quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Zero a zero

 

Zero a zero

 

Bem se veja que estou disposto a encarar o insight com a seriedade que o deslumbramento pede a mim que eu a tenha, uma vez que estou bem. Ou seja, evitarei as contradições involuntárias. Ou seja, denuncio que quase me deixei convencer que, depois de uma boa noite de sono, o joão-de-barro me acordou para outro dia de céu azul, refeições leves e conversas ligeiras.

ꟷ Voltou pra cá?

ꟷ Faz cinco anos.

ꟷ Cinco! E nada de ligar pra cervejinha?

ꟷ Parei de beber.

ꟷ Rapaz, sabe que também não ando bem de saúde, já não abuso como a gente abusava na zoeira. Semana passada mesmo, fiz exame, porque passei uns dias com uma dorzinha chata, mas o resultado deu que está tudo em ordem com o meu fígado.

O diálogo deu-se ontem. Sendo abilolado de memória avariada por décadas de cachaceiro contumaz, dou a seguir o papo de quinze dias atrás.

ꟷ Quanto tempo!

ꟷ Quais as novidades?

ꟷ Tudo na mesma. Com futebolzinho no sábado, churrasco quando pinta e brejas geladas dia sim e outro também.

ꟷ Já não pertenço a esse mundo.

ꟷ Virou crente?

ꟷ Fiquei velho, mesmo.

ꟷ Rapaz, nem me diga. Na semana passada, corri fazer exame por causa de uma dor nas costas. Mas, graças ao Bom Deus, o ultrassom detectou pedra no rim. O médico mandou eu beber muito líquido. Como ordem de doutor é lei, tenho tomado cerveja que nem água.

No entanto, me persuadi a repensar o que a intuição interpusera no caminho, uma vez que, de madrugada, eu sonhava que caminhava na praia, ia com os pés na água, as ondas lambiam os meus calcanhares, o muxoxo do mar era uma delícia no ouvido, então, foi lambido que me esforcei para despertar.

Já que autoconhecimento não garante o controle sobre si, tem vez que a vontade faz correr ao banheiro sem nem ligar a luz.

Fui e urinei, porém, apraz que se embuta o outro: porém.

Todavia, autoconheço-me de outras madrugadas, de outras idas ao banheiro sem que a luz fosse acesa, de algumas topadas de joelho na cômoda, de dar com o nariz no batente, de cair de costas pela peitada na parede.

Noite passada, no escuro, com a ponta dos indicadores ajudando a situar-me, com as paredes onde deveriam estar, fui indo lento, fui indo sem me distrair, sem achar que meus passos eram práticos, sem temer que a minha boca secaria, sem me soprar à tentação de ficar tenso por achar que era outra das minhas tolices, todavia, certo de que ia sem a necessidade de confiar em mim, não encurtei a passada, uma vez que o corredor era trecho conhecido, fui indo do quarto ao banheiro, tratei somente de ir devagar, porém.

Sem estresse abissal, o sujeito e eu nos congraçamos?

Já que um cotidiano menos tóxico pede meio-termo, faço o balanço, minimizo a mão do cínico a bater no ombro, já que seis por meia dúzia não acarreta nulidade: quando o cafezinho é expresso, você toma dois, de xícara grande, e sem açúcar, pois rim ou fígado hão de reconhecer o valor da coerência, sempre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de setembro de 2025.

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