terça-feira, 29 de abril de 2025

A última palavra

 

A última palavra

 

Sou parado por um senhor.

Quiçá o sujeito queira comentar a conquista do Liverpool; quiçá eu diga que tive uma boa noite de sono.

A paradinha é por cautela, pois um homem e uma mulher discutem sobre quem é mais estúpido: o homem que não quer ceder ou a mulher que exige passar à frente por não ter um carrinho cheio, posto que veio comprar só uma água sanitária.

O senhor que ainda nem disse uma palavra e eu que nem comecei a papear somos dois felizardos, pois não carregamos cestinhas cheias nem trajamos a camisa verde-amarela da seleção.

Como felizes têm olhos leves, os nossos olhares sorriem: como eles são patriotas, estes canarinhos raivosos que se biquem.

Sendo assim leve, feliz e sorridente, a minha mente se deixa poluir pela polarização, pois, com a merda sendo feita, em vez do ventilador, eletrizou-me um pensamento inquietantemente conservador: o embate entre ela e ele ganhará tons mais virulentos se um dos fraticidas estiver envergando a suposta nova camisa vermelha do escrete nacional.

Como mansos de coração com horror a energúmenos, dispostos a um papinho ameno, tomamos distância do pandemônio.

Embora o diabinho em mim deseje brincar, não aposto que o senhor ouse ridicularizar a fiel torcida, porque vestir a camisa do Timão depois de ter sido surrado de quatro pelo Mengão é para corintiano acima de uma reles suspeita.

Sem mais, o camarada argumenta:

― Ficou sabendo que o Ancelotti vai sair do Real? Ele vindo, quero ver se vai dar conta do estrelismo do elenco. Vai precisar ter peito para não virar um cordeirinho. Esses caras pensam que são os melhores do mundo, mas faz vinte e três anos que não levantamos a Copa.

― Já fez o cálculo? Outro dia eu vi o óbvio: antes de vencermos na Suécia, foram quatro copas; depois do tri no México, foram cinco taças; desde o penta no Japão, são seis copas sem levantar o caneco; então, é lógico: seremos hexa em 2026.

O senhor não parece irritado. Mesmo que pareça estar ouvindo, ele não demonstra interesse. Tão logo me calo, vêm mais argumentos:

― Não é boa ideia contratar um técnico estrangeiro, porque ele virá pelo prestígio de treinar os pentacampeões. Quem tem que comandar o nosso esquadrão é quem jogou na Espanha, jogou em time grande e foi campeão. O melhor técnico pra melhor seleção do mundo é quem fala português, sabe das nossas manhas e dará jeito na rapaziada.

Só consigo balançar a cabeça, ora aprovando, ora duvidando, mas o entusiasmado nem percebe a diferença.

― Se o Coringão tomou um vareio, então, quem tem que comandar o país é o Filipe Luís, pois ele é gente nossa e tem gabarito para marcar um golaço histórico.

Cúmplice da sua inocência, também não digo que o tolo acredita no que pensa seja o otário levado a acreditar no que dizem que pensa, eu até lacrimejo:

― Hexa! Seremos Hexa! Engula essa! Engula essa, Trump! Vamos ser Hexa! Hexa!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de abril de 2025.

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