Hoje,
como ontem, é um dia frio, garoento, de pouca gente na rua, é dia em que os
vira-latas também preferem ficar entocados, sumidos. Hoje é dia para
recolhimento, para cobrir-se, para um café passado na hora, para a pipoca que faltou
ontem.
Pensando
bem, hoje é um dia para a cabeça dispensar avisos. Sem pôr a água no fogo e sem
medir o pó, sem pegar o milho para pô-lo na panela, nada de ligar o gás, pois pensar-se
enfarado é cansar-se.
Ainda
mais que hoje é segunda-feira. É uma segunda-feira fria, com a língua do frio falando
suas intermitências. Querer entendê-las? Até a vontade de refletir sobre os
intervalos, sobre as intermitências, também ela é cansativa. Ainda que o vento estabeleça
padrões, cansa querê-lo traduzido. Que o vento passe, o vento venha e que seja possível
vê-lo vindo e passando, que as folhas tremeliquem. Quando lambida pelo frio que
passa, qualquer árvore enregela-se toda.
Mesmo
frio e garoento, é dia da padroeira, é dia de Nossa Senhora das Dores, é dia
para recusar cansaços, todos, não apenas os esforços vãos, os tédios cabotinos,
que hoje seja dia pra tomá-lo bem como ele se apresenta.
Sem
desânimos que chateiem, seja bom, ótimo, seja um excelente dia para entender-se
na rede, porque, sem misticismos que modorrem, é auspicioso entender-se vão e
entediado, é razoável que se indique o quanto é conveniente tirar a sesta. Mas
o ajuizado capture o alerta dos pelos eriçados: saudável é quedar-se no quentinho
do sofá.
Hoje
é dia de Nossa Senhora das Dores. Quando é feriado, o tédio é desculpa. Eu sequer
vou à lavanderia. Muito me entristeceria dar com o cesto cheio. Me aborreceria
a ideia de lavar roupa. Desincumbo-me das tarefas. Abdico-me de dar banho nos
cachorros. Não vou varrer a varanda e não vou deitar-me na rede. Ainda, não vou
acender vela.
Mal
saio à rua, uma vez que Dona Cremilda ligou convidando para almoçar, uma varetona
cenoura de bermuda, camiseta regata e óculos espelhados troca um picolé por dois
reais.
Se
o picolé não fosse de limão, eu teria dois reais trocados.
Indo
para a casa de Dona Cremilda, sem lenço e sem carteira, levo no bolso mais de
um quilo de moedas.
Peguei
uns punhados da caixa de sapato que nem tampa tem, quiçá uns vinte reais em
moedinhas de cinco e dez centavos, peguei-as para pagar as laranjas que darão a
laranjada.
Enquanto
ando, ainda que me pesem no bolso, alegra-me a música que elas fazem, uma vez
que aquele tilintar tem ritmo, dita o meu ritmo, me faz andar satisfeito.
E
nem sei de onde vem, mas sinto uma ânsia esquisita. Quero mais moedas. Preciso ter
os dois bolsos carregados.
Entristeço-me,
que tenho apenas um bolso carregado. Triste e sem apetite, não erro nem quero
errar por aí.
Fora
da vista de quem passa, entro num boteco.
Embora
não esteja nem lambido nem mordido, chuparei o picolé de limão, chupá-lo-ei tranquilo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 16 de setembro de 2025.
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