terça-feira, 2 de setembro de 2025

Chamando gente

 

Chamando gente

 

Em vez de sentado no fundo da lanchonete, o garoto ficaria melhor na foto tirando a sesta no sofá da sua casa, mas ele não resistiu de vir comer coxinha, uma vez que criança, e não importa o quão sessentona ela seja, tem dessas lombrigas lúbricas.

A tamborilar os dedos no tampo da mesa a cada vez que fazia um novo pedido de fritura, sem se dar conta das arcadas superior e inferior a friccionarem-se, eventualmente pigarreando, o guri não chega a suar neste propósito de passar-se por um velhinho desinteressado do papo dos homens junto ao balcão.

Dividindo outra cerveja, a quarta, pelo número de cascos no tampo do balcão, eles conversam ao sabor dos assuntos que vão pipocando, seja porque a notícia na tevê instigue a comentá-la, seja porque algum freguês fala algo que estimule a uma segunda opinião.

Como os palpiteiros são dois, as divergências são muitas.

ꟷ Digo que um homem é um indivíduo, uma mulher é uma pessoa. Já você diz que dois homens são?

ꟷ Ora, dois homens são uma dupla.

ꟷ E duas mulheres?

ꟷ Ora, ora, duas mulheres formam uma dupla.

ꟷ Meu caro, e se forem muitas mulheres?

ꟷ É óbvio, muitas mulheres são a mulherada.

ꟷ Quando se reúnem muitos homens?

ꟷ Meu caro, homens ordeiros são a força da nação.

ꟷ Aleluia! Você é dos meus.

ꟷ Evidente! É da união da nossa gente que surge o povo.

De acordo com a corrente versão da Novíssima Gramática Política Brasileira, cuja edição de 1992 foi ampliada em 2016, “vós” é voz mais que perfeita a reger (oculta) a “nós” e a quem somos “eles”.

De costas para a rua, fumando, o homem vai bebericando a cerveja sem temor exasperado pela segurança de filhos e netos e da primeira bisnetinha que está para nascer, uma vez que, de momento, sua maior preocupação são os fios mais negros que as asas da graúna.

De olho na TV, fumando, o homem de rabinho de cavalo, de quando em quando, passa um lenço no topo nu da cabeça, pois a cerveja não ameniza o calor, nem depois de garantir que o elástico ainda prende o seu rabicho gris.

O suarento usa relógio, mas ele não o usa para ver as horas, já que o mostrador está voltado para o braço. Então, pela exibição inusual do relógio, o distinto é mais uma figurinha premiada da cidade.

Contam que o famigerado acredita que o corpo tem o coração para dar-lhe a energia do pulso, já o relógio tem a bateria para fazer as suas geringonças funcionarem.

Assim, a pele percebe que o relógio não é outra máquina qualquer, é um tipo especial de coração, cujo organismo foi criado para a mente se orientar mecanicamente.

Eis o grande achado: o corpo capta o que os ponteiros transmitem, uma vez que, segundo a segundo, um a um, o coração resguarda-se de ansiedades, mantém-se em concomitância com o tempo do mundo; assim, criatura, ninguém entope as veias com discordâncias.

Com papais e mamães ligados na tevê, a esperança é a criançada continuar brincando na rua.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de setembro de 2025.

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