Aquela
vontade louca de vibrar
Recolhi-me
ao quarto mais cedo que o costume. Manú ficou na sala, lendo, isso a ela era
costumeiro. Não pedi que me acompanhasse, pois era evidente que a leitura a
cativava. Pela sombra cobrindo metade do rosto, pela concentração, pela
serenidade, sua figura era tão cativante, tão bela.
Como
não se anunciava aliviado o semblante absorto da distraída, próprio a ela que
nem se sentia abduzida da realidade pra esse mundo fabricado pela linguagem, já
as palavras, por suposto, revirando o lodo, já a subjetividade minerando o que
lhe extraía o comum a toda gente, tanto me era comovente a face revelada de
Manú que, amorosamente estável, a ela nem falei que ia deitar-me.
Na
escuridão, foi mansa a entrada, a vinda do sono.
Ela
não precisava sacrificar-se. Achei melhor que continuasse onde estava, lendo.
Ela não precisava vir deitar-se, eu sabia que iria dormir logo. O sono me faria
bem. Tanto que os músculos vagarosamente me sossegariam, e me desencaminhariam
dos esforços vãos.
Se
estivesse na cama, você perceberia como foi fácil entregar-me. Você iria rir do
meu sonho, já que eu enfeitiçaria os corvos. Querendo-os pousados na cruz dos meus
braços, você riria.
Eu
sentiria o baque. Acusaria o coração tocado. Eu sofreria, porque o sonho me faria
rir. Eu saberia do sofrimento. Iria querer rir com você, mas não daria jeito de
rir. De maneira alguma, eu não riria.
Quando
a gente se despede, sinto certo desconforto, meio que não admito que sofro. Prefiro
ir deitar a trazê-la comigo, porque a dor aperta ao vê-la largar o que faz,
isso constrange.
Houve
uma vez, embora visse que me oferecia a corvos e gralhas, por achar bom acolhê-los,
todavia, no sonho, os urubus comiam, eram arados, tanto eram que eu regurgitava
o milho pra eles comerem.
Você
sempre soube ter cabeça fria, bem sabe quando quero chorar. Manú, você sabe
antecipar-se. Por ser como sou, você ri, uma vez que, volta e meia, eu, dormindo,
bato papo.
Manú,
eu gritaria. Mesmo que não grite, dificilmente fico à vontade. A ideia de
interromper sua leitura, Manú, me faz uma criança. Sou essa criança que tem uma
bola, quer brincar, só que a mãe não deixa, o pai não deixa, os amigos jogam
melhor, e o livro é muito mais interessante que uma pelada à toa.
Sim,
acho bom ficar em paz, pois a agitação é como espernear que nem menininho que mete
uma bicuda na gorduchinha.
Entendo
que a rua ensina a engolir-me no chororô, por isso a bola, o jogo de bola, Manú,
a vida fala que tenho esta percepção: sem birra, tem vez que a vida cobra que a
gente dê uma cavadinha.
Eu
cavarei mesmo que vire em pênalti pra fora?
Como
boa pessoa que peleja, não me arrependa do gol perdido. Com o grito preso, torço
que a bola dê na trave, suspiro que o rebote permita a bicicleta. Pelo tanto
que babo, só mais uma vez, pedalo aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 05 de outubro de 2025.
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