Sou parado por um senhor.
Quiçá o sujeito queira comentar a
conquista do Liverpool; quiçá eu diga que tive uma boa noite de sono.
A paradinha é por cautela, pois um homem
e uma mulher discutem sobre quem é mais estúpido: o homem que não quer ceder ou
a mulher que exige passar à frente por não ter um carrinho cheio, posto que
veio comprar só uma água sanitária.
O senhor que ainda nem disse uma palavra
e eu que nem comecei a papear somos dois felizardos, pois não carregamos
cestinhas cheias nem trajamos a camisa verde-amarela da seleção.
Como felizes têm olhos leves, os nossos
olhares sorriem: como eles são patriotas, estes canarinhos raivosos que se
biquem.
Sendo assim leve, feliz e sorridente, a
minha mente se deixa poluir pela polarização, pois, com a merda sendo feita, em
vez do ventilador, eletrizou-me um pensamento inquietantemente conservador: o
embate entre ela e ele ganhará tons mais virulentos se um dos fraticidas
estiver envergando a suposta nova camisa vermelha do escrete nacional.
Como mansos de coração com horror a
energúmenos, dispostos a um papinho ameno, tomamos distância do pandemônio.
Embora o diabinho em mim deseje brincar,
não aposto que o senhor ouse ridicularizar a fiel torcida, porque vestir a
camisa do Timão depois de ter sido surrado de quatro pelo Mengão é para
corintiano acima de uma reles suspeita.
Sem mais, o camarada argumenta:
― Ficou sabendo que o Ancelotti vai sair
do Real? Ele vindo, quero ver se vai dar conta do estrelismo do elenco. Vai
precisar ter peito para não virar um cordeirinho. Esses caras pensam que são os
melhores do mundo, mas faz vinte e três anos que não levantamos a Copa.
― Já fez o cálculo? Outro dia eu vi o
óbvio: antes de vencermos na Suécia, foram quatro copas; depois do tri no
México, foram cinco taças; desde o penta no Japão, são seis copas sem levantar
o caneco; então, é lógico: seremos hexa em 2026.
O senhor não parece irritado. Mesmo que
pareça estar ouvindo, ele não demonstra interesse. Tão logo me calo, vêm mais
argumentos:
― Não é boa ideia contratar um técnico
estrangeiro, porque ele virá pelo prestígio de treinar os pentacampeões. Quem
tem que comandar o nosso esquadrão é quem jogou na Espanha, jogou em time
grande e foi campeão. O melhor técnico pra melhor seleção do mundo é quem fala
português, sabe das nossas manhas e dará jeito na rapaziada.
Só consigo balançar a cabeça, ora
aprovando, ora duvidando, mas o entusiasmado nem percebe a diferença.
― Se o Coringão tomou um vareio, então,
quem tem que comandar o país é o Filipe Luís, pois ele é gente nossa e tem
gabarito para marcar um golaço histórico.
Cúmplice da sua inocência, também não
digo que o tolo acredita no que pensa seja o otário levado a acreditar no que
dizem que pensa, eu até lacrimejo:
― Hexa! Seremos Hexa! Engula essa! Engula
essa, Trump! Vamos ser Hexa! Hexa!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de abril de 2025.
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