terça-feira, 14 de outubro de 2025

Excêntrico

 

Excêntrico

 

Ele vinha na minha direção. E tão logo me viu, atravessou a rua. Eu não estranhei, porque pessoas têm opiniões e, para evitar que o oposto do que se pensa seja incensado, amizades são rompidas.

Algo que postei deve tê-lo ofendido, e não o criticarei por não querer papo comigo, pois posso mesmo tê-lo contrariado, de tal forma que lhe pareço, realmente, um adversário a ser repelido.

Ao preservar-se insubmisso ao bom-mocismo em voga, invejo-o, já que, sem se importar que velhos amigos o repudiem, faz décadas que ele posta comentários que polemizam.

Sendo a história um campo onde forças antagônicas se confrontam, muita gente acredita que é saudável tal embate acarretar que o mundo virtual seja cristalino, ainda que brutalmente sentido.

É provável que ele tenha mudado de calçada por considerar-me um indivíduo inflexível, mais um integrante do contingente dos bobos, cuja patetice impede-nos de sentir a verdade que precisa ser percebida, ou a barbárie seguirá sendo o norte a guiar-nos, cegos à maldade que nos segrega dos bons.

Ele muda de calçada porque não defenderei o que é repugnante. Como não vou ajoelhar-me, ele siga orgulhoso da sua fé. Não porei a carapuça dos condenados, só porque me queiram enforcado. Ele sabe que não abandonarei a praça, pois faz sol, pombas arrulham e o cheiro do pastel faz a minha barriga roncar.

Comendo o meu pastel, nem o vi ao meu lado.

Cumprimenta. Pergunta se sumiram as dores depois que operei da vesícula. Se estou comendo pastel, é óbvio que não tenho mais medo de fritura, pois já não sofro com as pedras.

Depois de ter comido um quibe e tomado um guaraná, abraçando-me, desejando que a paz esteja comigo, vai embora.

Ele ter vindo falar comigo faz dele um excêntrico, pois não é normal suportar alguém feito eu, uma pessoa que não se incomoda de afrontá-lo pelo que tanto valoriza.

Eu não sou ele; ser ele daria em maluquice, pois minha vivência diz que dá pé ouvir quem vive a criticar que o canto afinado rebaixa, avilta, revela o cordeiro que o bom cantor oculta com a pele de lobo.

Fora da alcateia, entre cordatos, a camuflar-se de errático, lunático, não será astúcia (pueril) aclamar-se que desafina?

Já o rapaz, ele varre ao redor do carrinho, não ignora nem os farelos e, antes que o lixo comece a atrair moscas, ele dá um nó no saco e vai jogá-lo ali na frente, na caçamba que fica no beco sem saída.

Quando estou indo pegar o Beckett que encomendei, outra vez ele irrompe no meu caminho. Por compadecer-me de quem tem pedras na vesícula, considero o que fará ꟷ bem me saúda, passa batido ou troca de lado.

Todavia, nem lhufas nem bulhufas.

Uma vez que não tenho sequer habilitação para conduzir o veículo que seja, nem trator nem ônibus nem moto elétrica, tomo uma rasteira, já que ele entra no seu carro e vai embora, vai no fluxo, vai na mão que os automóveis têm que seguir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de outubro de 2025.

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