Se
vejo nas tiras do Minas frescal as bandeirolas de Volpi, dou por coisa de mané
fotografar o pão coberto pelos retângulos do queijo, mas a beleza quer prevalecer
e eu, comovido à vaidade, dou o clique.
O
sentimento de ter cometido um deslize pesa na consciência deste bobão, uma vez
que convivo com poucos que enfrentam uma realidade difícil.
Comendo
meu sanduíche, penso nessa gente que dá vida a um dia a dia sombrio. Bebendo o
meu café, lamento que essa gente nem saiba o quão danoso é este cotidiano que
lhes vampiriza o suor.
Assistindo
à TV, vejo gente passando fome, sobrevivendo debaixo de viaduto, acreditando
que a vida deve ser bem mais penosa a legiões que nem aparecem na TV.
Confiando
que faço o que dá, certo de que nem sempre faço o que posso, sem desistir de
melhorar-me pelo que me seja possível, termino o meu café.
Com
a cafeína agindo na mente, vejo claramente que levanto cedo, trabalho, como grelhados,
compro livros para o tempo compadecer-se da minha insignificância, durmo logo, sem
sobressaltos, porque a pílula que tomo tem o poder de me fazer capotar
bonitinho.
Babo
no travesseiro, ronco, não calculo como os sonhos colaboram para a minha
recuperação, desperto com o cocoricó do celular, acordo, novamente e outra vez,
com vontade de cortar as fatias do frescal que me seduzam às bandeirolas do
Volpi.
Faria
diferente se fosse outra pessoa?
Para
ser quem não sou, leio, e convivo com personagens, incorporo tensões, vibro nas
altercações, tomo água. Sigo na leitura mesmo que, páginas à frente, a boca torne
a secar. Sim, Antígona, não a repudiarei, pois, outra vez contigo e de novo comigo,
continuarei na caverna.
A
caverna onde vivo tem ducha de água morna, tem faca inoxidável, tem travesseiro
antialérgico. Para não fugir de quem sou, banho-me na ducha morna e cuspo a mordida
estragada da maçã.
Ainda
que ainda esteja um breu, danado feito o cão, abro os olhos, e conto com que a
ansiedade me auxilie a controlar-me.
Não
hesitarei! O pé direito primeiro? Não sou supersticioso! Todavia o pé esquerdo
para mostrar-me resoluto?
Faz
bem comprometer-me comigo, pois abrir os olhos não basta. É gostoso
espreguiçar-me. Convém apoderar-me dos pés. Não me quero desequilibrado. Para
que ambos toquem simultaneamente o tapetinho, coordeno as coxas, os joelhos e meus
pés.
Sentado
na cama, tomo siso da situação: vejo os dois pés pisando o chão, estou convicto
de que poderei levantar aprumado, acautelado, seguro de que levantarei sem me
precipitar, estou certo de que ligarei a TV só depois de ter adoçado o café e feito
meu sanduíche.
Mesmo
que não movimente um neurônio a favor da paz universal, deixo a cama, ponho
todo meu peso nas plantas dos pés, dou comigo, todavia, a tombar de queixo, que
dói e sangra.
Por
mil diabos! Por mil diabos!
Por
que, logo agora, eu me fiz ter uma tamanha câimbra?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 18 de setembro de 2025.
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