domingo, 24 de agosto de 2025

Dálias

 

Dálias

 

Com o patriarca no vigor dos sessenta anos, com o pulso firme da sua cônjuge a meter a colher nos momentos críticos, com Lúcia Maria casada com o marido certo, com Dália Cristina afeiçoada ao consorte que muito a afortuna, sem mais, seja dito que tal família está destinada às felicidades que tanto a distinguem.

Senhor leitor, é compreensível que se queira entender a razão para Dália Cristina ter fechado os olhos ao inspirar o aroma da flor recebida, o que me parece não ser nem um pouco plausível é a indagação, cadê as sereias que não cantam?

Cantando que fique insinuado que o caos não existe neste mundo, esta é crônica escrita para que lhe seja possível, senhor leitor, rastrear os variados sentimentos que constam do escrito.

Com a sua vênia, senhor leitor, sigo a querer exitosa a empreitada, que é o prazer de dar com a moral da história justamente quando nada for preciso de ser acrescido, habilitando-o, sem mais, para a liberdade que, creio eu, advirá aquando do instante derradeiro.

Compreender-se condicionada faz a gente acreditar que a história contada não acoberta o que seja essencial, o que, por sua vez, implica que as incoerências insinuam-se feito peta, induzindo-o, senhor leitor, a divertir-se, posto que, desde o Big Bang, a vida não vai além de uma barafunda, um pandemônio ou um caótico picadeiro.

Para que venha a ser sentido o gostinho do que seja este picadeiro caótico, senhor leitor, eis que toques picantes são para que o paladar perceba o mundo como guisado avesso a mixórdias insípidas.

Lúcia Maria, indubitavelmente a mais sorridente das filhas, reina no lar que o marido instituíra para ela oferecer martírios, onde o jardineiro teme os dentes de leão dispersados pelo noroeste, onde os pitadaços das cozinheiras são justificativa para irem pra rua, onde a garagem tem vagas para ele, para ela e pros novíssimos carros de Ana Beatriz e Ana Catarina, as netinhas mais queridas do Doutor Agripino.

Uma vez que nem filhos Dália Cristina tem, anime-se, senhor leitor, vibre estarrecido ao pegá-la empurrando um carrinho de bebê; todavia, ao vê-la uniformizada, inteirinha de branco e fantasiando-se uma babá, pasme-se, demonstre o choque que pode tão bem atarantá-lo.

Chocada está Dália Cristina, pela confirmação de que a fofoca não é falsa, pois, estacionado diante do edifício onde Belinha mora, o SUV pertence ao filho de uma égua, àquele “marido certo”.

Para não ser desmascarada feito babá e para ter o que respaldá-la caso necessite chantageá-lo, ela os fotografa.

Como é difícil manter-se acima de suspeitas, o amante da babá de Ana Beatriz e Ana Catarina, pelas fotos no celular da Belinha, sabe que a burguesinha que deprecia as tolices da vida burguesa é outra a ser amaciada.

ꟷ Embora a formosura desta flor seja inferior à sua, minha doce e gentil Branca de Neve, aceite-a.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de agosto de 2025.


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