quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Chorinho

 

Chorinho

 

Nem pergunte o que eu penso, pois não pretendo confessá-lo. Digo apenas o que me seja conveniente, ainda mais se disfarço o quanto é divertido rir por dentro, rir desbragadamente.

Eu ri porque a cena que presenciei foi patética, e foi tão bizarra que continuo rindo. Pornograficamente a riso solto, sem peias.

O que dá motivo para não me conter?

Vi um sujeito virar um copo de pinga. Vi o dono do bar entregar uma toalhinha. Sem piscar, o homem que bebeu a pinga numa golada foi à pia junto à porta do banheiro. Lavou as mãos, lavou-as bem.

Notei que, ao lavar-se, ele fazia o biquinho de quem assobia, quiçá mentalizando Inútil, do Ultraje a Rigor.

O que ninguém disse, nem confirmo, é que, para não ter confusão, a toalhinha era para frear a gastança das toalhas de papel.

Limpo e seco, o homem veio sentar-se no banquinho.

O dono do bar nunca se vangloriou de que tinha na clientela um pau d’água acerbamente motivado a se livrar dos resquícios da branquinha, pois o que amargura esse homem cuidadoso é que pinguços são gente que se emporcalha, mas ele, o dono do bar, é solidário com o borracho que tem ojeriza de quem transpira álcool.

Olhando-me de soslaio, o dono do bar queria que eu não caísse na besteira de rir, comentar ou fazer o mesmo que o camarada, ir lavar as mãos depois de entornar o lavrado da puríssima.

Quando simular inocência é um bom jeito de senti-la, embora fosse engraçado, não disse que era um troço que eu nunca tinha visto, algo pitoresco, algo risível, mas eu virei o copo, lavei as mãos, enxuguei-as com duas toalhas de papel.

Sem rir, retomei o meu posto.

E tudo como dantes?

Atrás do balcão, o dono do bar olhava-me com o canto dos olhos; pouco a fim de questionar-me o porquê da gracinha, o homem de mãos limpas olhava pro chão.

O meditabundo olhou-me, mas o seu olhar não deu comigo, embora eu estivesse a meio metro de si, eu me preservasse ao alcance de uma cusparada.

As minhoquinhas provocavam os clarões que me punham ansioso. Por que raios o camarada lava as mãos mesmo depois de desrespeitar o santo? Aliás, razão, santo insultado concede perdão? A tempestade iluminava as respostas, só que minhoquinhas não falam.

Enquanto bebíamos, não ousei dizer o que havia entendido.

Entendi, mas não abri a boca nem a abrirei agora, porque entidades tão sensíveis não vacilam.

Então, sensato é o santo que não bebe? Aquele que não bebe nem quando a cachola faz as mãos tremerem? Um santo de Carrara escuta o suor escorrendo?

A verdade é que o sujeito que me ensinou a beber a dose toda não apontou o chão, não puxou o ar, não teve de falar o óbvio: esse negócio de virar o primeiro teco de toda dose é maracutaia das grandes, porque o dono do bar vende mais bebida, lucra mais e expulsa a gente quando quer, alegando que o chão está imundo, fedendo, escorregadiço.

Tudo por culpa nossa, amor, pois veneramos um santo troncho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de setembro de 2025.

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