Oito
horas, mal a funcionária senta-se na cadeira, toca o telefone:
ꟷ
Alô, a minha mãe está?
ꟷ
Meu querido, qual é o nome da sua mamãe?
ꟷ
Dona, o nome dela é Samara.
ꟷ
Não tem ninguém aqui que se chama Samara, meu anjo.
ꟷ
Então tá, muito obrigado. Tchau, moça.
Oito
e dez, a sensata engole o gole de café:
ꟷ
Alô, pode me dizer se a Samara já chegou?
ꟷ
Não, garoto, até agora nenhuma Samara chegou.
ꟷ
É que a minha mãe esqueceu o celular dela. Obrigado. Tchau.
Oito
e quinze, a educada é obrigada a engolir outro gole do café:
ꟷ
Bom dia! Você pode me informar se a Samara já chegou?
ꟷ
Bom dia é o cacete! Não tem nenhuma Samara que trabalha aqui, senhora. Se não
sabe, a senhora fique sabendo: trote é crime!
Oito
e quinze, ainda, o café nem chegou à boca da moça irritada:
ꟷ
Bom dia, novamente. Não desligue o telefone na minha cara outra vez. Por
gentileza, posso saber com quem eu estou falando?
ꟷ
Meu nome é Patrícia, por quê? Vai querer me ver gritar contigo?
ꟷ
Patrícia, eu procuro a Samara porque ela é a nova gerente.
ꟷ
Então, por acaso, você trabalha com a gente aqui na nossa firma?
ꟷ
Além de trabalhar aí, Patrícia, quem contratou a Samara fui eu, e eu lhe digo o
porquê. É porque, Patrícia, você trabalha pra mim.
*********
ꟷ
Vamos ao olho clínico do Repórter Aéreo. E quem fala ao vivo a bordo do nosso
helicóptero é Flávio Alves. E aí, amigo, conta pra gente, como anda o trânsito aí
pelas imediações do festival?
ꟷ
Como os assinantes podem imaginar, Ana, o fluxo é pesado, pois a principal saída
da área está entupida, com os moradores fugindo da banda de metal, cujo
vocalista, Cristo Altíssimo!, acabou de começar a se esgoelar lá em cima do
palco. Me libera disso daqui, Ana!
*********
ꟷ
Caramba, amigo, o que você fez para o seu rosto estar vermelho?
ꟷ
Eu não fiz nenhuma extravagância, amiga. Só fiz a barba.
ꟷ
Ele está cheio de bolinhas... Por acaso, fez com uma faca?
ꟷ
Não, não, nada disso. É que sou alérgico a níquel.
ꟷ
Níquel? Caraca, amigo! Quem falou pra usar gilete de níquel?
ꟷ
A lâmina é inoxidável, mas o níquel é usado para afiar o aço.
ꟷ
Sei não, amigo. Pra mim, isso deve ser coisa de velho.
ꟷ
Pois é, amiga, devo ser velho desde os meus dezoito anos.
ꟷ
Que engraçadinho você é, hein?
ꟷ
Olha, tenho uma coisa engraçada sobre minha alergia. Por conta do rosto ficar
vermelho, queimando, empipocado toda vez que eu fazia a barba, precisei ir me
consultar com uma dermatologista.
ꟷ
Ela te revelou que existe aparelho pra pele sensível? Bingo!
ꟷ
Não. Ela receitou creme e, pra tomar, um antialérgico.
ꟷ
Amigo, que médica mais chatinha.
ꟷ
Pachorrento fui eu, amiga, uma vez que meti na ficha do cadastro que a minha
profissão era, veja só, que eu era... escritor.
ꟷ
Lamento te decepcionar, amigo, mas você é escritor.
ꟷ
Naquela época, eu não tinha nada escrito. Hoje, já que eu tenho crônicas
publicadas, eu não erraria se preenchesse: escrevinhador.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 14 de setembro de 2025.
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