terça-feira, 28 de outubro de 2025

O escracho das coisas

 

O escracho das coisas

 

Embora não creia que existam, as coincidências existem.

E sobre isso, sobre essa força do invisível a recauchutar-se por obra da sutileza das pessoas, não sei muito o que dizer.

O pouco que posso dizer é que me fio nos relatos de terceiros, pois estes não se vexam do que dizem ou, uma vez vexados, anseiam ficar sem puxão de orelha quando adicionam algum detalhe, porquanto isso, tal contribuiçãozinha que, vividamente, tomam por graciosa, é o que os agita, e alegra.

Agirei feito terceiro ao excluir-me do que conto? Porque me afianço imparcial, saber-me-ei imbuído da alegria terçã?

Alegramo-nos a toda vez que condimentamos, a nosso gosto, o que poderia ser narrado com isenção. Ainda que saibamos que poderíamos atuar com parcimoniosa exoneração, o ego da gente esbalda-se ao ver a cara de quem a nós nos assiste.

É pela conquista de atenção que a nossa pessoa se envaidece. Ela, então, põe-nos a contar do jeito que nos paparique. Assim, ela é quem domina, cativa e concede à audiência que usufrua dessa graça, que é a de voluntariar-se ao papel de plateia.

Aplaudido, atuo como esta pessoa envaidecida que, sabidamente, faz jus a ser aclamada pelo público, devera entusiasmado.

Espio da coxia; e vem-me à mente o Mario Quintana, porque estas gentes, que não esperam que eu abandone o palco, são macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios.

O que vem a ser tal palco? É jaula a abrigar-me? Cultivo as bananas que atiro quando as compreendo no ponto? Rendo-me aos aplausos que me mantêm trancafiado, embora a chave esteja na porta?

Desapego-me do silêncio, Quintana, pois a coxia tem o espelho que ajuda a maquiar-me, já velha prostituta, já fazendo trottoir.

Maquiado, feito cronista que ganha a vida soltando a língua por aí, gosto que as palavras lambam-me, arrepia-me o frêmito de quem sente o meu sopro, assobio um improviso, bailo em improviso, pois o mundo é um ipê, é guaru, é brisa que lambe o barro a lapidá-lo diamante.

E quero o pó de arroz, o batom e a sombra que me ganham à vida, ao balé da vida, ao esplendor que é da vida.

Observo-me pelos reflexos. Quero-me fora da caverna, zanzando a esmo. O espelho volta-me ao que escrevinho. Percebo-me observado pelas palavras. Topo o jogo, que os reflexos brinquem comigo. Desde o fim até o começo, jogo-me, retorno ao escrevinhado.

Como se antes da letra inicial o mundo, a vida e a flor da esbórnia no rosto não fossem mais que um tique, a máscara toma assento, faz-me rir de ser rei.

Uma vez que não duvido da crônica, entrego-me ao bailado que as palavras dão a ver que as bailo.

Rejubile-se, máquina do mundo, pois você governa e desgoverna, torna o cético um bobo, a tagarelar, já o espetáculo montado, já o palco iluminado.

A crônica, máquina do mundo, suporta-se à espera da especulação, ainda que eu seja rei, Quintana, nunca fui um, Quintana.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de outubro de 2025.

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