domingo, 5 de outubro de 2025

Aquela vontade louca de vibrar

 

Aquela vontade louca de vibrar

 

Recolhi-me ao quarto mais cedo que o costume. Manú ficou na sala, lendo, isso a ela era costumeiro. Não pedi que me acompanhasse, pois era evidente que a leitura a cativava. Pela sombra cobrindo metade do rosto, pela concentração, pela serenidade, sua figura era tão cativante, tão bela.

Como não se anunciava aliviado o semblante absorto da distraída, próprio a ela que nem se sentia abduzida da realidade pra esse mundo fabricado pela linguagem, já as palavras, por suposto, revirando o lodo, já a subjetividade minerando o que lhe extraía o comum a toda gente, tanto me era comovente a face revelada de Manú que, amorosamente estável, a ela nem falei que ia deitar-me.

Na escuridão, foi mansa a entrada, a vinda do sono.

Ela não precisava sacrificar-se. Achei melhor que continuasse onde estava, lendo. Ela não precisava vir deitar-se, eu sabia que iria dormir logo. O sono me faria bem. Tanto que os músculos vagarosamente me sossegariam, e me desencaminhariam dos esforços vãos.

Se estivesse na cama, você perceberia como foi fácil entregar-me. Você iria rir do meu sonho, já que eu enfeitiçaria os corvos. Querendo-os pousados na cruz dos meus braços, você riria.

Eu sentiria o baque. Acusaria o coração tocado. Eu sofreria, porque o sonho me faria rir. Eu saberia do sofrimento. Iria querer rir com você, mas não daria jeito de rir. De maneira alguma, eu não riria.

Quando a gente se despede, sinto certo desconforto, meio que não admito que sofro. Prefiro ir deitar a trazê-la comigo, porque a dor aperta ao vê-la largar o que faz, isso constrange.

Houve uma vez, embora visse que me oferecia a corvos e gralhas, por achar bom acolhê-los, todavia, no sonho, os urubus comiam, eram arados, tanto eram que eu regurgitava o milho pra eles comerem.

Você sempre soube ter cabeça fria, bem sabe quando quero chorar. Manú, você sabe antecipar-se. Por ser como sou, você ri, uma vez que, volta e meia, eu, dormindo, bato papo.

Manú, eu gritaria. Mesmo que não grite, dificilmente fico à vontade. A ideia de interromper sua leitura, Manú, me faz uma criança. Sou essa criança que tem uma bola, quer brincar, só que a mãe não deixa, o pai não deixa, os amigos jogam melhor, e o livro é muito mais interessante que uma pelada à toa.

Sim, acho bom ficar em paz, pois a agitação é como espernear que nem menininho que mete uma bicuda na gorduchinha.

Entendo que a rua ensina a engolir-me no chororô, por isso a bola, o jogo de bola, Manú, a vida fala que tenho esta percepção: sem birra, tem vez que a vida cobra que a gente dê uma cavadinha.

Eu cavarei mesmo que vire em pênalti pra fora?

Como boa pessoa que peleja, não me arrependa do gol perdido. Com o grito preso, torço que a bola dê na trave, suspiro que o rebote permita a bicicleta. Pelo tanto que babo, só mais uma vez, pedalo aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de outubro de 2025.

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