Lavando a alface, Claudiomiro não acha
direito o que houve, porque foram inverdades o que disseram. Cortando o tomate,
o pior é que nem quiseram ouvir o seu lado. Lacrimejando, os olhos
vermelhos, não parou de cortar o tanto de cebola que gosta de ter na salada,
ele queria ser escutado pelo que realmente acontecera.
A poça aos pés da mesa não era porque
urinara, foi um acidente, o seu braço esbarrou no jarro de água, foi porque
ficou empolgado e não porque fosse invejoso.
Quem delatou não passa de um
oportunista. Quem acatou o que foi relatado sem checar a verdade cometeu uma
injustiça. Quem tem que pagar pelo que não fez é ele, Claudiomiro, agora
desempregado.
Ele não era o responsável pelo camarim
bagunçado, só não soube dizer não no instante em que houve constrangimento. Não
foi ele quem falou que não era errado brincar com as roupas. Se a estrela da
peça vestiu-se como se aquilo fosse divertido, Claudiomiro foi logo pegando o
vestido de noiva.
Mas não lhe deram a chance de falar que
dançou uma valsa com o galã, uma vez que ele insistiu, ele foi mesmo um cara
insistente, tanto que rodopiaram de rosto coladinho.
Se o sujeito disser que se beijaram,
teria sido um beijo técnico, pois o Claudiomiro nunca escondeu que gosta da
mulher, que ama os filhos, que está economizando porque pretende levar a
família à praia quando puder dirigir o carro que seja seu.
Apesar da revolta, já que as pessoas o
impediram de contar que ele até tentou deixar tudo como tinha de estar, com os
vestidos, os sapatos e os chapéus, cada item em seu lugar, mas Claudiomiro foi
arrastado pro bar.
O que o desviou de agir certo foi ir beber.
A prioridade de um homem é não fazer
desfeita, ainda mais quando juram que irão pagar a conta. Por isso, Claudiomiro
foi para o bar sem sequer ter tirado o chapéu usado pela noiva da peça.
Sem que ninguém o fizesse parar, o cara achou
de explicar como a história ia sendo contada com as sobreposições de realidade,
memória e alucinação. Era importante dizer o quanto o texto era atual, porque o
autor tinha sido genial ao desmascarar a caretice da época.
Uma vez que a nenhum deles sobreviesse a
vontade de controlar-se, eles beberam cervejas e caipirinhas, comeram
salsichas, e ficaram nisso até que o dia clareou.
Como se a noite tivesse sido mais uma
noite de vigilância sem nada de incomum, às oito horas de cada dia, o Claudiomiro
chegou.
Circunstância atípica para a hora, ele a
procurou.
Sentindo o bafo, certa de que a coisa desandaria,
ela achou melhor deixá-lo dormir. E teriam de ter, mais tarde, uma boa conversa,
porque homem quando é responsável não age assim.
Ele queria sonhar, pois nenhuma criança tem
que se preocupar, tão logo acorde, de procurar outro serviço.
Que sorte a sua, Claudiomiro, já que você
não almoça sozinho, pois a embriaguez dessa felicidade ímpar veio à mesa consigo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de agosto de 2025.
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