Digo
que era mais fácil viver nos meus dias de garoto. Compreendo, e a risada vem
fácil, gostosa. Rio de mim porque não engana ninguém, esse riso. Por não iludir,
não trapaceio. Pela memória puxar o fio como bem a apraz, a divertir-me, o riso
vem dócil, sem afrontamentos, afável a gabolices de sexagenário. Sabedor que
tais palavras não são iguais, acato que ilusão e trapaça têm significados equivalentes.
Viro
de lado, fico de bruços, viro de costas, mas a cachola não pega no sono. Não
acho graça em não lograr dormir. Se, ao menos, pegasse do lápis, haveria
registro sobre o qual me debruçar.
Se
não falei, falo agora, falo que a folha aceitaria o que o lápis diria e eu me quedaria
escrito pelas palavras fáceis, gostosas, exibidas.
E
de costas, penso; de bruços, penso; de lado, não paro de pensar. Penso que não
há desgraça que me faça dormir, e já não rio. Se posso, não quero. Já,
portanto, não rio.
Incomoda
esta conversa que me entretém, pois, em vez de dormir, conversamos. Incomoda-me,
já que amanhã não guardarei lembrança do papo do garoto com o velho. Por tirar
de mim o sono, a dar-me mais tempo em vigília, o incômodo aumenta.
Muito
me incomodo, sinto o minuto seguinte. Dou-me razão ao ficar incomodado, pois o
minuto seguinte soma-se ao minuto seguinte. Sinto que deveria ser mais cordial.
Seria legal ser um sujeito exibido, um cara legal que não mede o poder que tem
quando as palavras dizem o que parece mesmo ser o que este cara boa gente está sentindo.
Todavia, muito me aperto, uma vez que, pelo efeito produzido pelo que digo, me divirto.
Já que é divertido me atazanar, eu perco o sono. Brinco comigo, e o coração
pulsa feliz, alegre, dispara, pois é brincando que eu volto a sorrir. Sorrindo,
percebo, me ouço, sinto um tamanho contentamento, que eu volto a rir, rindo
consciente, tão racional, muito bobo.
O
bobo acorda. O garoto gosta deste bobo acordado. O vovô adora o bobo que finge
ser garoto. Sem truque, a gente se entenda. Havendo compreensão, cabeça e
coração, fechemos este acordo.
Garoto,
pelo gosto de querer o prazer de dormir, durma. Meu chapa, não banque o senil.
Faça a gentileza, colabore. Já é hora, vamos! Seja gentil, tenha juízo, pare de
teimar. Queira dormir, e durma.
Ouça,
nem os cães estão latindo. Preste atenção, os gatos já foram dormir. Sossegue,
nenhum gatuno pula o muro. Nem a vizinhança pula da cama por causa de algum bêbado
desafinado.
Vá
dormir, garoto. Não se levante e não vá urinar, maroto. Urinando, não mije no
chão. Mijando fora do vaso, limpe na hora. Garoto, amanhã será tarde demais.
Maroto, só o aroma de café passado na hora é que consegue disfarçar o fedor da urina.
Para
logo adormecer...
Sossegue
seu coração, durma.
Tenha
dó, sinta pena, durma.
Cantarole
esta canção, durma.
Sinta
pena, tenha dó, durma.
Durma,
durma, durma, sim.
Durma,
durma, durma, sim.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 09 de outubro de 2025.
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