Em vez de sentado no fundo da
lanchonete, o garoto ficaria melhor na foto tirando a sesta no sofá da sua casa,
mas ele não resistiu de vir comer coxinha, uma vez que criança, e não importa o
quão sessentona ela seja, tem dessas lombrigas lúbricas.
A tamborilar os dedos no tampo da mesa a
cada vez que fazia um novo pedido de fritura, sem se dar conta das arcadas
superior e inferior a friccionarem-se, eventualmente pigarreando, o guri não
chega a suar neste propósito de passar-se por um velhinho desinteressado do
papo dos homens junto ao balcão.
Dividindo outra cerveja, a quarta, pelo
número de cascos no tampo do balcão, eles conversam ao sabor dos assuntos que vão
pipocando, seja porque a notícia na tevê instigue a comentá-la, seja porque
algum freguês fala algo que estimule a uma segunda opinião.
Como os palpiteiros são dois, as divergências
são muitas.
ꟷ Digo que um homem é um indivíduo, uma
mulher é uma pessoa. Já você diz que dois homens são?
ꟷ Ora, dois homens são uma dupla.
ꟷ E duas mulheres?
ꟷ Ora, ora, duas mulheres formam uma
dupla.
ꟷ Meu caro, e se forem muitas mulheres?
ꟷ É óbvio, muitas mulheres são a
mulherada.
ꟷ Quando se reúnem muitos homens?
ꟷ Meu caro, homens ordeiros são a força
da nação.
ꟷ Aleluia! Você é dos meus.
ꟷ Evidente! É da união da nossa gente
que surge o povo.
De acordo com a corrente versão da
Novíssima Gramática Política Brasileira, cuja edição de 1992 foi ampliada em
2016, “vós” é voz mais que perfeita a reger (oculta) a “nós” e a quem somos
“eles”.
De costas para a rua, fumando, o homem
vai bebericando a cerveja sem temor exasperado pela segurança de filhos e netos
e da primeira bisnetinha que está para nascer, uma vez que, de momento, sua
maior preocupação são os fios mais negros que as asas da graúna.
De olho na TV, fumando, o homem de rabinho
de cavalo, de quando em quando, passa um lenço no topo nu da cabeça, pois a cerveja
não ameniza o calor, nem depois de garantir que o elástico ainda prende o seu rabicho
gris.
O suarento usa relógio, mas ele não o
usa para ver as horas, já que o mostrador está voltado para o braço. Então,
pela exibição inusual do relógio, o distinto é mais uma figurinha premiada da
cidade.
Contam que o famigerado acredita que o
corpo tem o coração para dar-lhe a energia do pulso, já o relógio tem a bateria
para fazer as suas geringonças funcionarem.
Assim, a pele percebe que o relógio não
é outra máquina qualquer, é um tipo especial de coração, cujo organismo foi
criado para a mente se orientar mecanicamente.
Eis o grande achado: o corpo capta o que
os ponteiros transmitem, uma vez que, segundo a segundo, um a um, o coração
resguarda-se de ansiedades, mantém-se em concomitância com o tempo do mundo; assim,
criatura, ninguém entope as veias com discordâncias.
Com papais e mamães ligados na tevê, a
esperança é a criançada continuar brincando na rua.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de setembro de 2025.
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