A correria virou rotina. Da casa pro
serviço, num pé. Do serviço para o restaurante, corre. Do almoço pro batente,
sem fio dental. Por óbvio, o corre-corre vai minando a mente, pois a vida não
sendo batalhada é uma luta não vencida.
Corre sem fingimento. Pode correr sem
medo, pois não bebe. Nem lembra quando foi o último porre. Deve ter sido no
tempo de estudante, dias em que nem tinha dinheiro para gastá-lo à toa.
Vomitava. E tudo bem, acabava se recuperando. E quando foi a última ressaca? É
perda de tempo forçar-se a lembrar quando foi, porque a vida era outra, sem ter
oportunidades para ganhar din-din, assim a passo.
Corre, imaginando sentir, eventualmente
quando tropeça, o quanto deve ser gostoso viver de porre em porre. Queria
apreciar o momento, queria andar sem afobação, sem atropelamento e sem temer
tropeços. Contudo, aflige-o um tropeço ou outro. Vai no corre, vai desejando
uma moringa de água mineral, e desejá-la tem um quê afrodisíaco.
Corre, sua, quer uma garrafa de água. De
preferência, gelada e com gás, a ser bebida no gargalo. O primeiro gole é no
gargalo. Depois, põe no copo. E só depois, vê o rapaz, cuja cara diz o quanto
está acelerado. O segundo gole é um deleite. Os demais são deliciosos. Gosta do
gás. Com a correria suspensa, tem esta garrafa pra ser bebida, né?
Se não corre, nem precisa olhar os
preços, pois não pedirá vermute ou rum ou batida de morango. Como não vai sair
correndo:
ꟷ Me vê um suco de maracujá.
Adoça-o e experimenta. Põe mais açúcar,
saboreia, aprova e toma. Embora o mundo o queira de volta na correria, beberica
numa boa.
Acha graça, vê-se no rapaz que faz o
queijo quente, lava os copos, tira o expresso, faz o que faz porque pensa no
dinheirinho que o patrão lhe paga, pensa no salário que o emprego lhe rende.
Sempre tem o que pagar, por isso corre.
Como tem pelo que correr, volta à rua, corre à larga, volta à bancada, avança
sobre as horas, abre planilhas, fala ao telefone. Como não surta, trabalha.
Justamente por correr a semana toda, a
sexta chega e deve honrar o compromisso, tem que seguir pro jantar.
Jantam.
Tem coisa no dente. Saiu? Nada. E agora?
Nem pra se limpar! É o quê? É alface. Tirou? Claro, imbecil!
Além de imbecil, parvo. Com tanto medo
de morder a língua.
Tem outra coisa no dente. De novo? É
fiapo de frango. Sério? Claro, idiota! Não acho você mentirosa. É bom que não
ache, ou vai levar uns tapas, seu assanhado!
Sim, ele é atirado. Tem pressa para
fazer tudo certo. É mesmo! Ele quer ser o melhor companheiro com que a mulher
tivesse sonhado. Ele é sério. Por isso, o que o põe nervoso é fazer tudo sem
errinho algum. A mulher conta que seja homem, seja um cara esperto.
Vai pedir sobremesa? Café. Café? Café,
seu doente, café!
Peraí... Saquei... E daí que faltem nove
parcelas, porque meu novo piano tem até vãozinho entre os dentes, que baita
belezura.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de setembro de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário