O
inferno é o mundo quando o flautista toca. Endiabrados, seguem-no os ratos. O
flautista e seus ratos marcham sobre a cidade, e janelas são cerradas, cortinas,
fechadas, e abrem-se bocas.
Quem
não é rato nem flautista dispara vociferar. Quem não mija nos tamancos debaixo
da cama, não aninha a prole em maçaroca de jornal, não se abisma pelo frenesi impulsionar
que roa sacos de ração, enfim, não sendo rato para enfrentar gato, é gente que se
orgulha de ser bom pai, boa mãe e flautista mais fleumático, como o é o Ian
Anderson, que povoa a Terra com salmões, não com fantasmas de kilt.
Como
minh’alma tem pena de quem come caviar quando é hora de praguejar por mais
torradinha a quem serve torradinha, no embalo das doze badaladas, fazendo coro
ao sino, as garras da gula coçam-me: é meio-dia, é hora de abrir-me ao prato
feito, é o momento de ser prático: embora seja boa coisa para o juízo seguir no
leme, é para não adernar na décima terceira bimbalhada que eu almoçar é bom
mister.
Porque
a igreja badala ser meio-dia, porque as badaladas acordam-me, vou à mesa. Minha
barriga respeita o que convém ser respeitado, é chegada a hora de saciar-me à
vontade. Chegado o instante, a pança roncará, escandalizará. Vexatório, o
barulhão é arma do corpo a favor da disciplina, da reverência ao imprescindível,
pois, inexoravelmente, estou cativo da melodia das doze horas.
Tilinta
em mim o desejo de serenar-me, já que me quero senhor na vida a que estou atrelado.
Continuarei na rotina, almoçarei embora seja meio-dia, darei a mim a escolha de
abraçar o rotineiro, já que o mundo mal me toleraria rebelde.
Rebeldia...
Veja só, rebeldia...
Almoço
todo dia. Venho almoçar neste restaurante faz anos. Sento-me à mesma mesa desde
que a tomei pra mim, há trinta anos.
É
certo, eu pouparia se cozinhasse. Cozinharia melhor se o fizesse todos os dias.
É vero, não haveria desperdício de comida se eu mesmo preparasse minhas
refeições. Quiçá comesse salmão com cenoura, ou batatas, isso se domasse a
chama do fogão. Não chamuscando meus pelos, assim menos fátuo, eu toparia ter
amigos à mesa. Sabendo-me menos bruto, me tornaria um sujeito agradável, de
convivência menos problemática, quem sabe eu virasse um confrade engraçado, bom
nas piadas, e sendo irônico, ótimo.
Entretanto,
sentado de costas pro salão, eu almoço sozinho.
Às
quartas, encaro uma feijoada. Não, não, aos sábados, não quero de novo o que me
sacia na quarta, porque as minhas tripas têm espírito do cão, infernizando-me com
aquela queimação do caramba.
Hoje,
ainda que seja outra quarta-feira das mais ordinárias, não vou de feijoada nem
de pargo na telha, topo encarar uma lasanha das mais tradicionais, com molho
bolonhesa, muito queijo e muito presunto, pois estou bastante afeito a aquiescer
que Jethro Tull não tocava flauta nem arava acres em Skye.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 19 de outubro de 2025.
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