Nem pergunte o que eu penso, pois não pretendo
confessá-lo. Digo apenas o que me seja conveniente, ainda mais se disfarço o
quanto é divertido rir por dentro, rir desbragadamente.
Eu ri porque a cena que presenciei foi
patética, e foi tão bizarra que continuo rindo. Pornograficamente a riso solto,
sem peias.
O que dá motivo para não me conter?
Vi um sujeito virar um copo de pinga. Vi
o dono do bar entregar uma toalhinha. Sem piscar, o homem que bebeu a pinga
numa golada foi à pia junto à porta do banheiro. Lavou as mãos, lavou-as bem.
Notei que, ao lavar-se, ele fazia o
biquinho de quem assobia, quiçá mentalizando Inútil, do Ultraje a Rigor.
O que ninguém disse, nem confirmo, é que,
para não ter confusão, a toalhinha era para frear a gastança das toalhas de
papel.
Limpo e seco, o homem veio sentar-se no
banquinho.
O dono do bar nunca se vangloriou de que
tinha na clientela um pau d’água acerbamente motivado a se livrar dos
resquícios da branquinha, pois o que amargura esse homem cuidadoso é que
pinguços são gente que se emporcalha, mas ele, o dono do bar, é solidário com o
borracho que tem ojeriza de quem transpira álcool.
Olhando-me de soslaio, o dono do bar queria
que eu não caísse na besteira de rir, comentar ou fazer o mesmo que o camarada,
ir lavar as mãos depois de entornar o lavrado da puríssima.
Quando simular inocência é um bom jeito
de senti-la, embora fosse engraçado, não disse que era um troço que eu nunca tinha
visto, algo pitoresco, algo risível, mas eu virei o copo, lavei as mãos,
enxuguei-as com duas toalhas de papel.
Sem rir, retomei o meu posto.
E tudo como dantes?
Atrás do balcão, o dono do bar olhava-me
com o canto dos olhos; pouco a fim de questionar-me o porquê da gracinha, o homem
de mãos limpas olhava pro chão.
O meditabundo olhou-me, mas o seu olhar
não deu comigo, embora eu estivesse a meio metro de si, eu me preservasse ao
alcance de uma cusparada.
As minhoquinhas provocavam os clarões
que me punham ansioso. Por que raios o camarada lava as mãos mesmo depois de
desrespeitar o santo? Aliás, razão, santo insultado concede perdão? A tempestade
iluminava as respostas, só que minhoquinhas não falam.
Enquanto bebíamos, não ousei dizer o que
havia entendido.
Entendi, mas não abri a boca nem a abrirei
agora, porque entidades tão sensíveis não vacilam.
Então, sensato é o santo que não bebe? Aquele
que não bebe nem quando a cachola faz as mãos tremerem? Um santo de Carrara escuta
o suor escorrendo?
A verdade é que o sujeito que me ensinou
a beber a dose toda não apontou o chão, não puxou o ar, não teve de falar o
óbvio: esse negócio de virar o primeiro teco de toda dose é maracutaia das
grandes, porque o dono do bar vende mais bebida, lucra mais e expulsa a gente
quando quer, alegando que o chão está imundo, fedendo, escorregadiço.
Tudo por culpa nossa, amor, pois
veneramos um santo troncho.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de setembro de 2025.
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