Só
pode ser brincadeira. Possivelmente, tal brincadeira precisa ser realizada com
displicência, considerando-a um desafio cuja superação acarrete um prêmio,
resulte num mimo.
Boa!
Que o troféu seja uma casquinha. De chocolate ou baunilha? Que seja mesclada,
oba!
Embora
conviva com muitas pessoas que se recusam a andar nas nuvens, e que lambem,
mordem e chupam porque lhes é insuportável perder o sorvete, ele derretendo, não
conheço pesquisas que apontem, nervosinho, que a recompensa pela dedicação venha
a ser outra coisa que não a casquinha, ou seria muitíssimo estapafúrdio lamber,
morder e chupar um troço de plástico pintado de bronze.
Acho
de pensar nas lambidas, e não as imagino, sinto-as, pois isso estimula, faz acreditar
que, ao fim e ao cabo, vencerei. E isso de querer vencer é o que fortalece. E não
hei de entregar-me, portanto me delicia achar que, pela alma confortada, a
casquinha é o meu sofá.
Tenho
achado tanta coisa que até me perco, menos o sofá, porque, não mais que de
repente, paro e escarafuncho ꟷ é besteira muito das miseráveis tomar o sorvete feito
parangolé, em que posso me abrigar na sua luz sem muito agito, pois, instalado
confortavelmente, embora eu sue enquanto sonho, faço a tevê ouvir que devo me movimentar
ou derreterei, igualzinho a, tão similar àquela casquinha.
O
meu esqueleto que fique na sua, sem que precise compreender as razões para estar
deitado, relaxado, permitindo à cachola estancar-se, fixada nas lambidas, já o
troféu derretendo.
Não
cisco ao redor de um cisco, examino a casquinha, pois o troféu, multifacetado, possibilita
que seja vivenciado que nem sorvete.
Justamente
porque a boca lambuzada provoca o riso, quero brincar de ensimesmamento. Com prazer,
ensimesmo-me.
Isso
bem que podia contribuir para meu autoconhecimento, mas, no gozo das lambidas, sinto
o que achava anestesiado.
Tenho
de volta muito do que dei por perdido, seja a lágrima pelo gol que demora a
sair, seja o muxoxo quando nos abraçávamos, seja que tomei sozinho o sorvete
que compartilharíamos no domingo.
Mesmo
o domingo adorando confissões, sei que não minto.
Embora,
meu amor, você me perdoe quando a mentira não me tira da fila, permaneço
calado, não jogo maldições, sou o sofá que não tem boca. A três metros da
máquina, posso invejar a alegria de quem passa a língua no sorvete. Por muito
querê-la, dê-me o prazer de lambê-la, ó minha doce casquinha.
Tenho
me indignado por outras circunstâncias, não pela fila que não anda conforme
anseio, mas minha indignação é com as formigas, pois a roseira nem floriu e, pela
tara das saúvas, sobreveio o inverno.
Isso
não pode estar ocorrendo, pois, na inércia do sono, sonho, suo, sonho que as
saúvas têm horror a chocolate misturado à baunilha.
Será
loucura?
Loucura,
cético, será quando fabricarem sofá comestível.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 16 de outubro de 2025.
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