristeza, por trás do sorrisinho amarelo; por sugestões de filmes e livros, a alegria. A minha felicidade? Quando não peço nada. É leitura assombrosa, uma vez que as sutilezas dos estados de nossa alma são alcançadas a partir dos emojis que usamos.
O sinal sonoro torna o mundo telepático uma realidade. A tal vidente está clicando. E já emendo que foi na CES, a feira de bugigangas tecnoeletrônicas de Las Vegas, que um automóvel autônomo atropelou um robô. Que falta de senso das coisas. O tal carro reconhece os humanos e os robonoides não.
Na TV, governo propõe a idade mínima para aposentadoria: a de homens passa a ser 65 anos; a das mulheres, 62. Nem cinco minutos, e uma voz comanda a mente. Será possível que metade dos militares aposenta entre 45 e 50 anos?
Daí que não vou correr atrás de outro mundo. Não sou dado a querer nostalgias, por isso não vou pedir por aquela vida que um dia já foi mais tranquila, sem maiores angústias. Não quero voltar à época em que era menos informado. É certo que houve mesmo um mundo assim. Uma era sem celular, sem internet. A vida sem sem daquele mundo? Isso já foi.
Adeus ignorância que prolifera inocências. Mãos alcancem o telefone; vozes solicitem dados; dedos lutem por transparência. Que haja mídia a abrir olhos, ouvidos e bocas.
As horas de tormento? Por causa dos celulares e da WEB, a solução foi trocar de travesseiro. Centímetros mais denso, eis o paraíso. Também gosto de sabiás e riachinhos.
Para cair nas irritações do sono próprio, Doral ou Doril?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de fevereiro de 2019.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Politicamente correto


Politicamente correto

O Brasil do jeito que anda, você sorrindo e eu com cara de idiota. É óbvio. Vamos ter de ter um papinho sobre os valores inquestionáveis para uma vida em comum. Uma vez que essas verdades tornaram-se vidraça para pedras de diversos quilates. E acredito no destino a que nos encaminham as nossas ações. O preço que estamos pagando? Parece-me um baita exagero afirmar que o país esteja condenado a perder a graça. O humor e o escracho, por acaso, estão no fundo das gavetas? Não sei dizer quando darei adeus à percepção da vida como um jogo tenso entre a alegria e a tristeza. O idiota em mim quer sorrir sem ter motivos, sem querer marcar posição como uma afronta ou para ter posicionamento político. É que levo muito a sério o sorriso. Mas sem culpa. Sei que nem é carnaval, mas encho a cara. É sem maldade alguma, só para me divertir. E os chatos vêm dizer que homem mijando na rua é uma vergonha, que é o típico exemplo da masculinidade líquida. Nem bêbado vou usar muro ou árvore como mictório. Peço que não me tome, menina, como um exemplo de pessoa civilizada. É coisa simples. Não confundo brincar o carnaval e achar política em tudo. Acho que levo uma vida normal. De repente, a culpa do gelo derretendo nas calotas polares é de quem gosta de tomar sua cervejinha bem gelada? Daí surgem os que condenam o ar-condicionado, pois causa impacto no meio ambiente. Causa mesmo. O ar fica suportável, ótimo para ver o futebol sem ficar nuzinho. Mesmo porque em casa temos você que faz da gente um reino à parte e olha o modo de falar e os gestos da gente, essas coisas. Sua mãe até curte me ver peladão, admito. Mas de boa, filha, sem esculhambar para a política. Não suporto ficar choramingando feito vítima. Fica difícil. E nem posso falar nada que já vão logo pegando o que não disse para justificar a política deles contra o que acham que falei. Isso é política de marxista que vê fascista em quem não pensa como ele. A discórdia é que nos mantém bem a distância. Política de gente que não aprendeu nada com o que aconteceu com o Muro de Berlim. E não adianta ficar esperneando. Fazendo birra? O que é preciso é ficar alerta. Há muito espertalhão à solta por aí, nas escolas, nas faculdades, são uns vendidos ao comunismo que ficam pondo minhoca na cabeça dos menos experientes que ouvem como se fosse um chamado para atravessar o mar, feito um Moisés que tivesse magia nas palavras. Não, os meninos vão na onda e acabam aprendendo a pensar mais do que deveriam. Daí nossos bebês ficam repetindo, repetindo essas besteiras. Olha, princesa, o papai acha aquela moça que está passando de vestidinho bem bonita, mas não é por isso que ele vai querer assobiar nem pensar nisso. Ando na linha porque já tenho uma princesinha linda de morrer. Quer colo, é? Tá muito quente na cestinha, eu sei. Cadê o sorrisão que eu tanto adoro, hein?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de fevereiro de 2019.


domingo, 10 de fevereiro de 2019

Aula de Português


Aula de Português

De repente, não mais que de repente. De repente, da calma fez-se o vento, e sobre o Rio de Janeiro desabou um temporal com ventos de até 110 km/h e aguaceiro que, na Rocinha foi de 165 mm, passou do volume previsto, bem acima da média de anos anteriores. Em horas, mais do que em um mês.
Por solidariedade, repasso que o IBGE informa que 444 mil cidadãos do Rio moram em áreas de risco de desastre natural. Ressalto que houve o corte de 77% da verba utilizada em 2013 com drenagem, saneamento, proteção de encostas, prevenção de enchentes. E realço que o prefeito irá ao novo ministro das Cidades, pois Crivella sabe um nada do ministério extinto.
Diante disso, prefiro mudar de assunto. Deliberadamente.
E neste domingo, escolho me separar da vereda trilhada por Vinicius de Moraes no seu belíssimo Soneto de Separação. E vou por outro caminho logo ao fim do primeiro verso, que cala fundo em mim ao dizer que de repente do riso fez-se o pranto.
Tocado com o mundo que me cerca, do soneto do Poetinha, fixam-me distanciamento, perda do contato, solidão, tristeza. E estou precisando me afastar de tais sentimentos.
Entendo, hoje, que preciso recorrer à alegria e à felicidade. Tanto sozinho quanto bem acompanhado. Por isso, amigas e amigos, que os conforte o carinho desta mensagem.
Felicidade... De repente fez-se o pranto?
Que bom que posso dizer umas palavrinhas sobre a jornada de ir do riso ao pranto. Sentindo o que penso e pensando o que sinto. Está assim, dividido e somado, para que o professor em mim possa expressar o que se passa na minha cachola.
Como, por estes dias, são tantas as notícias a me derrubar, fui levado a prestar atenção na quantidade de estudos recentes sobre os danos provocados pelo consumo do que é veiculado nas redes sociais. Prolongado e exagerado, este consumo.
Mesmo sem o perfil dos que ficam antenados em memes de piadistas anônimos. Mesmo fugindo do mel que costuma atrair os fanáticos ─ sejam eles ecologistas, economistas, moralistas, politizados. Mesmo assim, devo cuspir o pirê da batatinha.
Puxa vida. Não seria bacana se o mundo fosse do jeito que a mídia e a internet recortam. Eu, certamente, bateria no peito ter esta vaidade besta de me exibir feito crônica. Soaria datado, assinado com letra torta. Tão patético.
Nossa! Depois de linhas e linhas tentando acertar o passo, só me resta espaço para externar apreço pela Mayra Andrade, cantora que tenho visto e ouvido com gosto.
O que vibra em mim ao vê-la? A cabo-verdiana interpreta-se como artista ao entreter o público, faz-se uma representante de quem canta por vocação, todavia ao apresentar-se pela voz do corpo todo, vai além. Radiante a sorrir, saltitar, dançar, indo ao encontro dos fãs. O talento me encanta, à maravilha. Fugaz e pleno, o choro que é de felicidade conecta-me ao que diz sua Lua.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de fevereiro de 2019.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Vou para Maracangalha



Vou para Maracangalha

De cara, aviso que a ansiedade pede passagem. Por isso, a crônica especula em voz alta, mostra a sua garra e, se houver tempo, dá de comer na boca, que o medo está louco para virar pânico. Portanto, não vamos nos enganar em vão: do pânico a se descabelar pelo time errado é um passo ou um salto, que se quebra bem na hora em que a loja está fechando. Depois tem gente que acha que é implicância ou uma... coincidência.
O tarja preta, sem receita nem bula, salta do jornal O Globo desta terça, dia 05 de fevereiro. O colunista Carlos Andreazza preconiza como obviedade comparar o parlamento a empresa ou família. Concordo que o Congresso é composto de pessoas, discordo do jornalista, porém, quando avalia que, se a matéria humana, fresca ou curtida, é ruim, ainda que haja exceções, impossível será um conjunto bom.
Com camufladas presas draculinianas, na Brasília renovada, há raposas na pele de raposa que cantam novatas e novatos à ultrassecreta transfusão envelhecedora.
Não fosse a praxe, da Câmara e do Senado escutaríamos o clamor em tom menor com sabor do novo. Mas não vou pegar essa onda, para não perder a razão ao ouvir Malandra no lugar da ladainha das sereias palhacianas. Que ânsia!
Muitos conduzem a política ao previsível, às favas contadas, sem caixinha de música que mostre mula sem cabeça atuando como a Gilda, da Rita Hayworth. Mas na política, como em tudo mais, o abominável nem sempre gera o abominável.
Alimento o coelho cartomante da cartola, Alice?
Para minha própria danação, puxo do Solano Trindade que intelectual se acomoda sem reencarnar. Dou por mim que sinto escusável o medo que toma conta das respostas automáticas a me defender do que seja surpresa, ataque ou afronta. Olha que não exijo de mim uma autoridade na defesa. Diante do perigo, presença de espírito é: correr. Pelo que me amo, sebo!
Se a circunstância me afrouxa a perna curta, minha palidez espanta assombrações, fantasmas e outros aparvalhados, pois a esperança vence por medo de sucumbir no meio da rua. Nem arma de brinquedo eu porto na bolsa a tiracolo nem sei de cor algum versículo para amedrontar quem teme a ira dos céus.
Fiquemos com a bolsa. E com o celular, no bolso.
Que treco fundamental para a ordem democrática do mundo atual. Arrisco dizer que a paz entre as pessoas de boa vontade depende do imediato acesso ao pensamento contemporâneo. Sem dúvida alguma, as ideias são constantemente viralizadas nas diversas redes. Aí canta solto o sabiá. Que beleza!
Então, para negociar longe das postagens, o recomendável é bancar o pecador arrependido. Afinal de contas, entre gente de bens, tudo tem jeito. Como quem manda tem juízo, siga no samba: Mora na filosofia. Morou, Maria?
Antes que a imagem suma pelas entrelinhas, Anália, o azul da gravata do camarada ao lado do Rodrigo Maia é moda.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de fevereiro de 2019.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Auto de fé


Auto de fé

Disse um dia, num recanto da Paris dos meus sonhos mais loucos, um bistrô tomado de gente interessada no vinho, talvez branco, na temperatura ideal que não sei qual seja, disse, tão logo se livrou da taça de champanhe, por certo era champanhe que todos bebericavam fazendo pose, foi então que o Picasso largou o seu Bordeaux favorito, certamente um tinto seco, para dizer aos presentes, embriagados o bastante para nem notar a boina bacanérrima da púbere Marie-Thérèse, foi em tal estado de lucidez que o andaluz vaticinou que “a arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade, pelo menos a verdade que podemos compreender”.
Em verdade, digo que ficaria sem ar, e até faria aquele ar de inteligente, acaso me encontrasse lá. Como não estava, tenho de me emendar com alguma razão para escrever o que entra na página que estou escrevendo. Ocorre-me mudar o adágio: me diz com quem ando e ele dirá quem sou.
Claro está que o anexim atende a preceitos hodiernos, pela toxicidade semântica pós-cartesiana a instituir-se o excêntrico fardo. Hein? Traduzindo este Coelho Neto: nossos dias pedem que nos identifiquemos com quem somos, a partir das relações sociais. Mesmo que me digam que beber é fugir dos embates ideológicos? Falem à vontade, todavia eu cresço do meu jeito.
Assim, dou à escrita o principado do viver. E passo um terço do dia sentado, de lápis na mão, coçando a nuca, pigarreando, indo tomar água, vindo trocar as palavras. Mas não por ofício.
Escrever é minha vida. Isso rompe com as horas dedicadas e ultrapassa os limites do racional, do mais indicado à saúde.
E admito a minha entrega absoluta à escrita. Sofro, padeço, incorporo, encarno. Contudo, sem os sofrimentos do miserável, sem as maldições do azarado e sem as dores dos sifilíticos.
Pouco me importa a literatura, sigo possuído pela loucura da minha perdição. Todo submisso, me entrego à escrita.
Ando doente de palavras? No demente, o alienado.
A concórdia universal não depende do que faço. Faço, sem a pretensão de tirar quem se recolhe ao papelão. E continuo a fazer, trazendo um pingado anônimo a quem me ignora.
Minha paixão é insana, desumana, pouco dada a afagos. É amor que não me defende das injustiças do mundo. Se as vejo vindo em minha direção, pico a mula.
Por vezes me embriago na bem-aventurança de pensar que as palavras fazem por mim o que não faço. Talvez seja terçã a febre que não passa enquanto escrevo. Me entorpece a mente. Mil demônios! Não consigo parar de escrever. Mesmo quando pouco tenho a dizer aos cidadãos e às cidadãs que depositam no que tenho escrito um crédito que não mereço. Digo isso por trapaça sentimental? Por lirismo. Agora que sei...
Adeus, apostólica missão marxista.
Afinal, os juros dos boletos vencidos estão vibrando o meu celular, este silenciado tratante jamais emudecido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de fevereiro de 2019.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Pétalas solidárias


Pétalas solidárias

Em dezembro passado, numa coluna do Roberto DaMatta, li que “a vivência da igualdade demanda conflito e coragem”. De pronto, cacei exemplos para esclarecer as ideias. Quanto mais busquei o entendimento, mais me senti a correr atrás do rabo.
O rabo é para indicar que padeço de alguma demência que nem sei dizer se já está catalogada por médicos, doutores e os mestres da saúde. Ou o calor fritou os meus miolos, de vez.
Como sempre, para puxar em mim o fio da meada que virou um emaranhado por eu andar à minha roda, veio a realidade.
Estava tomando suco de manga, e admito que, por timidez, sorri quando reverberou em mim a Mayra Andrade a cantar o teu pudor foi transmitido e será neutralizado. Na hora, associei a delícia da música com o prazer da minha beberagem, e, até confesso, ruborizei ao captar que pouco importa a cor do ouro, na corrida ao teu afeto, a medalha sempre é bronze.
Filtrado pelos 40 graus deste janeiro, pareço delirar.
Mas, à mesa ao lado da minha, sentam uma jovem mãe e a sua filhinha, de uns três ou quatro anos, por aí, a julgar pelas perguntas dos olhinhos. Dirigidos ao próximo, assombrados.
A pequerrucha, à deriva entre a TV e mim, fica exposta a todas aquelas violências. E como são torpes essas imagens de Brumadinho, e retratam um crime cometido contra as gentes de Minas Gerais, são o massacre hediondo contra as pessoas que têm o cotidiano à mercê dos negligentes da Vale e dos fiscais malandros e dos omissos que não fazem a justiça andar.
Quando perguntada, a mãe que, zapiando absorta e lépida, dispara que esse Brasil aí, filhota, vai mudar com o Bolsonaro. Tocada pelo sofrimento, a criança suplica misericórdia, contudo a imbecil, teclando, descarrega: Deus castiga os pecadores.
Do fel, fazer mel? É urgente um antídoto, porque me recuso a ser envenenado pelo que despeja esta energúmena.
Para meu alívio, ouço o porta-voz dos Bombeiros de Minas, o lúcido e articulado Pedro Aihara: “estamos trabalhando como se essas pessoas fossem nossas mães e nossos pais”.
Pelo respeito às pessoas e pela voz da igualdade, sou grato ao tenente. Pois não há acaso, há escolha nisto: somos gente.
Como uma história está conectada a outras, eis que me vem à ideia a da veterinária do Guarujá, do litoral paulista, que foi a Brumadinho para ajudar. Se dela não sei o nome, sei que ama a vida e o seu ofício. Posso dizê-lo, uma vez que, durante dias, ela deixou comida para um gatinho arredio. E só no terceiro dia o assustado bichano parou de correr da médica.
A vida segue em Brumadinho. Nesta sexta, sete dias após o desastre, à hora do estrondo da terra aprisionada pela cobiça, componentes do resgate espargem amor em pétalas, colhidas à coragem de quem se doa ao mundo, apesar dos espinhos.
Vendo a cena, não nego minhas líricas lágrimas indignadas, que brotam por nós ─ vivos e mortos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de fevereiro de 2019.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Catimba de pé murcho






Catimba de pé murcho

Como diz António José Forte, no poema O poeta em Lisboa, me acompanha um fantasma que vela o passo transtornado. E o fantasma seria? A pluma pesada da ironia.
Ironia, sim. Pois na crônica de terça, O domador de oásis, tasquei que Neymar, o camisa 10 da nossa seleção de futebol, teria passado a infância, ou parte dela, na Vila Sônia.
Isso levantou vozes que me acusaram de desconhecer que o Instituto Neymar Jr está instalado no Jardim Glória, e acolhe meninas e meninos do entorno, atingindo direta e indiretamente 10 mil pessoas, do Aeroclube ao Sítio do Campo.
O Instituto tem notável e louvável atuação, sem dúvida.
E por que no Jardim Glória? Ora. Porque foi aí, neste bairro, que morou a família do Neymar. Ora bolas.
A correção, porém, veio de leitores e leitoras, cuja esperteza aguçada traveste-os em Auguste Dupin, aquele detetive criado por Edgar Allan Poe na história A carta roubada.
Mas, ali, o Sêneca em epígrafe é aviso a intransigentes que se apegam à letra do texto sem a lente da argúcia para o sutil, para outros humores. Coitadas pessoas, presas à bile de uma fidelidade factual. Não fica percebido o muro que as separa do fluido do dito com a correnteza que afasta, uma vez que, sendo eco, não tem luz. E o Sêneca epigráfico do Poe diz que nada é tão odioso à sabedoria como a excessiva sagacidade.
Ou seja, amigas e amigos, perderam-se da graça, dada pelo contexto. Afinal, mesmo o sonho que me ocorreu de pousar na crônica, justamente por vir aí, ele não ocorreu coisa nenhuma. Foi invenção, a modo de levar ao sorriso contido quem incapaz do riso desbragado.
É que, de maneira oposta ao citado Dupin, eu penso melhor no claro, pois no escuro minha memória volta e meia me deixa embaraçado pelo complexo do que me escapa da atenção.
Como desconfiança nada diz ao marrento, levo amarelo ao ser pego na banheira por todo Dupin de lupa na mão a rastrear o que faço, até em pensamento. Por falhar como preventor é que sou advertido desses meus carrinhos pela linha de fundo.
Incapaz de amestrar minha memória, esse cão que late para mosca morta, sigo mergulhado no oceano de desinformações?
Pessoal, para agravar minha posição, o nosso craque, ainda estudante da rede pública de Praia Grande, ganhou os Jogos Escolares pela Escola José Júlio Martins Baptista. Escola esta, aliás, que não fica no Glória. E a história com isso? Ouso dizer que nem o Neymar me deu caneta, pois, longe de suar numa quadra, segui cultivando a última flor do Lácio no Tio Baptista.
Ainda daquela crônica: a mãe ofendida por mim como figura ridícula? Sobre o que teria dito a ela, nada tenho a comentar; e quanto à mamãe, digo o mesmo. Porque não as confundo.
Compreendam-me, revoltados leitores e rebeladas leitoras, pela oportunidade de fintá-los com outro António José Forte:
─ Eu passo de bicicleta à velocidade do amor.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de janeiro de 2019.