Seria
bom que estivesse chovendo; poderia não ser domingo; seria melhor que os olhos
dessem com o marcador de página caído ao lado da cama; o livro, contudo, voltará
à estante porque a leitura chegou ao fim e a manhã, todavia, é outra manhã ensolarada
de domingo.
Há
a opção de telefonar, porque todo mundo gosta de telefonemas. Todo mundo gosta
que telefonem ao meio-dia. E ele tem amigos, bons amigos. Entre os amigos, tem
os mais camaradas que o atendem ainda que ligue ao meio-dia, e todo mundo gosta
de falar ao telefone quando é domingo. E nele, veja só, tem essa comichão, quer
ligar. Assim a boa gente que tanto o estima e tanto o compreende, ainda que
resmungue, escarneça, tripudie e revolte-se, eles o conhecem bem, porque sempre
se há de falar com os amigos, mesmo sem necessidade. E todo mundo ama que os
amigos telefonem, mesmo ao meio-dia.
O
primeiro que o atende diz-se ocupado. Não sairá de casa, porque o domingo vai
bem. Honrando o posto que ocupa no rol dos amigos, o de ser o mais chato, ele está
contente porque acordou com o estômago em ordem. Ele conta que foi cedo comer
pastel na feira, e, pelo horário, não encontrou conhecido algum. Então comeu
pastéis, bebeu caldo de cana, escolheu limões, laranjas, mamão papaia, peras e
maçãs, só não comprou uma penca porque a banana-prata não estava bonita, estava
feia e cara, pois. Pela promoção de levar dois pagando um, deu como imperdível o
negócio dos óculos, que o punham feito agente em missão secreta; para o
marreteiro, as lentes espelhadas o faziam um cupincha do Corleone, fera que encara
carcamanos, dá tiro de Beretta e, por se enamorar da Cicciolina, até tromba a
sua Lambretta.
O
que o fulano não fala é que não pretende largar dos óculos, pois o banho de sol
fá-lo sentir-se sereno, sossegado, já que não é tapado para saltar o domingo. Uma
vez que o bem-estar não há de desaminá-lo, pô-lo para baixo, fazê-lo triste, a
persuadi-lo de recriminar-se, já que não tem que se culpar ou inocentar-se pelo
dia ensolarado, ele não há de responsabilizar-se pelo aquecimento do planeta, até
porque, amigo, estes óculos são o bicho, vêm no estojo do jacaré original.
O
segundo pede que apareça, pois é bem-vindo. Com lugar à mesa, diz que ele ligou
na hora certa porque a família todinha já está à mesa; com a sogra radiante, feliz,
ela não vê a hora de comer sua lasanha de rosbife com molho quatro queijos. Ele
aproveite que é domingo e venha voando, não despreze o domingo vendo TV.
Então,
toca o telefone.
O
terceiro é justamente o beltrano que telefona pra que todo mundo goste que ele
telefone. Ele diz que comerá um cachorro-quente. E todo mundo fica satisfeito
com o cachorro da esquina. Todo mundo merece ficar longe de gente que fica agoniando
por anistia, dosimetria, vive pra amofinar pela defesa autêntica da autocracia, pra nunca sair disso.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 02 de outubro de 2025.
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