Ontem experimentei ficar, o dia todo,
sem café.
Pra não arranharem a minha matraca, a
fatia de pão integral e duas bolachinhas de banana desceram com o préstimo do
substancialmente terroso fruto do São João, aquela água bem limpinha.
À tarde, repeti o procedimento: bebericando
aquela água com gosto de barro, as bolachas e o pão desceram redondo.
Às portas da noite, a abstinência
apresentou-se-me feito morgação e uma dor de cabeça bem chatinha.
O mais chato, porém, foi a sensação de
desajuste.
Viver à beira de um colapso faz a
amargura subir à boca, mas ficar longe das redes sociais faz vagarosos os minutos.
Quando a lentidão vigora, eis-me uma
pessoa rigorosa.
No rigor de pensar-me por mim, compreendo
a bajulação, sinto-me idiota ao macaquear quem despreza a submissão.
Justamente civil, ponho gosto em
tagarelar em pensamento, dou ao silêncio a aura de decantar as sobras que me
são assombrosas, faço a memória vagar, sou canoa na correnteza, os braços
remam, a língua sente a terra no rio e, para vagar e divagar com o temor de
afogar-me, ponho jacarés à espreita.
À margem deste instante, recordo os anos
80, recordo-me daqueles loucos anos 80, recordo que era o louco que se viu desarvorado
pelas formigas de Mário Cesariny de Vasconcelos, não tenho saudade desse que
fez descobertas, amo-me pela revelação de que a realidade já não bastava, amo
quem fui pela pessoa que sou, amo-me e, por me amar na pessoa que acredito ser,
sofro. Uma vez que o passado liberta-me na pessoa que podia me julgar culposo
em eu ser quem gosto de achar que tenho me permitido ser, calo-me.
Sinto a mão de papai pesar no meu ombro.
Tal embaraço é manha do embusteiro, redivivo
na soberba do rapaz que, na malandragem dos seus dezoito anos, achava-se em
condições de escrever um romance.
Atraído pelo barulho da máquina,
querendo ver quem datilografava, o pai entrou no escritório que era seu.
Sem pedir, o homem pega as folhas sobre
a escrivaninha, lê o título e o pseudônimo adotado pelo filho, Eduardo
Gonçalves, e, debochado, lê em voz alta: PRÊMIO NESTLÉ DE LITERATURA
BRASILEIRA.
Experiente escrivão da polícia civil,
ele enumera os absurdos lidos na primeira folha: se era noite, não poderia ter
sol, mas, vá lá, filho, se morássemos no norte da Europa, seria coerente que o
Sol brilhasse às vinte e três e cinquenta e nove.
Dirigindo-se às estantes, a retórica do
entojado diz:
ꟷ O senhor Eduardo Gonçalves terá
conhecimento de Poe, Tolstói, Turguêniev? Deus! Saberá de Aliocha Karamazov?
Mal ele saíra, o moço abanou suas brasas,
pois tinha o que mostrar, queria dar-lhe as passagens em que surgiam o alicate
contra as unhas, o martelo contra os dedos ou os cabos na genitália do
subversivo.
Recordando-se da lixeira, o peso do
senhor meu pai não se dá pela ausência da mão sobre o ombro, dá-se pelo charuto
apagado que não diz nada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de agosto de 2025.
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