terça-feira, 26 de agosto de 2025

Domingo antalógico

 

Domingo antalógico

 

Eu ia pelo calçadão da orla de Praia Grande, dois ou três anos antes da Covid-19, quando acabei decepcionando quem me interpelou, pois eu não era, e continuo não sendo, o Pondé.

Na TV, o filósofo exibe uma barbona que me faz tomá-lo por profeta bíblico, mas, naqueles dias, ele costumava usar uma barba de uns dias sem fazer e, antes como agora, calçar tênis All Star, o que eu também costumava usar e calçar.

Veio a pandemia, o distanciamento social foi-me deprimente, tanto foi que virei um lastimável leitor de revistas velhas. Nos consultórios de psiquiatra e psicólogo, fui aconselhado a estabelecer rotinas. Passei a caminhar no calçadão diariamente, uma hora por dia. Adotei uma rotina nova, tão nova que a cabeça estressada precisou de ir-me adaptando devagarinho. Foi desmamando sem empolgação que eu passei a bater cartão em boteco uma vez por semana, uma vez quinzenalmente, até chegar a uma vez por mês. Equivoco-me, parei em 2019. Em maio. Foi um ano antes das restrições sanitárias. Parei e sigo sem beber desde então. Já não uso a barba de uns dias sem fazer, adotei o cavanhaque. Continuo fiel à marca Converse, pois valorizo tênis cuja fôrma não me aperreie. Tenho calos, em cada mindinho. Não os cito pra me justificar, que já não caminho uma hora por dia. Bato perna. Saio de casa quase todo dia. Vou a banco, a supermercado e à farmácia.

Maravilha! Ainda que as novidades aporrinhem, não bebo.

Aos domingos, saio passear com os cães. Sem querer voltar, passo diante de um, de um segundo, de um terceiro, são tantos os bares que passo e sigo sem pressa. Tenho que passear os meus cães. E isso me alegra. Tanto apraz que nem me apresso. Não me aperreia ir parando. Meus cães e os vira-latas não me aborrecem. Eles latem e cheiram-se. Até os automóveis, os poucos que circulam, não me são aflitivos.

Sem estresse. Entro que nem tranco a porta. Tudo bem se aparecer visita. Talvez tragam bolo. E domingo é bom para bolo, suco e debate. Também é ótimo para falar pelos cotovelos. Claro! Sendo bom escutar, calar-se é melhor. Talvez venha quem se entusiasme com um assunto e não com outro. É coisa boa ter uma conversinha que não faça a gente engasgar-se. Ou querer tomar banho. Até porque chegará o momento de lembrar-se de que amanhã vai ser segunda-feira.

Estou vendo TV. Anunciam que Jaguar morreu. Puxa vida, a notícia me entristece. Desligo a TV. A TV desligada não desvia o pensamento, que o cartunista bebeu piscinas. Deu em cirrose. E câncer no fígado. Confesso que bebi, ele escreveu.

Sinto que preciso fazer algo. Faço a barba. Tiro o cavanhaque. Meu rosto não é nenhum bumbum de bebê. Tenho rugas e pés de galinha.

E essa agora! Será meu desejo querer um chopinho?

Já que eu não sou nenhum Buda, a moça sequer se contém:

ꟷ Caraca! A carequinha do senhor é tão gostosa de alisar.

Ah sim! Larguei a boina em casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de agosto de 2025.

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