terça-feira, 16 de setembro de 2025

Sem laranjada

 

Sem laranjada

 

Hoje, como ontem, é um dia frio, garoento, de pouca gente na rua, é dia em que os vira-latas também preferem ficar entocados, sumidos. Hoje é dia para recolhimento, para cobrir-se, para um café passado na hora, para a pipoca que faltou ontem.

Pensando bem, hoje é um dia para a cabeça dispensar avisos. Sem pôr a água no fogo e sem medir o pó, sem pegar o milho para pô-lo na panela, nada de ligar o gás, pois pensar-se enfarado é cansar-se.

Ainda mais que hoje é segunda-feira. É uma segunda-feira fria, com a língua do frio falando suas intermitências. Querer entendê-las? Até a vontade de refletir sobre os intervalos, sobre as intermitências, também ela é cansativa. Ainda que o vento estabeleça padrões, cansa querê-lo traduzido. Que o vento passe, o vento venha e que seja possível vê-lo vindo e passando, que as folhas tremeliquem. Quando lambida pelo frio que passa, qualquer árvore enregela-se toda.

Mesmo frio e garoento, é dia da padroeira, é dia de Nossa Senhora das Dores, é dia para recusar cansaços, todos, não apenas os esforços vãos, os tédios cabotinos, que hoje seja dia pra tomá-lo bem como ele se apresenta.

Sem desânimos que chateiem, seja bom, ótimo, seja um excelente dia para entender-se na rede, porque, sem misticismos que modorrem, é auspicioso entender-se vão e entediado, é razoável que se indique o quanto é conveniente tirar a sesta. Mas o ajuizado capture o alerta dos pelos eriçados: saudável é quedar-se no quentinho do sofá.

Hoje é dia de Nossa Senhora das Dores. Quando é feriado, o tédio é desculpa. Eu sequer vou à lavanderia. Muito me entristeceria dar com o cesto cheio. Me aborreceria a ideia de lavar roupa. Desincumbo-me das tarefas. Abdico-me de dar banho nos cachorros. Não vou varrer a varanda e não vou deitar-me na rede. Ainda, não vou acender vela.

Mal saio à rua, uma vez que Dona Cremilda ligou convidando para almoçar, uma varetona cenoura de bermuda, camiseta regata e óculos espelhados troca um picolé por dois reais.

Se o picolé não fosse de limão, eu teria dois reais trocados.

Indo para a casa de Dona Cremilda, sem lenço e sem carteira, levo no bolso mais de um quilo de moedas.

Peguei uns punhados da caixa de sapato que nem tampa tem, quiçá uns vinte reais em moedinhas de cinco e dez centavos, peguei-as para pagar as laranjas que darão a laranjada.

Enquanto ando, ainda que me pesem no bolso, alegra-me a música que elas fazem, uma vez que aquele tilintar tem ritmo, dita o meu ritmo, me faz andar satisfeito.

E nem sei de onde vem, mas sinto uma ânsia esquisita. Quero mais moedas. Preciso ter os dois bolsos carregados.

Entristeço-me, que tenho apenas um bolso carregado. Triste e sem apetite, não erro nem quero errar por aí.

Fora da vista de quem passa, entro num boteco.

Embora não esteja nem lambido nem mordido, chuparei o picolé de limão, chupá-lo-ei tranquilo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de setembro de 2025.

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