Maçã
do amor
Na claustrofobia do cotidiano, haja
barulho. A gente ignora o silêncio. Não dá para entender quem não sabe ficar
quieto. E o quê? O mentiroso sempre fala a verdade. É revelador.
Aposto a minha cerveja que a alegria
de escrever que sinto me leva a pensar que tem cara de fruto proibido. A gente
come escondido, olhando de soslaio, mas não para. Há uma série de desculpas na
ponta da língua, bem ensaiadas. Escrevo porque nasci para denunciar as mazelas
do mundo. Escrevo porque já muito cedo descobri que tinha facilidade para a
coisa.
Mas o mundo nada tem a ver com minha
indignação. Menos ainda a coisa. À escrita, pouco se lhe dá minha habilidade.
Ou a minha humildade, pela sinceridade da modéstia. Por certo, e por mim, penso
o ato de escrever como ação da dor na carne. Trabalho as palavras. Construo-me amoral,
anarquista e ateu.
Perfectível, fabrico-me com o que
tenho à mão e ao que me disponho alcançar em pensamento. A existência, que
imagino ao praticá-la, é a expressão do prazer que a gente reprime e estimula, disfarça
e disseca, revela e oculta. Temos razões que a razão sente. Mesmo sem tirar os
olhos do celular.
A função do escritor? Quero a escrita
que não oprime e nem se omite ao apontar quem ocupa o lugar que não lhe cabe. Sou
pela escrita que não silencia a voz do outro nem tira a máscara que bem quer usar. Abro em mim esta clareira: mentira não é a ficção da história que nunca possa
ser contada. Mil contos.
Subscrevo, logo gozo.
Lambuzado, julgo trabalhar as palavras
ao brincar com elas. Se quero adestrados os neurônios? É foda. Pois as ideias
que mais me dão satisfação, ao fim e ao cabo, são aquelas que me levam a
esgotá-las, contrariá-las, nutrindo-me inconformado, a duvidar do que se mostra
de cara, ouvindo no sutil as filigranas.
Mesmo fraco de tanto pelejar,
prossigo. O que me fortalece é que o lugar comum dá por trivial não pensarmos.
O óbvio não desorienta nem perturba. É só fazermos do rosto a máscara da
verdade, e o preconceito leva-nos a aceitarmos a tranquilidade de seguirmos
cuidando da vida. Dia a dia.
Agora, se coloco a lupa sobre o lugar
comum para examinar de bem perto, desmontando sua máquina de sentido, tentando
com isto me testar com quais conhecimentos julgo tratar, ei-lo, o jogo do
prazer. Passo a remontar a ideia com as palavras em outra ordem ou trocando-as.
Será que a diversão não educa?
Num texto de 2012, Anna Veronica
Mautner diz: Aceitar-se com defeitos é o
único jeito de suportar o olhar do outro sem ser aniquilado.
Sim. Vou beber água. A página está no
meio do caminho. O meio leva ao fim. Os fins pedem os meios. E quem se esquece
de ir pelo meio, estanca. Fica pela metade. O texto travado faz alheia a minha vergonha.
É ridículo o incômodo do ridículo que não finjo. Tento me persuadir de que
estou parado, indo.
Mordo a isca. A máscara e o rosto têm valor
de face.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 19 de março de 2019.