Está
decidido, telefonarei assim que a raiva diminuir. É melhor ligar, pois não vou
discutir com vendedor. Quero me acalmar, pois não gostei de ser ludibriado. Eu
não compraria uma torneira que não dá rosca. Se me empurraram a melhor, Mariana,
então, a torneira precisa valer cada centavinho que foi gasto.
Para
não dar motivos que o ataquem como idiota, Adalberto segue o conselho. Entra no
site da loja, procura a marca e o modelo. Certifica-se de que vendem na
voltagem certa. Vê quanto vai lhe custar. Menos mal, por haver descoberto que terá
direito à devolução.
Adalberto
pensa no bom uso da diferença, pois tem aquela flâmula no caminho. Merece o mimo.
Pagará com gosto. Com o time invicto há meses, anda tão feliz. Jogar em casa ou
fora, são três pontos na certa. É justo que se premie, pois ele sabe que o caneco
está no papo.
ꟷ
Adalberto, amigão. Quer que instale a torneira? Coloco no lugar rapidinho. Daí a
gente vai tomar cerveja. Pode ser?
Poderia;
ele pôde.
Como
todos os caminhos levam ao bar, estavam a caminho.
ꟷ
Olha lá aquele cara. Faz com a mão que o viu. É o chato que faz o que a gente sabe
que ele vai fazer. Você acena, ele buzina... Eu não falei? É batata, Adalberto.
A
uma quadra do bar:
ꟷ
Amigão, que sorte! Olha ali o chato que gosta que a gente acene. Por
curiosidade, vamos ver o que ele vai fazer. Ficamos atrás dele até confirmar o
que nós sabemos, que ele vai fingir que não nos vê. Então, a gente cumprimenta.
Para ter certeza de que ele nem vai vir falar com a gente, vamos acenar de
longe. Não duvide, Adalberto. O xarope vai acenar de volta só para não ficar feio.
Mas nós não somos xaropes que nem ele. Assim, satisfeitos, nós dois vamos
embora.
Sem
lugar lá dentro, há mesas disponíveis na calçada.
Falam
da festa em que se viram. Acham que a caçula do Valdo faz bem em ir para a França.
Mesmo que a bolsa não dê pros vinhozinhos, ela só vai dançar tango no Arco do Triunfo
se quiser salpicão de frango com alcaparras.
ꟷ
O Anacleto fez pós em Paris. Ele falou pro Valdo que, faz poucos anos, sua
filha também estudou lá. O Anacleto disse que o dinheiro da bolsa era o bastante
pra pagar aluguel, almoçar em bistrô e ouvir missa na Notre-Dame.
Passa
uma garota com um shin tzu. Vem outra garota com um lhasa apso. Tanto um como o
segundo, os cãezinhos passam embonecados, ambos têm lacinho cor-de-rosa.
ꟷ
O Anacleto sempre fala que a gente não deve fazer gracinha só porque uma garota
passa com seu bichinho de estimação.
Estirado
no sofá, com a cabeça no colo de Mariana, Adalberto pede sinceridade, que fale sem
medo.
Será
que, por acaso, ele não é do tipo de gente que só dá bom-dia a quem, primeiro, lhe
dá bom-dia? Não seria bom se ouvisse quem tem bons conselhos?
ꟷ
Quem?
ꟷ
Quem sabe alguém como o Anacleto...
ꟷ
Hein!! Você acha que terapia custa pouco?
Caríssimo
Adalberto, o tal, sendo psiquiatra, não é barato.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 28 de setembro de 2025.
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