quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Bola fora

 

Bola fora

 

Se vejo nas tiras do Minas frescal as bandeirolas de Volpi, dou por coisa de mané fotografar o pão coberto pelos retângulos do queijo, mas a beleza quer prevalecer e eu, comovido à vaidade, dou o clique.

O sentimento de ter cometido um deslize pesa na consciência deste bobão, uma vez que convivo com poucos que enfrentam uma realidade difícil.

Comendo meu sanduíche, penso nessa gente que dá vida a um dia a dia sombrio. Bebendo o meu café, lamento que essa gente nem saiba o quão danoso é este cotidiano que lhes vampiriza o suor.

Assistindo à TV, vejo gente passando fome, sobrevivendo debaixo de viaduto, acreditando que a vida deve ser bem mais penosa a legiões que nem aparecem na TV.

Confiando que faço o que dá, certo de que nem sempre faço o que posso, sem desistir de melhorar-me pelo que me seja possível, termino o meu café.

Com a cafeína agindo na mente, vejo claramente que levanto cedo, trabalho, como grelhados, compro livros para o tempo compadecer-se da minha insignificância, durmo logo, sem sobressaltos, porque a pílula que tomo tem o poder de me fazer capotar bonitinho.

Babo no travesseiro, ronco, não calculo como os sonhos colaboram para a minha recuperação, desperto com o cocoricó do celular, acordo, novamente e outra vez, com vontade de cortar as fatias do frescal que me seduzam às bandeirolas do Volpi.

Faria diferente se fosse outra pessoa?

Para ser quem não sou, leio, e convivo com personagens, incorporo tensões, vibro nas altercações, tomo água. Sigo na leitura mesmo que, páginas à frente, a boca torne a secar. Sim, Antígona, não a repudiarei, pois, outra vez contigo e de novo comigo, continuarei na caverna.

A caverna onde vivo tem ducha de água morna, tem faca inoxidável, tem travesseiro antialérgico. Para não fugir de quem sou, banho-me na ducha morna e cuspo a mordida estragada da maçã.

Ainda que ainda esteja um breu, danado feito o cão, abro os olhos, e conto com que a ansiedade me auxilie a controlar-me.

Não hesitarei! O pé direito primeiro? Não sou supersticioso! Todavia o pé esquerdo para mostrar-me resoluto?

Faz bem comprometer-me comigo, pois abrir os olhos não basta. É gostoso espreguiçar-me. Convém apoderar-me dos pés. Não me quero desequilibrado. Para que ambos toquem simultaneamente o tapetinho, coordeno as coxas, os joelhos e meus pés.

Sentado na cama, tomo siso da situação: vejo os dois pés pisando o chão, estou convicto de que poderei levantar aprumado, acautelado, seguro de que levantarei sem me precipitar, estou certo de que ligarei a TV só depois de ter adoçado o café e feito meu sanduíche.

Mesmo que não movimente um neurônio a favor da paz universal, deixo a cama, ponho todo meu peso nas plantas dos pés, dou comigo, todavia, a tombar de queixo, que dói e sangra.

Por mil diabos! Por mil diabos!

Por que, logo agora, eu me fiz ter uma tamanha câimbra?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de setembro de 2025.

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