domingo, 31 de agosto de 2025

Jokenpô

 

Jokenpô

 

Late em mim um coração danado. Poderia pulsar menos apertado, que eu agradeceria. Não que me seja um aperto górdio a pedir espada que o resolva de vez, extirpando o mal, porque a faceta demoníaca me apimenta e dela, dessa carranca que diz o meu nome a dizer-me outro, não me quedo livre nem que eu me mascare libertado, portanto livre.

Libertação é ato, é praticar a liberdade, mas a morte não liberta, ela mata, extingue, finaliza; sim e finalmente, a morte é arrematadora.

Arrematar não é ver-se livre, é não mais ver-se excluído, não é mais situar-se à margem por vontade, é não mais posicionar-se à parte em prol das partes marginalizadas pelas vontades de terceiros, não é mais voltar o espelho às faces que manipulam os fins manejando os punhos, até porque é um negocinho satânico de ruim tratar a morte como sendo outra coisa, como se arrematação fosse o toque final, dando ao fetiche o papel de sacada esplêndida, maravilhosa, divina.

Tudo bem, admito latir em mim um chihuahua bem zureta, um bicho a correr atrás do próprio rabo, que dispara alimentar-se dos latidos que muito o divertem, até porque, quando não há morte nem ressurreição, o que há são os efeitos colaterais de uma vacina.

Para padecer algumas reações adversas, na quinta passada fui ao posto de saúde mais próximo, fui tomar a quarta, quiçá a quinta, dose da vacina que dê proteção contra certo coronavírus já meio esquecido, um que foi nomeado SARS-Cov-2.

Bem que eu podia ter ficado de boa, ignorando este vírus que segue à espreita, faz tocaia, vai vigilante, preparado para assaltar-me, a mim que não sou fascista, entreguista, um bebedor do ki-suco de quem não tem caninos assanhados, não mostra predileção tarada por jugulares, não professa aptidão para guerrilhas.

Bobo que é bobo, como outros tantos, ainda sigo na trincheira.

Um camarada na trincheira, embora mortinho.

Como foi que eu morri na sexta-feira?

A dor no braço onde foi aplicada a injeção, por óbvio, foi o primeiro sinal do que viria. Pouco antes de me deitar, veio a dorzinha de cabeça. Na madrugada, a vontade de adoçar a boca foi saciada com guaraná, que, por azar ou trapaça das zonas obscuras da cachola, eu comprara às vésperas daquela injeçãozinha. Por fim, mas sem menor desgrama, os calafrios ensoparam touca, camiseta, cueca e a alma.

No sábado à noite, soube que sobrevivera à ressurreição quando me bateu um cansaço muscular que não foi possessivamente dolorido nem um apocalipse calafrioso.

Tudo bem, a vida vai.

Tudo certo, o quintal tem câmeras que o guardam.

Tudo legal, corte e coorte que se entendam.

Tudo é vero, é veríssimo, aquela camarilha terá o que merece, a tal quadrilha saberá o que pode a justiça instituída, a cambada conhecerá o que tanto maldiz, porque, se me faço claro, sem pedra e sem tesoura, tal malta há de saber: rato não rói o papel da constituição.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de agosto de 2025.


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