domingo, 12 de outubro de 2025

Piano piano

 

Piano piano

 

Vendo-me correr, e, para não atropelar quem estimo por não correr, não discordo de quem acredita que sei o que quero, estou certo do que preciso, vou indo adiante ainda que pise em falso, porque a pirraça da cachola é projetar buracos onde a gente menos os anteveja.

De bunda no chão, doido querendo sumir, realço o ridículo ao topar ser acudido por quem se domina, e tudo bem, não foi grave, foi só um tombo, ria, pode rir às escâncaras, pois dei bobeira, eu sei.

Dificilmente saio de casa à noite, pois, sem nada de esquizofrênica, a mão que vem ajudar é a mesma que vai agredir, pois, já que não me aprumo pelas decorrências, reluto, não quero entregar a carteira.

Refeito do murro, afivelado à maca, levem-me ao pronto-socorro, e tudo bem, pois, é óbvio, nariz sangra após um soco desferido na fuça, e o meu abunda sangrar, me defende sangrando, é normalzinho.

Embora raramente me irrite, irritam-me facilmente, então, para não incendiar a casa, preciso da rua, desligo a TV que fala na paz, na paz laureada, essa paz que não mordo, não mastigo, não engulo, e não a cuspo na sala, pois, sem bater porta nem portão, saio manso, abobado, pois quero ir para nem eu sei onde.

Por acaso, fecho a porta quando um homem desce do carro.

Uma mulher também desce, mas, elevada do chão com a elegância de quem sabe andar na agulha do salto, ela é alta, tão alta, tanto é alta que ela atravessa a rua sem olhar para quem, neste instante, a adora e a idolatra, para, no instante seguinte, ignorá-la.

Ignoro-a, porque o homem de terno leva um estojo. Em vez da pasta na qual operadores do sucesso transportam dólares, euros e barrinhas de ouro, a figura da tampa explicita outro conteúdo, uma furadeira.

Não sendo borboleta, seguro-me da minha volúpia, aguardo o casal entrar num prédio, e quando ele entra, entro, estou no encalço.

O lugar é um salão de festas. Há mesas com enfeites. Instrumentos são afinados, microfones são testados. Embora haja pouca gente, mais cadeiras são trazidas.

Cruzando a boca do palco, a faixa, preta com Felicitações por seus 15 anos, DIDI em dourado, é fixada pelo homem da furadeira.

A loira alta, bem alta, altaneira, de longo amarelo, longo o bastante para que eu cobice modelar-lhe as panturrilhas, sem traços de esnobe, por realmente me ver, ela vem falar comigo.

Está surpresa que eu tenha vindo sem fraque, é justo, pois o cachê é uma taça de champanhe, e tudo bem, embora caiba ao pai dar-lhe a primazia do baile, a moça quer Für Elise para bailar.

Desde garotinha, Meredith tem a regalia de ver-me de fraque, rabo de cavalo, a língua, esse animalzinho neurótico, a umidificar os lábios, só que a pouparei do meu opróbrio, pois a cabeleira solta, a boca sem batom e o rosto sem pó de arroz personificam o perplexo: não sendo obra de buraco ou de casca de banana, terei caído por pisar bosta de gente ou cocô de vira-lata?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de outubro de 2025.

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