quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A explicação menos absurda

 

A explicação menos absurda

 

Era um ateu que comia miojo.

Que eu saiba muita gente come miojo, mas não conheço outro ateu que gostasse tanto de comer miojo, mesmo de bacon.

Para deixar de bobagem, o bom senso reza que eu admita que não conheço cristãos, e outros crentes, que agradeçam por miojo.

Sou grato a ele que tenha me ensinado a ter pressa. Não minto que me entusiasmo quando fico apressado. Mentira maior é o miojo não ter acompanhamento, vindo até mesmo sem salsicha. Miojo só miojo, para não passar um minuto, ou a gratidão se perderá, será blasfêmia.

Digo que não me furto a agir, afirmando-me ridículo, insolente. Mais iconoclasta, encanta-me salsicha sem nada, uma vez que salsicha com molho implica que a camiseta seja usada feito guardanapo.

Tenho quarenta e dois anos, sei o quanto me orgulha estufar o peito para dizer o quanto valorizo ter respingos na minha camiseta.

Não calculo quantos miojos já comi na vida e nunca contei quantas camisetas foram marcadas por molho. Mas, o que tenho na memória é o dia em que fui ao enterro daquele ateu comedor de miojo, porque foi então que descobri, pelo escrito na sua lápide, que ele era ateu graças a deus.

Além do mais, ele era ateu. Você e eu sabemos do que é capaz um ateu. Ateu é gente que espirra como se não comesse carne de porco. Como criança que escova os dentes, ateu urina antes de dormir. Ateu não atrasa o pagamento do cartão, parcela o restante das parcelas. E o mais impressionante: quando ajoelha, ateu arranca manjericão para melhorar o molho da salsicha.

Sei que o mundo está menos idiota depois desta minha percepção, que o mundo parece-me menos idiota porque a sepultura daquele ateu omite a revelação: aqui jaz um fanático de miojo, até de bacon.

Aquele ateu, tenho que falar dele. Não esconderei o assombro. Li o seu nome completo e assombrei-me. A sepultura deste ateu revela-me que o meu sobrenome vem do seu. Morto e enterrado, descubro que a sua e a minha vida têm entrelaçamentos.

Também como miojo, mas eu não como bacon. Também escovo os dentes antes de mijar, antes de deitar-me, antes de verificar que esteja ligado o despertador do celular.

Por que não urino no rio? Por que mijo no prato?

Ainda que eu pague o pato, lutarei pra distinguir a pessoa que come miojo de bacon, a pessoa que põe salsicha no molho de manjericão e a pessoa que estranha o convite para testemunhar o sepultamento de um desconhecido, alguém, outro beltrano chamado Amílcar.

Por coincidência, é Amílcar.

Até que o sobrenome acompanhe o nome, até que a frase na pedra estimule, até o estímulo trazer notícias desse mundo, até que acorde, urine e volte a deitar-se, pois amanhã será sexta-feira, não será outro sábado tão miserável.

Pelo relato, é pertinente dizer: sem ninguém sóbrio pra saber o quão alucinógeno o bicho é, este Amílcar só terá larica doze horas após ter lambido o sapo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de setembro de 2025.

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