Vem
vindo uma moça. Bem vejo que ela fala ao telefone, nem assim atravesso para o
lado de lá. Fico na minha, que ela passe por mim sem que eu me atreva a desviar
os olhos.
Apesar
de temer que a moça possa passar para o lado de lá, nada me demove de ignorá-la, pois ela segue vindo, vem falando ao celular, vem porque precisa
vir, pois está indo trabalhar.
Não
paro de pensar que eu possa conhecê-la. Por conhecê-la, terei de
cumprimentá-la. Penso, sem titubear, que cabe a mim ser educado, portanto eu
serei e dir-lhe-ei: bom-dia!
Ao
notar-se observada, embora meu olhar talvez a surpreenda, ela vem sem apertar o
passo. Aproxima-se. Traz engruvinhada a sua boca. Mesmo contrariada, já que eu
continuo a encará-la, ela não interrompe a conversa, e passa.
Ela
vai em frente; eu engulo a minha boa educação.
Outra
moça vem vindo. Ela também fala ao celular. Ela fica na dela, vem calma,
falando baixo, sorrindo de quando em quando.
Sigo
em frente. Outra vez não baixo os olhos. Talvez eu saiba quem ela é. Já que a
conheço, ter-lhe-ei de dizer: bom-dia!
Ao
notar que eu a observo, embora seu olhar seja de gente irritada, ela não se
apressa. Embora faça bico, certamente porque não abaixo os olhos, ela continua
papeando, e toca adiante.
Desta
vez eu não resisto, viro-me.
Assim
que me vê parado a olhá-la, ela para. Com metros entre nós, pouco temerosa de que
será assaltada, ela fica onde está.
Sorrio.
É só isso? Não menos do que isso, sorrio. Não vai trabalhar? Então, vá! Para o
desconforto não crescer, volto a andar.
Sorrio,
e por que me calha isso de ser conveniente sorrir?
Sorrio,
pois vou em frente. E vou indo sem olhar para trás.
É
claro! Um homem educado deve sorrir. O sorriso desarma? Pode ser que sim.
Depende da mensagem que o corpo todo comunica, e não apenas a boca. Sem esperar
que o desculpem, é preciso sorrir.
É
óbvio! A pessoa precisa se pôr no lugar da outra para sentir o que um sorriso desencadeia.
É melhor achar que o sorriso é uma coisa boa, que ele diz o quanto se é da paz.
Evidentemente,
faço o que parece apropriado: quando percebo que esperam de mim que sorria, não
decepciono, e sorrio.
Outra
vez, vem vindo uma moça. Desta vez, entretanto, ela não fala ao telefone. Desta
vez, a moça vem apressada.
Novamente,
procuro-a. Quero saber o que dizem os seus olhos. De novo, renovo-me na
esperança de vislumbrar o pouco que seja do que ela, provavelmente, nem perceba
do quanto revela de si.
Novamente,
há desconforto. Agora, todavia, o mal-estar é meu, pois a moça vem sorrindo.
Percebo que vem disposta a cumprimentar.
Que
estranho. Há confiança, alegria de viver o dia, uma vontade de doar a boa graça
que é estar feliz.
Como
é, moça? Ser encarada não a incomoda? Que fortaleza será essa para torná-la tão
leve? Será que leveza encabula tanto? Sorrindo, deseja que se tenha um dia bom?
Agora,
sei bem que não o terei.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 26 de outubro de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário