Já prescreve a canção, “fundamental é
mesmo o amor”. A essência permanece válida. Bem sei, porque observo um casal
mergulhado em carinhos. Pera aí! Não tenho que me vexar dessa alegria que é
espiar o mundo quando as circunstâncias são excitantes, é a lanchonete que está
pouco movimentada. Sei, os apaixonados têm direito à intimidade; tanto quanto
eu, que também espio a tevê, tenho mais que curtir o meu beirute, pois, assim
ocupado, não darei fôlego a alguma tara que me impulsione a devorar a refeição sem
que perceba que os meus soslaios têm fundamentação.
Pensando com o estômago, ocorre-me que é
desagradável ser feliz sozinho, peço umas esfihas.
Houve dias em que, esfaimado, o mundo
agitava minha luz. Foram dias em que lábios, tão encarnados no batom da revista,
sussurravam verdades. Tais dias foram sonho, mas houve evoluções.
Quando vejo uma boca, mais tentadora se
pintada em carmim, ouço as suas vontades, cuido de compreender como a
decepciono.
Aqueles dias, porque já são idos, não
cantarão o amor que poderia ter sido. Não lamento, pois os dias têm novas
notícias em avalanche; são tantas que elas me aterram, pois o amor complica.
Posso escapar, pois tenho uma vida a
trazer-me até mim. Revisito os escombros, reviro as ruínas. São tantas as
pegadas que é privilégio tomar um rumo incerto, trocá-lo por outro, também
incerto. Só que não me lamento, uma vez que os cães do futuro farejarão,
amestrados para o que tenha relevância, adestrados pro que precise ter
relevância.
Da conversa veio me fisgar a palavra bananica.
Imediatamente vi-me abismado no passado,
num dia, numa tarde, num crepúsculo, foi quando tive a coragem de silenciar o
tímido, gozei do prazer de superar a caipirice, eu escolhi ser escolhido.
Eu a convidei, e fomos. Abri o Concha y
Toro, e bebemos. Dividimos um copo, nem o elegemos que fosse único. Foi a
primeira no meu apê, e fomos no seu Corsa. Tomamos a garrafa; nós só fomos notá-la
vazia quando nossas gargantas ficaram secas.
Não me ocorreu fazê-la pensar que eu
fosse alcoólatra, pois eu abri outra garrafa. Com outro tinto da mesma marca, o
nosso copo voltou a ficar cheio.
Houve cumplicidade. As nossas bocas geravam
confiança, pois não falamos na quebra da quarta parede e não falamos de
distanciamento crítico, e sequer nos movemos por representações brechtianas.
Para enveredar o espetáculo para outro
apogeu, sem nada de épico e sem nada de dramático: bocas têm língua, saliva e
tesão, portanto a carne nos sensibilizou.
Um bocado sensíveis, nós sentimos o
suor, a pele suada. Sentimo-nos tão excitados que ignoramos o tapete.
Lassos, abraçadinhos, estávamos bem, tanto
estávamos enlevados que, puríssimos, demo-nos dois selinhos.
ꟷ Prazer, meu nome é Aída.
ꟷ Oi, Aída. Os amigos me conhecem por
Biel, mas vou gostar mais se você me quiser como Benzinho.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de agosto de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário