Sendo crônica marxiana, você vai rir da
minha sensatez.
O causo, porém, começa enervante, pois
meu pug, que tem ouvidos apuradíssimos para todo e qualquer ruído, fazia estardalhaço.
O danado latia dando intervalos, então a
fonte não era uma barata, esse ser afeito a desespero estrambótico quando em decúbito
dorsal. Latia com ritmo, descartando-se que fosse um camundongo a ringir em aversão
neurótica a outro naco de parmesão no gatilho da ratoeira.
Tanto latia que o pesadelo passou a ser meu,
por minha dificuldade em desligar o alarme. Tanto eram irritantes esses latidos
que, possuído pela cachorra a encorpar o aborrecimento, acordei que seria inevitável
despertar mesmo com o telefone desligado.
Sem abrir os olhos, pedi que parasse. Relutando
em sair de debaixo das cobertas, implorei que viesse deitar-se. Em sendo ignorados
meus repetidos apelos, sucumbi àquela precisão, de que teria de ir encontrá-lo.
Entendendo-me forçado a sair da cama, liguei
o celular para checar as horas. Eram três e vinte de uma madrugada a sete graus.
Precisado de acalmar-me pra convencê-lo a acalmar-se, que eu demorasse a dar
com o meu adorável baderneiro.
E fui. Atravessei o corredor. Verifiquei
o escritório. Enganei-me com o banheiro. Retornei pelo corredor. Verifiquei a
sala. Enganei-me com o lavabo.
Foi na cozinha que nos entendemos, pois foi
ali que o meu adorável encrenqueirinho deu comigo de chinela na mão.
Eu poderia me divertir com aquilo, pois ele
não latia para a torneira que pingava, ele latia para os pingos caídos na tigela.
Eu poderia ser razoável, pois ele não latia a cada gota que batia na água da
sua tigela. À vera: a cada batida daquela água glacial no focinho, ele reagia.
Defendo-me que eu poderia ter escutado
algum daqueles pingos se eu não tivesse a necessidade de dormir em berço
esplêndido, mas eu tomei a dose porretíssima do sonífero, os dois comprimidos.
Na noite seguinte, todavia, achei que
seria melhor eu tomar quatro pílulas de calmante.
Ferrou!
Pedi que ligassem. Supliquei que
chamassem. Que fossem bater à porta de casa tão logo tivessem notícia do seu
paradeiro, já que o meu companheirinho estava desaparecido.
De fato, Marx, o seu sumiço era devera
angustiante, desesperante, asfixiante. Tanto era perturbador que foram os seus
latidos, Marx, que me deram fôlego de persistir em chegar a você.
Ora, diachos!
Que desalmado o teria posto na casa da
árvore? Que desgraçado teria feito tamanha barbaridade com o coitadinho?
Como a propriedade é monitorada por câmeras,
fui ver a gravação. Assombrei-me com a revelação do que eu vi.
As imagens eram cristalinas: quem deixou
o pobrezinho na varanda da casa da árvore não era outra pessoa a não ser eu.
O que se supõe que posso ter aprendido
com esta história?
Sonâmbulo descalço, eu só tinha mesmo que
acabar resfriado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de agosto de 2025.
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