quinta-feira, 2 de outubro de 2025

E não se fale de outra coisa

 

E não se fale de outra coisa

 

Seria bom que estivesse chovendo; poderia não ser domingo; seria melhor que os olhos dessem com o marcador de página caído ao lado da cama; o livro, contudo, voltará à estante porque a leitura chegou ao fim e a manhã, todavia, é outra manhã ensolarada de domingo.

Há a opção de telefonar, porque todo mundo gosta de telefonemas. Todo mundo gosta que telefonem ao meio-dia. E ele tem amigos, bons amigos. Entre os amigos, tem os mais camaradas que o atendem ainda que ligue ao meio-dia, e todo mundo gosta de falar ao telefone quando é domingo. E nele, veja só, tem essa comichão, quer ligar. Assim a boa gente que tanto o estima e tanto o compreende, ainda que resmungue, escarneça, tripudie e revolte-se, eles o conhecem bem, porque sempre se há de falar com os amigos, mesmo sem necessidade. E todo mundo ama que os amigos telefonem, mesmo ao meio-dia.

O primeiro que o atende diz-se ocupado. Não sairá de casa, porque o domingo vai bem. Honrando o posto que ocupa no rol dos amigos, o de ser o mais chato, ele está contente porque acordou com o estômago em ordem. Ele conta que foi cedo comer pastel na feira, e, pelo horário, não encontrou conhecido algum. Então comeu pastéis, bebeu caldo de cana, escolheu limões, laranjas, mamão papaia, peras e maçãs, só não comprou uma penca porque a banana-prata não estava bonita, estava feia e cara, pois. Pela promoção de levar dois pagando um, deu como imperdível o negócio dos óculos, que o punham feito agente em missão secreta; para o marreteiro, as lentes espelhadas o faziam um cupincha do Corleone, fera que encara carcamanos, dá tiro de Beretta e, por se enamorar da Cicciolina, até tromba a sua Lambretta.

O que o fulano não fala é que não pretende largar dos óculos, pois o banho de sol fá-lo sentir-se sereno, sossegado, já que não é tapado para saltar o domingo. Uma vez que o bem-estar não há de desaminá-lo, pô-lo para baixo, fazê-lo triste, a persuadi-lo de recriminar-se, já que não tem que se culpar ou inocentar-se pelo dia ensolarado, ele não há de responsabilizar-se pelo aquecimento do planeta, até porque, amigo, estes óculos são o bicho, vêm no estojo do jacaré original.

O segundo pede que apareça, pois é bem-vindo. Com lugar à mesa, diz que ele ligou na hora certa porque a família todinha já está à mesa; com a sogra radiante, feliz, ela não vê a hora de comer sua lasanha de rosbife com molho quatro queijos. Ele aproveite que é domingo e venha voando, não despreze o domingo vendo TV.

Então, toca o telefone.

O terceiro é justamente o beltrano que telefona pra que todo mundo goste que ele telefone. Ele diz que comerá um cachorro-quente. E todo mundo fica satisfeito com o cachorro da esquina. Todo mundo merece ficar longe de gente que fica agoniando por anistia, dosimetria, vive pra amofinar pela defesa autêntica da autocracia, pra nunca sair disso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de outubro de 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário