quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Felicidades afins

 

Felicidades afins

 

O rapagão exige respeito, que aquilo não se deve fazer a quem não é bandido, a quem trabalha, que ele veio comprar os mantimentos que a mãe tinha pedido, embora o segurança esteja fazendo seu trabalho, pelo qual recebe pagamento, o rapagão cujos murros nocauteariam o funcionário mais baixo, mais fracote e muito a fim de retirá-lo sem ficar com olho roxo, nariz quebrado ou costelas trincadas, ele, o brutamonte enraivecido, sabe que é preciso reagir, tem de acusar, deve denunciar a agressividade, porque preconceito é violência, que ele está no direito de negar, justamente aos gritos, pois a barra de chocolate enfiada na cintura, debaixo da camiseta, nem o agrada, porque é 75% amargo e, caraca!, quem é que gosta de chocolate que não seja ao leite?

Há um final feliz, pois a barra está de volta à gôndola.

Os rapazes que pesam as frutas e os legumes riem, porque, assim como foi mais cedo, esta será outra tarde de gente se descabelando, fazendo drama por ninharia. Mas o bom da coisa toda? Ressaltam eles que o segurança age sem nunchaku, soco-inglês, cassetete ou sequer o discretíssimo 22, pois, profissa, ele até acha desnecessário aspergir água benta no boquirroto, basta bufar.

Eis outro final feliz, pois o camarada pode orgulhar-se de seguir no bico hoje, amanhã e enquanto, sabidamente, gozar da sua boa-fé.

Como bom fuxiqueiro, digo à funcionária que ouvi o escarcéu sem identificar quem era o protagonista, ela, como boa colega que julga ser, diz que o agente da segurança fez bem de não encarar o encrenqueiro, pois os olhos baixos foram uma benção, transmitiram serenidade, tanto que o rapaz parou de gritar e, certamente achando ridícula a situação, começou a choramingar.

Outro final feliz, uma vez que a moça do caixa não sente embaraço por ignorar-se abençoada pela graça da sua ingenuidade.

Ingênuo na minha inocência de cidadão que acredita em tudo o que me dizem, saio do supermercado, vou descendo a rua quando vejo que a pessoa sentada nos degraus do prédio onde funcionou a Telesp vai meneando a cabeça enquanto um senhor fala e dá tapinhas nos seus ombros.

Ao passar pelos dois, o homem grisalho despede-se do outro, este, finalmente o reconheço, é quem, há pouco, gritava e gesticulava, e fez questão de não comer a barra de chocolate, pois 100% amara.

Me informa o Luisinho que o sujeito está numa maré infernal: a sua esposa retornou à casa da mãe porque, não bastasse as páginas dele estarem entulhadas de comentários desrespeitosos e intimidantes, as redes sociais dela estão sob igual persecução criminosa.

Mais outro final feliz, pois, encobrindo o rosto com as mãos, a vítima de homonímia imperfeita opta por chorar ao concluir que só lhe resta procurar um cartorário para que lhe seja trocado o ‘i’ pelo ‘e’, tal qual o sobrenome daquele famigeradíssimo togado brasiliense.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de agosto de 2025.

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