terça-feira, 1 de abril de 2025

O bom doutor

 

O bom doutor

 

“É um teste, não é? Estão querendo saber o quanto eu consigo ficar parado, o quanto eu aguento ficar sendo observado, não é isso? Como aguento, querem saber até quando suportarei ficar sem que me façam algum pedido? Quando explodir, irritado com esses mal-agradecidos que passam sem ligar para minha pessoa, será que eu gritarei, eu darei as costas, eu lascarei um tapa ou o quê?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é pessoa a ser vista sem que a abordem com solicitações, seja de caixão à criança morta por dengue, seja para capinar o mato na frente da creche.

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é homem de dispensar atenção, ainda assim, envaidecem-no que a ele incomodem, o procurem por ajuda, socorro, pela misericórdia de uma palavra.

“Por que testar alguém que nem eu, uma pessoa de trato fácil, gente procurada pelas virtudes? Pois não sabem da minha infinita tolerância a ouvir quem venha com explicações sobre conta de luz atrasada? Que sou eternamente grato pela sinceridade de gente que se justifique por não ter votado em mim, mas espera que lhe pague um quilo de arroz? Para que confirmar que sou generoso, atencioso e sensível?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é gente que finge a alegria de satisfazer alguma vontade, ele atende e sorri na foto, ao ser abraçado, ao lhe darem tapinhas no ombro, ao apertarem a sua mão, ainda que o cumprimentem com mão suada, com unhas sujas de terra, com camiseta encardida, com uma boca de dentes podres.

“Pesquisa desse naipe não revela a má intenção? Isso não confirma que sou popular? Não querem, no fundo, medir a minha popularidade? No fundo, não estão preocupados comigo? Não estão querendo saber a quem estou pensando em apoiar nas próximas eleições?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não vota à toa.

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não transparece que se candidatará, uma vez que está convicto da vitória, está certo de que a sua campanha será barata, está feliz por não precisar mexer em nenhum dos seus investimentos, está aberto que o incomodem.

“Será que o povo precisa que gente de fora venha confirmar que eu sou perfeccionista em tudo o que faço? Será que esses terceiros estão conscientes do benefício que me proporcionam? Porque estou unido à gente que vive na nossa cidade, será que percebem que me gabo de ser pessoa séria? Será que não veem que priorizo e hei de priorizar as necessidades da nossa gente, mesmo num período de eleição?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é outro filho do filho do filho do filho do filho de político, no seu sangue vaga o germe da boa esperança, suas sístoles e diástoles fazem circular os melhores elementos que a natureza humana já haja produzido.

O político não é doutor para dar dois reais à toa.

“Dois real é pro pão, hein!”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de abril de 2025.

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