terça-feira, 7 de outubro de 2025

Foi coincidência

 

Foi coincidência

 

Uma vez, no bar, foi quando entrou aquela gente, isso me fez ver a minha condição, que estou sem a minha família.

Pelo tamanho daquela falta, virei a cachaça.

Quando aquelas pessoas sentaram-se do meu lado, foi aí que veio aquela sensação, não foi uma dor que subiu pela garganta. Foi quando a boca secou, senti que tinha de tomar outra postura.

Então, perdi a certeza de que levava a vida que eu precisava viver, uma vez que minha mulher e os meus filhos continuavam longe, viviam na casa que tinha sido dos meus pais, continuavam vivendo sem mim, seguiam naquela vida, vi que existiam, assim, tão distantes.

Precisei virar a cachaça, porque as quatro cadeiras da mesa ao lado foram ocupadas. Tive que virar a dose quando senti o que a respiração queria dizer. O ar rarefeito apertava no peito, dizia à cabeça que eu me achava só, pois, então, eu me achei só.

Assim, o ar que secou a garganta precisava de ser lavado, tinha de ser banhado de bem-estar, por ser realmente necessário. Eu percebi o que abalava, qual substância me dava fé, aquilo era piedade.

De quem me compadecia era de mim, daquele que eu fui.

Fui feliz. Fui alguém que podia ser apresentado como um cara feliz. E fui quem tinha mulher e filhos, que sentavam onde precisavam estar, comigo. Fui quem sabia ser por achar que precisava ser.

As pessoas sentadas não viram o que não precisavam ver, mas eu vi claramente que a minha gente deve ter saudades, que ela devia ter as saudades que me levavam a beber cachaça.

Porque a cachaça avivava a brasa, pedi outra dose. E o fogo voltou a crepitar os galhos mortos da minha condição. Tive que lamentar, tive de sentir. Eu quis, precisei, tinha mesmo de ficar só, porque eu deveria, mesmo, ter trazido a minha mulher e os meus filhos.

Com a mente guiando o coração pela piedade, deu-se o rebuliço, e policiais chegaram com os engravatados, que eram confiantes, firmes, ríspidos, falando com a autoridade da qual estavam imbuídos.

E ficou esclarecido que o homem não era o pai, a mulher não era a mãe, porque as crianças não eram filhos daqueles bandidos, daqueles criminosos, porque o sequestro era o crime que enquadrava o homem e a mulher na mesma condição, que eles eram ladrões de criança.

A consciência, então, gostaria de mais outra cachacinha?

Por mim, eu virei, eu fiz bem, pois reagi como achei justo que devia ter reagido, tomando outra cachaça.

Para o fogo subir pelas tripas, para que a solidão não anestesiasse a minha pessoa, para não me achar um frouxo, um palerma, mais outro sem empolgação, perdoem, pois eu virei outra.

Aliás, eu não tinha de me preocupar com os olhares, eu bebi a tarde toda. E bebi o tanto que eu quis, o quanto pude, o quanto aguentei.

Dessa vez, o porre levou-me à porta do restaurante cujos garçons não tinham como não seguirem servindo enquanto, mesmo sem enfiar o dedo na goela, eu vomitava.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de outubro de 2025.

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