domingo, 19 de outubro de 2025

À boca pequena

 

À boca pequena

 

O inferno é o mundo quando o flautista toca. Endiabrados, seguem-no os ratos. O flautista e seus ratos marcham sobre a cidade, e janelas são cerradas, cortinas, fechadas, e abrem-se bocas.

Quem não é rato nem flautista dispara vociferar. Quem não mija nos tamancos debaixo da cama, não aninha a prole em maçaroca de jornal, não se abisma pelo frenesi impulsionar que roa sacos de ração, enfim, não sendo rato para enfrentar gato, é gente que se orgulha de ser bom pai, boa mãe e flautista mais fleumático, como o é o Ian Anderson, que povoa a Terra com salmões, não com fantasmas de kilt.

Como minh’alma tem pena de quem come caviar quando é hora de praguejar por mais torradinha a quem serve torradinha, no embalo das doze badaladas, fazendo coro ao sino, as garras da gula coçam-me: é meio-dia, é hora de abrir-me ao prato feito, é o momento de ser prático: embora seja boa coisa para o juízo seguir no leme, é para não adernar na décima terceira bimbalhada que eu almoçar é bom mister.

Porque a igreja badala ser meio-dia, porque as badaladas acordam-me, vou à mesa. Minha barriga respeita o que convém ser respeitado, é chegada a hora de saciar-me à vontade. Chegado o instante, a pança roncará, escandalizará. Vexatório, o barulhão é arma do corpo a favor da disciplina, da reverência ao imprescindível, pois, inexoravelmente, estou cativo da melodia das doze horas.

Tilinta em mim o desejo de serenar-me, já que me quero senhor na vida a que estou atrelado. Continuarei na rotina, almoçarei embora seja meio-dia, darei a mim a escolha de abraçar o rotineiro, já que o mundo mal me toleraria rebelde.

Rebeldia... Veja só, rebeldia...

Almoço todo dia. Venho almoçar neste restaurante faz anos. Sento-me à mesma mesa desde que a tomei pra mim, há trinta anos.

É certo, eu pouparia se cozinhasse. Cozinharia melhor se o fizesse todos os dias. É vero, não haveria desperdício de comida se eu mesmo preparasse minhas refeições. Quiçá comesse salmão com cenoura, ou batatas, isso se domasse a chama do fogão. Não chamuscando meus pelos, assim menos fátuo, eu toparia ter amigos à mesa. Sabendo-me menos bruto, me tornaria um sujeito agradável, de convivência menos problemática, quem sabe eu virasse um confrade engraçado, bom nas piadas, e sendo irônico, ótimo.

Entretanto, sentado de costas pro salão, eu almoço sozinho.

Às quartas, encaro uma feijoada. Não, não, aos sábados, não quero de novo o que me sacia na quarta, porque as minhas tripas têm espírito do cão, infernizando-me com aquela queimação do caramba.

Hoje, ainda que seja outra quarta-feira das mais ordinárias, não vou de feijoada nem de pargo na telha, topo encarar uma lasanha das mais tradicionais, com molho bolonhesa, muito queijo e muito presunto, pois estou bastante afeito a aquiescer que Jethro Tull não tocava flauta nem arava acres em Skye.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de outubro de 2025.

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