domingo, 14 de setembro de 2025

Presunções

 

Presunções

 

Oito horas, mal a funcionária senta-se na cadeira, toca o telefone:

ꟷ Alô, a minha mãe está?

ꟷ Meu querido, qual é o nome da sua mamãe?

ꟷ Dona, o nome dela é Samara.

ꟷ Não tem ninguém aqui que se chama Samara, meu anjo.

ꟷ Então tá, muito obrigado. Tchau, moça.

Oito e dez, a sensata engole o gole de café:

ꟷ Alô, pode me dizer se a Samara já chegou?

ꟷ Não, garoto, até agora nenhuma Samara chegou.

ꟷ É que a minha mãe esqueceu o celular dela. Obrigado. Tchau.

Oito e quinze, a educada é obrigada a engolir outro gole do café:

ꟷ Bom dia! Você pode me informar se a Samara já chegou?

ꟷ Bom dia é o cacete! Não tem nenhuma Samara que trabalha aqui, senhora. Se não sabe, a senhora fique sabendo: trote é crime!

Oito e quinze, ainda, o café nem chegou à boca da moça irritada:

ꟷ Bom dia, novamente. Não desligue o telefone na minha cara outra vez. Por gentileza, posso saber com quem eu estou falando?

ꟷ Meu nome é Patrícia, por quê? Vai querer me ver gritar contigo?

ꟷ Patrícia, eu procuro a Samara porque ela é a nova gerente.

ꟷ Então, por acaso, você trabalha com a gente aqui na nossa firma?

ꟷ Além de trabalhar aí, Patrícia, quem contratou a Samara fui eu, e eu lhe digo o porquê. É porque, Patrícia, você trabalha pra mim.

 

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ꟷ Vamos ao olho clínico do Repórter Aéreo. E quem fala ao vivo a bordo do nosso helicóptero é Flávio Alves. E aí, amigo, conta pra gente, como anda o trânsito aí pelas imediações do festival?

ꟷ Como os assinantes podem imaginar, Ana, o fluxo é pesado, pois a principal saída da área está entupida, com os moradores fugindo da banda de metal, cujo vocalista, Cristo Altíssimo!, acabou de começar a se esgoelar lá em cima do palco. Me libera disso daqui, Ana!

 

*********

 

ꟷ Caramba, amigo, o que você fez para o seu rosto estar vermelho?

ꟷ Eu não fiz nenhuma extravagância, amiga. Só fiz a barba.

ꟷ Ele está cheio de bolinhas... Por acaso, fez com uma faca?

ꟷ Não, não, nada disso. É que sou alérgico a níquel.

ꟷ Níquel? Caraca, amigo! Quem falou pra usar gilete de níquel?

ꟷ A lâmina é inoxidável, mas o níquel é usado para afiar o aço.

ꟷ Sei não, amigo. Pra mim, isso deve ser coisa de velho.

ꟷ Pois é, amiga, devo ser velho desde os meus dezoito anos.

ꟷ Que engraçadinho você é, hein?

ꟷ Olha, tenho uma coisa engraçada sobre minha alergia. Por conta do rosto ficar vermelho, queimando, empipocado toda vez que eu fazia a barba, precisei ir me consultar com uma dermatologista.

ꟷ Ela te revelou que existe aparelho pra pele sensível? Bingo!

ꟷ Não. Ela receitou creme e, pra tomar, um antialérgico.

ꟷ Amigo, que médica mais chatinha.

ꟷ Pachorrento fui eu, amiga, uma vez que meti na ficha do cadastro que a minha profissão era, veja só, que eu era... escritor.

ꟷ Lamento te decepcionar, amigo, mas você é escritor.

ꟷ Naquela época, eu não tinha nada escrito. Hoje, já que eu tenho crônicas publicadas, eu não erraria se preenchesse: escrevinhador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de setembro de 2025.

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