quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Achados perdidos

 

Achados perdidos

 

Só pode ser brincadeira. Possivelmente, tal brincadeira precisa ser realizada com displicência, considerando-a um desafio cuja superação acarrete um prêmio, resulte num mimo.

Boa! Que o troféu seja uma casquinha. De chocolate ou baunilha? Que seja mesclada, oba!

Embora conviva com muitas pessoas que se recusam a andar nas nuvens, e que lambem, mordem e chupam porque lhes é insuportável perder o sorvete, ele derretendo, não conheço pesquisas que apontem, nervosinho, que a recompensa pela dedicação venha a ser outra coisa que não a casquinha, ou seria muitíssimo estapafúrdio lamber, morder e chupar um troço de plástico pintado de bronze.

Acho de pensar nas lambidas, e não as imagino, sinto-as, pois isso estimula, faz acreditar que, ao fim e ao cabo, vencerei. E isso de querer vencer é o que fortalece. E não hei de entregar-me, portanto me delicia achar que, pela alma confortada, a casquinha é o meu sofá.

Tenho achado tanta coisa que até me perco, menos o sofá, porque, não mais que de repente, paro e escarafuncho ꟷ é besteira muito das miseráveis tomar o sorvete feito parangolé, em que posso me abrigar na sua luz sem muito agito, pois, instalado confortavelmente, embora eu sue enquanto sonho, faço a tevê ouvir que devo me movimentar ou derreterei, igualzinho a, tão similar àquela casquinha.

O meu esqueleto que fique na sua, sem que precise compreender as razões para estar deitado, relaxado, permitindo à cachola estancar-se, fixada nas lambidas, já o troféu derretendo.

Não cisco ao redor de um cisco, examino a casquinha, pois o troféu, multifacetado, possibilita que seja vivenciado que nem sorvete.

Justamente porque a boca lambuzada provoca o riso, quero brincar de ensimesmamento. Com prazer, ensimesmo-me.

Isso bem que podia contribuir para meu autoconhecimento, mas, no gozo das lambidas, sinto o que achava anestesiado.

Tenho de volta muito do que dei por perdido, seja a lágrima pelo gol que demora a sair, seja o muxoxo quando nos abraçávamos, seja que tomei sozinho o sorvete que compartilharíamos no domingo.

Mesmo o domingo adorando confissões, sei que não minto.

Embora, meu amor, você me perdoe quando a mentira não me tira da fila, permaneço calado, não jogo maldições, sou o sofá que não tem boca. A três metros da máquina, posso invejar a alegria de quem passa a língua no sorvete. Por muito querê-la, dê-me o prazer de lambê-la, ó minha doce casquinha.

Tenho me indignado por outras circunstâncias, não pela fila que não anda conforme anseio, mas minha indignação é com as formigas, pois a roseira nem floriu e, pela tara das saúvas, sobreveio o inverno.

Isso não pode estar ocorrendo, pois, na inércia do sono, sonho, suo, sonho que as saúvas têm horror a chocolate misturado à baunilha.

Será loucura?

Loucura, cético, será quando fabricarem sofá comestível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de outubro de 2025.


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