terça-feira, 30 de setembro de 2025

Rebimboca

 

Rebimboca

 

Ligaram, pediram que fosse buscar o carro. Depois de quinze dias, que seriam cinco, ele tinha de buscá-lo, pois precisavam da vaga.

Deixaram-no a pé por uma semana a mais, isso porque o problema seria fácil de ser resolvido. Não avisaram que o atraso iria implicar nos quarenta por cento de acréscimo ao valor acertado.

Com o conserto feito, a conta fechada, o boleto tinha de ser quitado sem falta ou haveria juros.

Antes de devolvê-lo, o motor tinha de ser testado. Sem o transtorno de haver contenda, o serviço precisava passar pela prática. Aceleração e desaceleração, enfrentar ladeira íngreme, freada brusca para que um cão continuasse cruzando o caminho deste automóvel recém-saído da melhor oficina da cidade.

Ao dar a ignição, o mecânico virou a chave. Ligou novamente, pisou no acelerador, perguntou-lhe se também sentia. O ruído era magnífico, de coisa diferente. O perfeito funcionamento era esperado, mas aquela energia era distinta, incomparável, de uma profundidade intensamente positiva.

O senhor viverá alegrias que nem imagina, disse-lhe o homem, mas não tema e não desista, porque o trabalho realizado não o deixará pelo caminho, afiançou-lhe o homem.

Lentamente, saíram da oficina. Lentamente, contornaram a quadra. Deixando o motor ligado, o mecânico saiu do carro e, misteriosamente, olhou nos olhos da pessoa que haveria de pagar a conta pelo conserto e agradeceu-lhe, dizendo que nunca esqueceria aquele serviço, nunca mais seria o mesmo, pois sempre iria agradecê-lo pela felicidade de ter vislumbrado as conquistas a quem o escolheu tão somente para fazer algum reparo naquela máquina, mas o motor desta máquina...

ꟷ Na saúde e na doença, senhor, ele estará convosco.

Já que nunca lhe ocorrera, temeroso de que bebuns podiam impedir de chegar à lotérica, ele dirigiu como sendo a primeira vez, ainda que fosse mesmo a primeira vez em que pilotava esta máquina insondável, este bólido com poderes transcendentais.

Contudo, para que, pelo tanto de tempo que nem consiga mensurar, o motor transfigurado em fonte de maravilhas siga a impulsioná-lo pelo mundo sem que o flagrem encantado, ele se transforme, desentranhe-se na pessoa motorizada que não se preocupa somente dos bebuns e das senhorinhas, que o mova a alegria de pagar o boleto incrivelmente estimado.

A moça da lotérica disse que o carro tinha um não sei quê, algo que a fazia ter vontade de dirigi-lo. Que lhe seja permitido ir à praia. Ele não querendo acompanhá-la, que ele se ocupe do guichê. Ela sente haver um ímã a seduzi-la que vá por aí, que ela chegue a lugares que sequer conhece dos mapas, que nunca tenha ouvido falar, que sempre sonhou que existam porque a cachola dos poetas faz existirem.

De carona no espanto, o gênio brinca, bate biela, faz a persona, em ponto morto, girar a chave, entregar-se, amar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de setembro de 2025.

 

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