domingo, 17 de agosto de 2025

Os dois selinhos

 

Os dois selinhos

 

Já prescreve a canção, “fundamental é mesmo o amor”. A essência permanece válida. Bem sei, porque observo um casal mergulhado em carinhos. Pera aí! Não tenho que me vexar dessa alegria que é espiar o mundo quando as circunstâncias são excitantes, é a lanchonete que está pouco movimentada. Sei, os apaixonados têm direito à intimidade; tanto quanto eu, que também espio a tevê, tenho mais que curtir o meu beirute, pois, assim ocupado, não darei fôlego a alguma tara que me impulsione a devorar a refeição sem que perceba que os meus soslaios têm fundamentação.

Pensando com o estômago, ocorre-me que é desagradável ser feliz sozinho, peço umas esfihas.

Houve dias em que, esfaimado, o mundo agitava minha luz. Foram dias em que lábios, tão encarnados no batom da revista, sussurravam verdades. Tais dias foram sonho, mas houve evoluções.

Quando vejo uma boca, mais tentadora se pintada em carmim, ouço as suas vontades, cuido de compreender como a decepciono.

Aqueles dias, porque já são idos, não cantarão o amor que poderia ter sido. Não lamento, pois os dias têm novas notícias em avalanche; são tantas que elas me aterram, pois o amor complica.

Posso escapar, pois tenho uma vida a trazer-me até mim. Revisito os escombros, reviro as ruínas. São tantas as pegadas que é privilégio tomar um rumo incerto, trocá-lo por outro, também incerto. Só que não me lamento, uma vez que os cães do futuro farejarão, amestrados para o que tenha relevância, adestrados pro que precise ter relevância.

Da conversa veio me fisgar a palavra bananica.

Imediatamente vi-me abismado no passado, num dia, numa tarde, num crepúsculo, foi quando tive a coragem de silenciar o tímido, gozei do prazer de superar a caipirice, eu escolhi ser escolhido.

Eu a convidei, e fomos. Abri o Concha y Toro, e bebemos. Dividimos um copo, nem o elegemos que fosse único. Foi a primeira no meu apê, e fomos no seu Corsa. Tomamos a garrafa; nós só fomos notá-la vazia quando nossas gargantas ficaram secas.

Não me ocorreu fazê-la pensar que eu fosse alcoólatra, pois eu abri outra garrafa. Com outro tinto da mesma marca, o nosso copo voltou a ficar cheio.

Houve cumplicidade. As nossas bocas geravam confiança, pois não falamos na quebra da quarta parede e não falamos de distanciamento crítico, e sequer nos movemos por representações brechtianas.

Para enveredar o espetáculo para outro apogeu, sem nada de épico e sem nada de dramático: bocas têm língua, saliva e tesão, portanto a carne nos sensibilizou.

Um bocado sensíveis, nós sentimos o suor, a pele suada. Sentimo-nos tão excitados que ignoramos o tapete.

Lassos, abraçadinhos, estávamos bem, tanto estávamos enlevados que, puríssimos, demo-nos dois selinhos.

ꟷ Prazer, meu nome é Aída.

ꟷ Oi, Aída. Os amigos me conhecem por Biel, mas vou gostar mais se você me quiser como Benzinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de agosto de 2025.

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