quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Canção de ninar

 

Canção de ninar

 

Digo que era mais fácil viver nos meus dias de garoto. Compreendo, e a risada vem fácil, gostosa. Rio de mim porque não engana ninguém, esse riso. Por não iludir, não trapaceio. Pela memória puxar o fio como bem a apraz, a divertir-me, o riso vem dócil, sem afrontamentos, afável a gabolices de sexagenário. Sabedor que tais palavras não são iguais, acato que ilusão e trapaça têm significados equivalentes.

Viro de lado, fico de bruços, viro de costas, mas a cachola não pega no sono. Não acho graça em não lograr dormir. Se, ao menos, pegasse do lápis, haveria registro sobre o qual me debruçar.

Se não falei, falo agora, falo que a folha aceitaria o que o lápis diria e eu me quedaria escrito pelas palavras fáceis, gostosas, exibidas.

E de costas, penso; de bruços, penso; de lado, não paro de pensar. Penso que não há desgraça que me faça dormir, e já não rio. Se posso, não quero. Já, portanto, não rio.

Incomoda esta conversa que me entretém, pois, em vez de dormir, conversamos. Incomoda-me, já que amanhã não guardarei lembrança do papo do garoto com o velho. Por tirar de mim o sono, a dar-me mais tempo em vigília, o incômodo aumenta.

Muito me incomodo, sinto o minuto seguinte. Dou-me razão ao ficar incomodado, pois o minuto seguinte soma-se ao minuto seguinte. Sinto que deveria ser mais cordial. Seria legal ser um sujeito exibido, um cara legal que não mede o poder que tem quando as palavras dizem o que parece mesmo ser o que este cara boa gente está sentindo. Todavia, muito me aperto, uma vez que, pelo efeito produzido pelo que digo, me divirto. Já que é divertido me atazanar, eu perco o sono. Brinco comigo, e o coração pulsa feliz, alegre, dispara, pois é brincando que eu volto a sorrir. Sorrindo, percebo, me ouço, sinto um tamanho contentamento, que eu volto a rir, rindo consciente, tão racional, muito bobo.

O bobo acorda. O garoto gosta deste bobo acordado. O vovô adora o bobo que finge ser garoto. Sem truque, a gente se entenda. Havendo compreensão, cabeça e coração, fechemos este acordo.

Garoto, pelo gosto de querer o prazer de dormir, durma. Meu chapa, não banque o senil. Faça a gentileza, colabore. Já é hora, vamos! Seja gentil, tenha juízo, pare de teimar. Queira dormir, e durma.

Ouça, nem os cães estão latindo. Preste atenção, os gatos já foram dormir. Sossegue, nenhum gatuno pula o muro. Nem a vizinhança pula da cama por causa de algum bêbado desafinado.

Vá dormir, garoto. Não se levante e não vá urinar, maroto. Urinando, não mije no chão. Mijando fora do vaso, limpe na hora. Garoto, amanhã será tarde demais. Maroto, só o aroma de café passado na hora é que consegue disfarçar o fedor da urina.

Para logo adormecer...

Sossegue seu coração, durma.

Tenha dó, sinta pena, durma.

Cantarole esta canção, durma.

Sinta pena, tenha dó, durma.

Durma, durma, durma, sim.

Durma, durma, durma, sim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de outubro de 2025.

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