Na
parte dianteira do terreno em que está construída a minha casa, há um jardim.
Neste jardim, faltam ipês. Eu queria um branco, um rosa e outro vermelho, mas o
que cresce aí é um pinheirinho.
Este
pinheiro não foi plantado por nenhum dos meus antepassados, quem o semeou,
aguou e contou-lhe segredinhos foi um japonês.
Ele
era realmente japonês, não por cultivar bonsais, comer sashimis e falar
mansinho com as plantas, ele era nipônico pela intimidade com que tratava o sol
nascente, considerando-o pai.
A
razão para mencionar este amante da natureza é que ele plantou a maioria dos
ipês da cidade, os quais, anualmente, desabrocham suas flores, encantando-nos a
tantos de nós, pessoinhas que sabemos usar hashi de modo a dar na vista que
somos panacas, não boçais.
Gosto
de sentar na praça José Mendes, porque ela é pequena, sem sombra de árvore e,
justamente, pouca gente vem ocupá-la. Sento-me e fico em silêncio, observando
os passarinhos. Tranquiliza-me a mente observar os ipês bailando ao sabor da
brisa. Gosto de ser tocado pela brisa da manhã, tanto ponho gosto que percebo a
gentileza do solzinho no rosto, a sombrear na minha ideia: vem vindo a
primavera.
Os
ipês que não tenho em casa nem estão nesta praça dão colorido à Capitão Manoel
de Oliveira Carvalho; plantados ao longo da avenida, os de plantio mais recente
têm copas de densidade menor, os de maior porte têm galhos mais cheios; todos,
ainda bem, são vida, dão alegria, tão contrastantes à geometria planejada das edificações.
É
agradável vê-los ao vento, assim florescentes, me apraz a beleza, tanto é fascinante
o movimento das flores que não me ocorre constatar que, por sobre os ombros, às
costas, à minha direita, a parte morta da família segue sepultada, quiçá tal
quinhão confraternize-se em paz.
Por
haver poucos vivos que me chamam pelo nome, fico mouco.
Bebericando
uma latinha, o amigo conta que esteve na festa de sete anos do neto. Ficou o
quanto pôde. A patifaria começou quando pegou um espetinho. Só mesmo ele para ter
esquecido que os coraçõezinhos eram pro sogro da filha. Viu a sogra da filha, quis
saber se continuava a pintar. Só um canalha para ser tão insensível, já que a
mãe do marido da filha tem Parkinson. Uma parente distante do marido da filha
pediu que batesse uma foto, o celular tremeu. A filha tomou-lhe o celular, que fosse
fazer o que melhor fazia, ele fosse beber cerveja. Ele foi, abriu a geladeira e
abriu a latinha. O marido da filha fez o mesmo, e recostou-se na porta. Pra não
virar bate-boca, tratou de ir pegar a carne que lhe dessem. Deram um pratinho
com farofa e rodelas de linguiça. Queriam-no fora da festa, daí que não lhe serviram
a linguiça inteira no pãozinho. Ficou óbvio. Panacas, não iria sorrir pra não arruinar
a foto. Que gente bocó. É óbvio. Se os espertinhos não facilitam, tchau e bença.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 23 de setembro de 2025.
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