Era
um ateu que comia miojo.
Que
eu saiba muita gente come miojo, mas não conheço outro ateu que gostasse tanto
de comer miojo, mesmo de bacon.
Para
deixar de bobagem, o bom senso reza que eu admita que não conheço cristãos, e
outros crentes, que agradeçam por miojo.
Sou
grato a ele que tenha me ensinado a ter pressa. Não minto que me entusiasmo
quando fico apressado. Mentira maior é o miojo não ter acompanhamento, vindo até
mesmo sem salsicha. Miojo só miojo, para não passar um minuto, ou a gratidão se
perderá, será blasfêmia.
Digo
que não me furto a agir, afirmando-me ridículo, insolente. Mais iconoclasta, encanta-me
salsicha sem nada, uma vez que salsicha com molho implica que a camiseta seja
usada feito guardanapo.
Tenho
quarenta e dois anos, sei o quanto me orgulha estufar o peito para dizer o
quanto valorizo ter respingos na minha camiseta.
Não
calculo quantos miojos já comi na vida e nunca contei quantas camisetas foram marcadas
por molho. Mas, o que tenho na memória é o dia em que fui ao enterro daquele
ateu comedor de miojo, porque foi então que descobri, pelo escrito na sua
lápide, que ele era ateu graças a deus.
Além
do mais, ele era ateu. Você e eu sabemos do que é capaz um ateu. Ateu é gente
que espirra como se não comesse carne de porco. Como criança que escova os
dentes, ateu urina antes de dormir. Ateu não atrasa o pagamento do cartão,
parcela o restante das parcelas. E o mais impressionante: quando ajoelha, ateu
arranca manjericão para melhorar o molho da salsicha.
Sei
que o mundo está menos idiota depois desta minha percepção, que o mundo
parece-me menos idiota porque a sepultura daquele ateu omite a revelação: aqui
jaz um fanático de miojo, até de bacon.
Aquele
ateu, tenho que falar dele. Não esconderei o assombro. Li o seu nome completo e
assombrei-me. A sepultura deste ateu revela-me que o meu sobrenome vem do seu.
Morto e enterrado, descubro que a sua e a minha vida têm entrelaçamentos.
Também
como miojo, mas eu não como bacon. Também escovo os dentes antes de mijar,
antes de deitar-me, antes de verificar que esteja ligado o despertador do
celular.
Por
que não urino no rio? Por que mijo no prato?
Ainda
que eu pague o pato, lutarei pra distinguir a pessoa que come miojo de bacon, a
pessoa que põe salsicha no molho de manjericão e a pessoa que estranha o
convite para testemunhar o sepultamento de um desconhecido, alguém, outro beltrano
chamado Amílcar.
Por
coincidência, é Amílcar.
Até
que o sobrenome acompanhe o nome, até que a frase na pedra estimule, até o
estímulo trazer notícias desse mundo, até que acorde, urine e volte a deitar-se,
pois amanhã será sexta-feira, não será outro sábado tão miserável.
Pelo
relato, é pertinente dizer: sem ninguém sóbrio pra saber o quão alucinógeno o
bicho é, este Amílcar só terá larica doze horas após ter lambido o sapo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 25 de setembro de 2025.
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