domingo, 21 de setembro de 2025

O jeito certo

 

O jeito certo

 

Não aperto a pasta no meio. Custei a aprender, mas aprendi. Aperto o tubo de baixo para cima. Sempre que abro um tubo novo, aperto do lado oposto à saída do creme. Isso me desobriga de abaixar pra pegar o troço caído. Explico-me: como não enxugo as mãos depois que lavo o rosto, a pasta me escapa.

Eu poderia ter resolvido o problema há muito, mas não me angustia nem me traumatiza manter as mãos molhadas, é que simplificar minha vida me faz agir de um jeito que seja o mais rápido.

Já que eu tenho bolso sensível, nunca fui de usar, portanto não uso e logo não usarei, não uso duas toalhas de rosto por semana, uma vez que a máquina de lavar é limitada a onze quilos por lavagem.

Logo, é lógico que o problema não é comprar toalhas de rosto em dobro, assim como não é o valor da conta da luz, o drama é, no fundo por um acento tão mais dramático, estas costas torturarem-me.

De tanto abaixar para recuperar o que me escapole das mãos, vivo testando a flexibilidade dos nervos. Este teste permite a previsão mais emotiva do quanto, na próxima abaixada, a cachola me desnorteará.

Em perspectiva, o tubo precisa ser espremido para o dentifrício ser expelido sem desperdício, a máquina opere respeitando-se o limite da carga a ser limpa e a aprendizagem seja consequente, pois me idiotizo quando desvalorizo as distrações por serem proibitivas.

Se me tenho para o gasto, por que não vou me agastar?

Sinto a facada fulminante que vem do sorrisinho da repositora, pois as iscas de barata, por tanto precisá-las, me leva a encurvar a espinha, porque as cobiçadas ficam na parte inferior da gôndola.

Por me pavonear tal qual a Mona Lisa, retribuo o sorriso. Pela graça de tomar o sorriso feito espelho a resplandecer a pilhéria alheia, minha Mona Lisa sorri. Por essa Mona Lisa desembaraçada, sorrimos.

A que nível o Deus de Espinosa influenciará minha cachola a raspar em sentido horário a casca da mandioquinha?

Raspo a mandioquinha, pois escolhi ter escondidinho no almoço.

E aqui me encasqueto: colocarei o feijão debaixo do arroz ou ponho o arroz debaixo do feijão?

Quando compro marmitex, quero fritas, abobrinha refogada e filé à parmegiana, ou, às vezes, picadinho, mas o feijão vem embaixo.

Dificilmente peço peixe à milanesa ou ensopado, porque não como peixe nem quando eu o pesco.

Quando a pescaria rende, dou as tilápias, os lambaris e os carás a quem goste, precise, nem titubeie de assá-los, ensopá-los, fritá-los.

Sem atropelos à relatividade de Einstein, eureca!

Que coincidência chegar ao instante de comer. E que eu seja rápido ou o prato esfriará.

Esfriando a comida, a digestão será complicada, pois o meu gênio sabe ser lastimável. Eu azedo, dou patadas e não cochilarei assistindo a documentário sobre a fase rosa de Picasso.

Sem firula: o negócio é o feijão e o arroz ficarem lado a lado ou eu comer só o escondidinho?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de setembro de 2025.


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