Meu coração tem sangue, mas não há
sangramento por uma paixão solitária. Quando alguém espirra, o sangue, indo e
vindo, segue no seu fluxo. Indo e vindo por aí, o que me espanta é saber que tem
oxigênio no meu sangue. Só não me arrisco a afirmar que esteja na quantidade
necessária ou o espirro teria justificação, sendo resposta à falta.
A pessoa que espirra tem oxigênio no
coração, indo e vindo, só que ela tem outras preocupações. Que é guardar a
caixa de fósforos junto com o pacote de velas. Que é pôr toalha de banho na
bacia com água, já que é inverno, é época de mato inflamável. Que é esconder a
caixa de fósforos para que o moleque da casa, com ares de cientista, vá pôr
fogo no mato seco. A pessoa que espirra considera o fogo que sobe e desce no
corpo uma preocupação a menos, pois a toalha de banho na bacia também ajuda a
tornar inúteis os fósforos.
O moleque da casa, que sobe e desce do
telhado, solta, e não fuma, a pipa. Ele nunca ouviu falar no Azerbaijão, nunca
comeu caviar, nunca soltou pipa comendo milho, sequer se importa que tenham posto
fogo no mato seco. O moleque da casa não fuma e não bebe, embora suba e desça
do telhado como se os fósforos e as velas estivessem fora do alcance dos
desejos. Que é queimar a prova de inglês, que é contar os segundos da palma da
mão em cima da vela, que é acender a fogueira para que o milho pipoque sobre a
folha de alumínio.
Para não dar chilique, não cair no
pânico, não cair fulminada por um piripaque, a pessoa que espirra sabe que o ar
da sala de espera segue na mesma, com oxigênio suficiente para que os demais
não morram e não tenham quaisquer pensamentos a respeito do perigo de morrer na
sala, embora haja um copo ao lado do cacto.
O moleque da casa lembra que a mãe tem
sessão, mas o psiquiatra não sabe que os fósforos e as velas estão acessíveis,
que o moleque ainda não achou o que fazer. Que ele podia queimar matinhos e
tentar fumá-los. Que ele, tragando matinho, poderia visitar o Azerbaijão. Que poderia
se levantar do chão depois de ter caído do abacateiro, embora a fumaça fosse a
causa da dor de cabeça, das escoriações antes da queda, de ter desmaiado.
Se soubesse do moleque, dos fósforos e
da queda do abacateiro, o psiquiatra saberia o que fazer. Que seria comer um
x-salada ou seria lamentar-se de que os pacientes fumem, embora afirmem que
tenham superado esse apego.
O moleque dos fósforos sabe que a mãe fuma
no quintal, enquanto molha a terra, enquanto se assegura de que o chão batido
não levante a poeira, enquanto ache um absurdo a fuligem vir do mato seco, pois
ignora que o moleque da casa tenha feito o fogo, mesmo porque, indo e vindo nos
pulmões dele, tamanho amor afeta-lhe o equilíbrio.
Hiperventilando, o moleque bate-se na
testa e tira a roupa.
Ele, cuja mãe está na terapia, em tratamento
há meses, a fumar no divã, é ele que acha bom ajustar-se: eu sou apenas o esposo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de agosto de 2025.
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