Ligaram,
pediram que fosse buscar o carro. Depois de quinze dias, que seriam cinco, ele
tinha de buscá-lo, pois precisavam da vaga.
Deixaram-no
a pé por uma semana a mais, isso porque o problema seria fácil de ser resolvido.
Não avisaram que o atraso iria implicar nos quarenta por cento de acréscimo ao valor
acertado.
Com
o conserto feito, a conta fechada, o boleto tinha de ser quitado sem falta ou
haveria juros.
Antes
de devolvê-lo, o motor tinha de ser testado. Sem o transtorno de haver contenda,
o serviço precisava passar pela prática. Aceleração e desaceleração, enfrentar
ladeira íngreme, freada brusca para que um cão continuasse cruzando o caminho
deste automóvel recém-saído da melhor oficina da cidade.
Ao
dar a ignição, o mecânico virou a chave. Ligou novamente, pisou no acelerador,
perguntou-lhe se também sentia. O ruído era magnífico, de coisa diferente. O
perfeito funcionamento era esperado, mas aquela energia era distinta, incomparável,
de uma profundidade intensamente positiva.
O
senhor viverá alegrias que nem imagina, disse-lhe o homem, mas não tema e não desista,
porque o trabalho realizado não o deixará pelo caminho, afiançou-lhe o homem.
Lentamente,
saíram da oficina. Lentamente, contornaram a quadra. Deixando o motor ligado, o
mecânico saiu do carro e, misteriosamente, olhou nos olhos da pessoa que
haveria de pagar a conta pelo conserto e agradeceu-lhe, dizendo que nunca
esqueceria aquele serviço, nunca mais seria o mesmo, pois sempre iria agradecê-lo
pela felicidade de ter vislumbrado as conquistas a quem o escolheu tão somente
para fazer algum reparo naquela máquina, mas o motor desta máquina...
ꟷ
Na saúde e na doença, senhor, ele estará convosco.
Já
que nunca lhe ocorrera, temeroso de que bebuns podiam impedir de chegar à
lotérica, ele dirigiu como sendo a primeira vez, ainda que fosse mesmo a
primeira vez em que pilotava esta máquina insondável, este bólido com poderes
transcendentais.
Contudo,
para que, pelo tanto de tempo que nem consiga mensurar, o motor transfigurado
em fonte de maravilhas siga a impulsioná-lo pelo mundo sem que o flagrem
encantado, ele se transforme, desentranhe-se na pessoa motorizada que não se
preocupa somente dos bebuns e das senhorinhas, que o mova a alegria de pagar o
boleto incrivelmente estimado.
A
moça da lotérica disse que o carro tinha um não sei quê, algo que a fazia ter
vontade de dirigi-lo. Que lhe seja permitido ir à praia. Ele não querendo acompanhá-la,
que ele se ocupe do guichê. Ela sente haver um ímã a seduzi-la que vá por aí, que
ela chegue a lugares que sequer conhece dos mapas, que nunca tenha ouvido
falar, que sempre sonhou que existam porque a cachola dos poetas faz existirem.
De
carona no espanto, o gênio brinca, bate biela, faz a persona, em ponto morto,
girar a chave, entregar-se, amar.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 30 de setembro de 2025.
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