Eu ia pelo calçadão da orla de Praia
Grande, dois ou três anos antes da Covid-19, quando acabei decepcionando quem me
interpelou, pois eu não era, e continuo não sendo, o Pondé.
Na TV, o filósofo exibe uma barbona que me
faz tomá-lo por profeta bíblico, mas, naqueles dias, ele costumava usar uma
barba de uns dias sem fazer e, antes como agora, calçar tênis All Star, o que eu
também costumava usar e calçar.
Veio a pandemia, o distanciamento social
foi-me deprimente, tanto foi que virei um lastimável leitor de revistas velhas.
Nos consultórios de psiquiatra e psicólogo, fui aconselhado a estabelecer
rotinas. Passei a caminhar no calçadão diariamente, uma hora por dia. Adotei uma
rotina nova, tão nova que a cabeça estressada precisou de ir-me adaptando devagarinho.
Foi desmamando sem empolgação que eu passei a bater cartão em boteco uma vez
por semana, uma vez quinzenalmente, até chegar a uma vez por mês. Equivoco-me, parei
em 2019. Em maio. Foi um ano antes das restrições sanitárias. Parei e sigo sem
beber desde então. Já não uso a barba de uns dias sem fazer, adotei o
cavanhaque. Continuo fiel à marca Converse, pois valorizo tênis cuja fôrma não
me aperreie. Tenho calos, em cada mindinho. Não os cito pra me justificar, que
já não caminho uma hora por dia. Bato perna. Saio de casa quase todo dia. Vou a
banco, a supermercado e à farmácia.
Maravilha! Ainda que as novidades aporrinhem,
não bebo.
Aos domingos, saio passear com os cães.
Sem querer voltar, passo diante de um, de um segundo, de um terceiro, são
tantos os bares que passo e sigo sem pressa. Tenho que passear os meus cães. E
isso me alegra. Tanto apraz que nem me apresso. Não me aperreia ir parando. Meus
cães e os vira-latas não me aborrecem. Eles latem e cheiram-se. Até os
automóveis, os poucos que circulam, não me são aflitivos.
Sem estresse. Entro que nem tranco a
porta. Tudo bem se aparecer visita. Talvez tragam bolo. E domingo é bom para
bolo, suco e debate. Também é ótimo para falar pelos cotovelos. Claro! Sendo
bom escutar, calar-se é melhor. Talvez venha quem se entusiasme com um assunto
e não com outro. É coisa boa ter uma conversinha que não faça a gente
engasgar-se. Ou querer tomar banho. Até porque chegará o momento de lembrar-se
de que amanhã vai ser segunda-feira.
Estou vendo TV. Anunciam que Jaguar
morreu. Puxa vida, a notícia me entristece. Desligo a TV. A TV desligada não
desvia o pensamento, que o cartunista bebeu piscinas. Deu em cirrose. E câncer
no fígado. Confesso que bebi, ele escreveu.
Sinto que preciso fazer algo. Faço a
barba. Tiro o cavanhaque. Meu rosto não é nenhum bumbum de bebê. Tenho rugas e
pés de galinha.
E essa agora! Será meu desejo querer um
chopinho?
Já que eu não sou nenhum Buda, a moça sequer
se contém:
ꟷ Caraca! A carequinha do senhor é tão
gostosa de alisar.
Ah sim! Larguei a boina em casa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de agosto de 2025.
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