quinta-feira, 21 de agosto de 2025

(quase) todo mundo no sofá

 

(quase) todo mundo no sofá

 

Precisei sair, tinha que ir à praça, deitar-me na grama. Levantei-me do sofá e vim. Tinha que fechar os olhos, a ouvir pombas arrulhando. Precisava de ficar longe daquele fuzuê, queria entender o que brotou de repente. Eu queria rir, sem véus, do súbito da casmurrice.

Apoquentado, desacorçoado, achando de desarrochar-me, queria o riso. Como rosa desabrochada, achei por bem haver-me expulsado de casa. Embora o desejo sujeite-me a obscuridades, vim-me.

Vim deitar na grama. Deitado, fiquei ouvindo as pombas, tentando ignorar quem passava perto. Embora não tivesse vindo disposto a ficar escutando as pessoas, ainda que falassem do café, que subiu, de uma semana pra outra, mais do que tinha subido em um semestre, continuei deitado.

Fiquei de olhos fechados, mas nada melhorou. Não consegui ouvir só notícias boas. Isso não me pôs surdo às críticas de quem sabia que o preço do café aumentaria por causa do tarifaço, dos sacos enchendo depósitos, dos grãos estocados nos silos, dos fazendeiros a negar um cafezinho cheiroso a quem viesse visitar.

De olhos fechados, fiquei sem ouvir que o mundo vai melhorar.

Sem dar com a razão, eu estava sem tomar café desde que acordei.

Precisava de cafezinho, achava ser preciso. Quiçá pelo gostinho de passá-lo, pois talvez eu saboreasse gostoso o sol na pele, para que a cachola ficasse ligada, ativa, reativa, mais bem acordada.

Acorde, Seu Rodrigues. Hoje é domingo. É dia de deixar desligada a tevê. É dia de lavar os cachorros. Domingo, Seu Rodrigues, é dia de ficar em silêncio, apreciar a solidão, manter-se alheio ao preço do café, conservar-se equidistante de quem se preocupa que seu celular esteja desligado desde manhã.

E a tevê passa Santos X Vasco.

A minha casa está tomada, ocupada por gente que me estima e me quer bem; ainda que, agora, comigo deitado de olhos fechados, ainda que eu, agorinha mesmo, perceba-me que sou uma pessoa repulsiva, tóxica, que não mereço sequer o golinho de café que me faz falta, sigo deitado na grama, continuo tomando sol.

Seu Rodrigues, que pessoa graciosa você se acha, hein?

Sem ligar que o vissem escapando, saiu-se. Sem que importasse o andamento do jogo, arrepiou-se. Sem que a gente passando o notasse abobalhado, simpático à própria bobeira, sorri.

Fazia sol. Era domingo. Escondido a céu aberto, gostava de rir-se.

Simpático, neste instante, é admitir que Clarice Lispector tem razão ao avisar: não confundir bobos com burros.

Já reparou que o burro, por ser burro mesmo, dispara se pôr à frente da carroça, independentemente de levinha ou pesadíssima?

Foi oportuno o impulso de ir à praça? Pois, claro.

Dando que tenha vindo à praça por não ter isenção pra sopesar as fumaças da cachola, torcendo para que o tolo continue sobrepondo-se ao burro, legal foi ter preferido pegar sol a cochilar no sofá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de agosto de 2025.


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