domingo, 26 de outubro de 2025

Queimando devagar

 

Queimando devagar

 

Vem vindo uma moça. Bem vejo que ela fala ao telefone, nem assim atravesso para o lado de lá. Fico na minha, que ela passe por mim sem que eu me atreva a desviar os olhos.

Apesar de temer que a moça possa passar para o lado de lá, nada me demove de ignorá-la, pois ela segue vindo, vem falando ao celular, vem porque precisa vir, pois está indo trabalhar.

Não paro de pensar que eu possa conhecê-la. Por conhecê-la, terei de cumprimentá-la. Penso, sem titubear, que cabe a mim ser educado, portanto eu serei e dir-lhe-ei: bom-dia!

Ao notar-se observada, embora meu olhar talvez a surpreenda, ela vem sem apertar o passo. Aproxima-se. Traz engruvinhada a sua boca. Mesmo contrariada, já que eu continuo a encará-la, ela não interrompe a conversa, e passa.

Ela vai em frente; eu engulo a minha boa educação.

Outra moça vem vindo. Ela também fala ao celular. Ela fica na dela, vem calma, falando baixo, sorrindo de quando em quando.

Sigo em frente. Outra vez não baixo os olhos. Talvez eu saiba quem ela é. Já que a conheço, ter-lhe-ei de dizer: bom-dia!

Ao notar que eu a observo, embora seu olhar seja de gente irritada, ela não se apressa. Embora faça bico, certamente porque não abaixo os olhos, ela continua papeando, e toca adiante.

Desta vez eu não resisto, viro-me.

Assim que me vê parado a olhá-la, ela para. Com metros entre nós, pouco temerosa de que será assaltada, ela fica onde está.

Sorrio. É só isso? Não menos do que isso, sorrio. Não vai trabalhar? Então, vá! Para o desconforto não crescer, volto a andar.

Sorrio, e por que me calha isso de ser conveniente sorrir?

Sorrio, pois vou em frente. E vou indo sem olhar para trás.

É claro! Um homem educado deve sorrir. O sorriso desarma? Pode ser que sim. Depende da mensagem que o corpo todo comunica, e não apenas a boca. Sem esperar que o desculpem, é preciso sorrir.

É óbvio! A pessoa precisa se pôr no lugar da outra para sentir o que um sorriso desencadeia. É melhor achar que o sorriso é uma coisa boa, que ele diz o quanto se é da paz.

Evidentemente, faço o que parece apropriado: quando percebo que esperam de mim que sorria, não decepciono, e sorrio.

Outra vez, vem vindo uma moça. Desta vez, entretanto, ela não fala ao telefone. Desta vez, a moça vem apressada.

Novamente, procuro-a. Quero saber o que dizem os seus olhos. De novo, renovo-me na esperança de vislumbrar o pouco que seja do que ela, provavelmente, nem perceba do quanto revela de si.

Novamente, há desconforto. Agora, todavia, o mal-estar é meu, pois a moça vem sorrindo. Percebo que vem disposta a cumprimentar.

Que estranho. Há confiança, alegria de viver o dia, uma vontade de doar a boa graça que é estar feliz.

Como é, moça? Ser encarada não a incomoda? Que fortaleza será essa para torná-la tão leve? Será que leveza encabula tanto? Sorrindo, deseja que se tenha um dia bom?

Agora, sei bem que não o terei.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de outubro de 2025.

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