domingo, 6 de abril de 2025

Aquele truque

 

Aquele truque

 

Mal apresentaram a proposta, o mais articulado dos apressadinhos, reputado gênio, foi logo negando que a sua ideia estivesse pronta; por hábito desse humilde criador, ela foi dita como esboço a ser trabalhado pelo grupo, pois ele, a destacá-lo como o mais modesto dos criadores, era apenas mais um membro criativo na equipe de criação.

Ouviram-no. Entreolharam-se.

Pelas palavras terem soado ajustadas, próprias à reputação de ser pessoa genial, a ideia foi tomada como boa, muito boa, ela merecendo, aliás, ser chancelada ideia excelente.

Certa da vergonha a tocá-la, por acaso amuada, a segunda pessoa mais articulada era também a mais reativa; diante da condescendência de sempre nesses olhares, tendo em vista que à segunda pessoa não convinha confirmar a personalidade aceita como evidente, a segunda ideia poderia ser ridícula, o mais que alcançasse fazê-la ridícula.

Sendo uma pessoa pouco dada a gracejos, a sua ideia fez rir e toda gente riu-se, pois era ideia inesperada, era muito mesmo.

A primeira pessoa que teve a primeira ideia foi a primeira a abraçar a segunda pessoa, pois a segunda pessoa foi a primeira pessoa a fazer rir todo mundo que estava na reunião, e isso era sensacional, uma vez que a primeira pessoa, tanto quanto as demais, foi surpreendida pela primeira ideia incontestavelmente ridícula.

Mesmo sendo uma segunda ideia, tomaram como a primeira a ser desenvolvida, esmiuçada, reelaborada, examinada uma, duas, tantas vezes quanto fossem necessárias, até pararem de rir.

Depois de tanto riso por compreendê-la ridícula, sem ninguém a se sentir propenso a rir-se ao ouvi-la, a segunda ideia foi declarada como sendo uma terceira ideia.

A sério, ouviram-na. A sério, entreolharam-se.

A primeira pessoa que teve a primeira ideia sentia-se incomodada, porque ela queria que o debate criativo fosse retomado.

A primeira pessoa trocou as palavras da terceira ideia, para que ela fosse deixada atrás, para que soasse tão ridícula como a segunda ideia, sem que ela, a terceira ideia sob roupagem nova, fosse tomada como uma volta à segunda ideia, ambas sendo ridículas.

A primeira pessoa queria que ouvissem a terceira ideia como sendo uma quarta. Portanto, debatessem-na rindo, zombando das palavras, ridicularizando, sem meandros ou à deriva, já que ideias puxam ideias, bem como a graça faz rir.

Rindo, não se compreenderam menos aflitos nem mais felizes.

A quarta ideia não era a segunda em outras vestimentas?

Sem cortarem o riso, a precisarem reprimir as aflições, as pessoas reunidas concluíram que uma quinta ideia surgiria.

Ágil para achar pomba na cachola, o idiota desencantou.

De imediato, percebendo-a maravilhosamente ridícula, todo mundo ficou eufórico, porque o bico, as penas, as asas, os arrulhos e as fezes faziam a quinta ideia ser bem a primeira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de abril de 2025.

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