terça-feira, 23 de setembro de 2025

Tome tento, Teobaldo

 

Tome tento, Teobaldo

 

Na parte dianteira do terreno em que está construída a minha casa, há um jardim. Neste jardim, faltam ipês. Eu queria um branco, um rosa e outro vermelho, mas o que cresce aí é um pinheirinho.

Este pinheiro não foi plantado por nenhum dos meus antepassados, quem o semeou, aguou e contou-lhe segredinhos foi um japonês.

Ele era realmente japonês, não por cultivar bonsais, comer sashimis e falar mansinho com as plantas, ele era nipônico pela intimidade com que tratava o sol nascente, considerando-o pai.

A razão para mencionar este amante da natureza é que ele plantou a maioria dos ipês da cidade, os quais, anualmente, desabrocham suas flores, encantando-nos a tantos de nós, pessoinhas que sabemos usar hashi de modo a dar na vista que somos panacas, não boçais.

Gosto de sentar na praça José Mendes, porque ela é pequena, sem sombra de árvore e, justamente, pouca gente vem ocupá-la. Sento-me e fico em silêncio, observando os passarinhos. Tranquiliza-me a mente observar os ipês bailando ao sabor da brisa. Gosto de ser tocado pela brisa da manhã, tanto ponho gosto que percebo a gentileza do solzinho no rosto, a sombrear na minha ideia: vem vindo a primavera.

Os ipês que não tenho em casa nem estão nesta praça dão colorido à Capitão Manoel de Oliveira Carvalho; plantados ao longo da avenida, os de plantio mais recente têm copas de densidade menor, os de maior porte têm galhos mais cheios; todos, ainda bem, são vida, dão alegria, tão contrastantes à geometria planejada das edificações.

É agradável vê-los ao vento, assim florescentes, me apraz a beleza, tanto é fascinante o movimento das flores que não me ocorre constatar que, por sobre os ombros, às costas, à minha direita, a parte morta da família segue sepultada, quiçá tal quinhão confraternize-se em paz.

Por haver poucos vivos que me chamam pelo nome, fico mouco.

Bebericando uma latinha, o amigo conta que esteve na festa de sete anos do neto. Ficou o quanto pôde. A patifaria começou quando pegou um espetinho. Só mesmo ele para ter esquecido que os coraçõezinhos eram pro sogro da filha. Viu a sogra da filha, quis saber se continuava a pintar. Só um canalha para ser tão insensível, já que a mãe do marido da filha tem Parkinson. Uma parente distante do marido da filha pediu que batesse uma foto, o celular tremeu. A filha tomou-lhe o celular, que fosse fazer o que melhor fazia, ele fosse beber cerveja. Ele foi, abriu a geladeira e abriu a latinha. O marido da filha fez o mesmo, e recostou-se na porta. Pra não virar bate-boca, tratou de ir pegar a carne que lhe dessem. Deram um pratinho com farofa e rodelas de linguiça. Queriam-no fora da festa, daí que não lhe serviram a linguiça inteira no pãozinho. Ficou óbvio. Panacas, não iria sorrir pra não arruinar a foto. Que gente bocó. É óbvio. Se os espertinhos não facilitam, tchau e bença.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de setembro de 2025.

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