quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Criança feliz

 

Criança feliz

 

Lavando a alface, Claudiomiro não acha direito o que houve, porque foram inverdades o que disseram. Cortando o tomate, o pior é que nem quiseram ouvir o seu lado. Lacrimejando, os olhos vermelhos, não parou de cortar o tanto de cebola que gosta de ter na salada, ele queria ser escutado pelo que realmente acontecera.

A poça aos pés da mesa não era porque urinara, foi um acidente, o seu braço esbarrou no jarro de água, foi porque ficou empolgado e não porque fosse invejoso.

Quem delatou não passa de um oportunista. Quem acatou o que foi relatado sem checar a verdade cometeu uma injustiça. Quem tem que pagar pelo que não fez é ele, Claudiomiro, agora desempregado.

Ele não era o responsável pelo camarim bagunçado, só não soube dizer não no instante em que houve constrangimento. Não foi ele quem falou que não era errado brincar com as roupas. Se a estrela da peça vestiu-se como se aquilo fosse divertido, Claudiomiro foi logo pegando o vestido de noiva.

Mas não lhe deram a chance de falar que dançou uma valsa com o galã, uma vez que ele insistiu, ele foi mesmo um cara insistente, tanto que rodopiaram de rosto coladinho.

Se o sujeito disser que se beijaram, teria sido um beijo técnico, pois o Claudiomiro nunca escondeu que gosta da mulher, que ama os filhos, que está economizando porque pretende levar a família à praia quando puder dirigir o carro que seja seu.

Apesar da revolta, já que as pessoas o impediram de contar que ele até tentou deixar tudo como tinha de estar, com os vestidos, os sapatos e os chapéus, cada item em seu lugar, mas Claudiomiro foi arrastado pro bar.

O que o desviou de agir certo foi ir beber.

A prioridade de um homem é não fazer desfeita, ainda mais quando juram que irão pagar a conta. Por isso, Claudiomiro foi para o bar sem sequer ter tirado o chapéu usado pela noiva da peça.

Sem que ninguém o fizesse parar, o cara achou de explicar como a história ia sendo contada com as sobreposições de realidade, memória e alucinação. Era importante dizer o quanto o texto era atual, porque o autor tinha sido genial ao desmascarar a caretice da época.

Uma vez que a nenhum deles sobreviesse a vontade de controlar-se, eles beberam cervejas e caipirinhas, comeram salsichas, e ficaram nisso até que o dia clareou.

Como se a noite tivesse sido mais uma noite de vigilância sem nada de incomum, às oito horas de cada dia, o Claudiomiro chegou.

Circunstância atípica para a hora, ele a procurou.

Sentindo o bafo, certa de que a coisa desandaria, ela achou melhor deixá-lo dormir. E teriam de ter, mais tarde, uma boa conversa, porque homem quando é responsável não age assim.

Ele queria sonhar, pois nenhuma criança tem que se preocupar, tão logo acorde, de procurar outro serviço.

Que sorte a sua, Claudiomiro, já que você não almoça sozinho, pois a embriaguez dessa felicidade ímpar veio à mesa consigo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de agosto de 2025.

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