terça-feira, 19 de agosto de 2025

Fumaça

 

Fumaça

 

Ontem experimentei ficar, o dia todo, sem café.

Pra não arranharem a minha matraca, a fatia de pão integral e duas bolachinhas de banana desceram com o préstimo do substancialmente terroso fruto do São João, aquela água bem limpinha.

À tarde, repeti o procedimento: bebericando aquela água com gosto de barro, as bolachas e o pão desceram redondo.

Às portas da noite, a abstinência apresentou-se-me feito morgação e uma dor de cabeça bem chatinha.

O mais chato, porém, foi a sensação de desajuste.

Viver à beira de um colapso faz a amargura subir à boca, mas ficar longe das redes sociais faz vagarosos os minutos.

Quando a lentidão vigora, eis-me uma pessoa rigorosa.

No rigor de pensar-me por mim, compreendo a bajulação, sinto-me idiota ao macaquear quem despreza a submissão.

Justamente civil, ponho gosto em tagarelar em pensamento, dou ao silêncio a aura de decantar as sobras que me são assombrosas, faço a memória vagar, sou canoa na correnteza, os braços remam, a língua sente a terra no rio e, para vagar e divagar com o temor de afogar-me, ponho jacarés à espreita.

À margem deste instante, recordo os anos 80, recordo-me daqueles loucos anos 80, recordo que era o louco que se viu desarvorado pelas formigas de Mário Cesariny de Vasconcelos, não tenho saudade desse que fez descobertas, amo-me pela revelação de que a realidade já não bastava, amo quem fui pela pessoa que sou, amo-me e, por me amar na pessoa que acredito ser, sofro. Uma vez que o passado liberta-me na pessoa que podia me julgar culposo em eu ser quem gosto de achar que tenho me permitido ser, calo-me.

Sinto a mão de papai pesar no meu ombro.

Tal embaraço é manha do embusteiro, redivivo na soberba do rapaz que, na malandragem dos seus dezoito anos, achava-se em condições de escrever um romance.

Atraído pelo barulho da máquina, querendo ver quem datilografava, o pai entrou no escritório que era seu.

Sem pedir, o homem pega as folhas sobre a escrivaninha, lê o título e o pseudônimo adotado pelo filho, Eduardo Gonçalves, e, debochado, lê em voz alta: PRÊMIO NESTLÉ DE LITERATURA BRASILEIRA.

Experiente escrivão da polícia civil, ele enumera os absurdos lidos na primeira folha: se era noite, não poderia ter sol, mas, vá lá, filho, se morássemos no norte da Europa, seria coerente que o Sol brilhasse às vinte e três e cinquenta e nove.

Dirigindo-se às estantes, a retórica do entojado diz:

ꟷ O senhor Eduardo Gonçalves terá conhecimento de Poe, Tolstói, Turguêniev? Deus! Saberá de Aliocha Karamazov?

Mal ele saíra, o moço abanou suas brasas, pois tinha o que mostrar, queria dar-lhe as passagens em que surgiam o alicate contra as unhas, o martelo contra os dedos ou os cabos na genitália do subversivo.

Recordando-se da lixeira, o peso do senhor meu pai não se dá pela ausência da mão sobre o ombro, dá-se pelo charuto apagado que não diz nada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de agosto de 2025.

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