Com o patriarca no vigor dos sessenta
anos, com o pulso firme da sua cônjuge a meter a colher nos momentos críticos,
com Lúcia Maria casada com o marido certo, com Dália Cristina afeiçoada ao
consorte que muito a afortuna, sem mais, seja dito que tal família está
destinada às felicidades que tanto a distinguem.
Senhor leitor, é compreensível que se queira
entender a razão para Dália Cristina ter fechado os olhos ao inspirar o aroma da
flor recebida, o que me parece não ser nem um pouco plausível é a indagação, cadê
as sereias que não cantam?
Cantando que fique insinuado que o caos
não existe neste mundo, esta é crônica escrita para que lhe seja possível,
senhor leitor, rastrear os variados sentimentos que constam do escrito.
Com a sua vênia, senhor leitor, sigo a
querer exitosa a empreitada, que é o prazer de dar com a moral da história justamente
quando nada for preciso de ser acrescido, habilitando-o, sem mais, para a
liberdade que, creio eu, advirá aquando do instante derradeiro.
Compreender-se condicionada faz a gente acreditar
que a história contada não acoberta o que seja essencial, o que, por sua vez, implica
que as incoerências insinuam-se feito peta, induzindo-o, senhor leitor, a divertir-se,
posto que, desde o Big Bang, a vida não vai além de uma barafunda, um pandemônio
ou um caótico picadeiro.
Para que venha a ser sentido o gostinho
do que seja este picadeiro caótico, senhor leitor, eis que toques picantes são para
que o paladar perceba o mundo como guisado avesso a mixórdias insípidas.
Lúcia Maria, indubitavelmente a mais
sorridente das filhas, reina no lar que o marido instituíra para ela oferecer martírios,
onde o jardineiro teme os dentes de leão dispersados pelo noroeste, onde os
pitadaços das cozinheiras são justificativa para irem pra rua, onde a garagem tem
vagas para ele, para ela e pros novíssimos carros de Ana Beatriz e Ana
Catarina, as netinhas mais queridas do Doutor Agripino.
Uma vez que nem filhos Dália Cristina
tem, anime-se, senhor leitor, vibre estarrecido ao pegá-la empurrando um
carrinho de bebê; todavia, ao vê-la uniformizada, inteirinha de branco e
fantasiando-se uma babá, pasme-se, demonstre o choque que pode tão bem
atarantá-lo.
Chocada está Dália Cristina, pela confirmação
de que a fofoca não é falsa, pois, estacionado diante do edifício onde Belinha
mora, o SUV pertence ao filho de uma égua, àquele “marido certo”.
Para não ser desmascarada feito babá e para
ter o que respaldá-la caso necessite chantageá-lo, ela os fotografa.
Como é difícil manter-se acima de
suspeitas, o amante da babá de Ana Beatriz e Ana Catarina, pelas fotos no
celular da Belinha, sabe que a burguesinha que deprecia as tolices da vida burguesa
é outra a ser amaciada.
ꟷ Embora a formosura desta flor seja inferior
à sua, minha doce e gentil Branca de Neve, aceite-a.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de agosto de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário