quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Tudo a seu tempo

 

Tudo a seu tempo

 

Entre amigos e camaradas, a conversa indo, a conversa seguindo, nada a mais, nada a menos, o papo que agrada, agrega, faz sorrir, faz rir, vêm chistes, vão anedotas, é muito harmonioso, com petroquímicas a regerem mui bem-venturosas almas, propensas ao inteligenticialismo dialógico, posto que, sempre tão infinitos até onde o olho vá alcançar, nunca haveremos de tolerar ser rebaixados a oceânicos, por sermos, evidentemente, oceano.

O problema é fazer água quando tanto se espera sermos racionais, secos por escassez de sentimentalismos e culturalmente históricos por atermo-nos ao dia, atentarmo-nos ao pão de hoje, e nos ansiarmos que os biscoitos saiam do forno agora.

Entretanto, também temos braços, as nossas mãos abrem garrafas, todavia minha boca recusa biritas, assim, por mais simpático que seja, quero-me afastado até mesmo de um copinho de cerveja.

Quanto custam 600 ml de uma pilsen?

Quando o real virou realidade, tais 600 ml valiam R$ 1,00.

Eram outros tempos. Sem dúvida, foram. Irrefutavelmente, ficamos velhos que nem bebemos. Atualmente, envelhecemos vagarosamente. Muitíssimo lentos. Embora tenhamos cinquenta reais para pão e água, andamos desacelerados, tanto somos frouxos das pernas que nossos pulmões tossem musgo, expelem hera, cobriríamos muros com o que ejetamos. Por hoje, apressaríamos regurgitar os pensamentos. Eu juro, pela água barrenta da torneira e por um real que lacre a minha boca, o meu bafo enjoativo quer ansiosamente ser somente nauseabundo.

Outrora, aos doze anos, beijei até dar câimbra na língua; aos seis, molhar os lábios com uísque, porém, embebedou-me de pronto. Assim, a saliva quente aos vinte e dois pedia chope, outro chope, ainda outro, assim a saliva soube-se a cinquenta reais, já evaporados.

Por hora, bem pior, tenho amigos a quem digo o quanto estou pior, carente de abraços, apertos de mão e beijos que façam a língua doer, ter câimbras, façam-me salivar com abundância, posto que me desejo abundantemente valoroso, já a querer-me tão valioso.

Todavia, é preciso ter valor para ser valorizado?

Ontem, depois que almocei, tão logo me estiquei no sofá, tive prazer ao ouvir o telefone, mas o que me fez melhor foi tê-lo deixado tocar.

Achei de permanecer deitado, ocioso dizer que cabia a ignorância, que me dava por satisfeito em não saber quem me ligava.

Assim, amigo, sequer pensei na realidade de uma pelada.

Camarada, aprendi a amarrar sapato quando nem sapato eu tinha, já que eu batia bola de kichute. Por me permitir sinceridade, eu achava que correr atrás da bola era jogar que nem craque.

Então, meu irmão, embora admissível passar perrengue ao amarrar kichute usando apenas uma das mãos, pergunte-se:

ꟷ Quanto custa para cunhar um real?

Antão, pergunta o anão:

ꟷ Quanto é aprimorada a memória por um real de samário?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de outubro de 2025.


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