Mal apresentaram a proposta, o mais articulado
dos apressadinhos, reputado gênio, foi logo negando que a sua ideia estivesse
pronta; por hábito desse humilde criador, ela foi dita como esboço a ser
trabalhado pelo grupo, pois ele, a destacá-lo como o mais modesto dos
criadores, era apenas mais um membro criativo na equipe de criação.
Ouviram-no. Entreolharam-se.
Pelas palavras terem soado ajustadas, próprias
à reputação de ser pessoa genial, a ideia foi tomada como boa, muito boa, ela merecendo,
aliás, ser chancelada ideia excelente.
Certa da vergonha a tocá-la, por acaso amuada,
a segunda pessoa mais articulada era também a mais reativa; diante da
condescendência de sempre nesses olhares, tendo em vista que à segunda pessoa
não convinha confirmar a personalidade aceita como evidente, a segunda ideia poderia
ser ridícula, o mais que alcançasse fazê-la ridícula.
Sendo uma pessoa pouco dada a gracejos,
a sua ideia fez rir e toda gente riu-se, pois era ideia inesperada, era muito
mesmo.
A primeira pessoa que teve a primeira
ideia foi a primeira a abraçar a segunda pessoa, pois a segunda pessoa foi a
primeira pessoa a fazer rir todo mundo que estava na reunião, e isso era
sensacional, uma vez que a primeira pessoa, tanto quanto as demais, foi
surpreendida pela primeira ideia incontestavelmente ridícula.
Mesmo sendo uma segunda ideia, tomaram
como a primeira a ser desenvolvida, esmiuçada, reelaborada, examinada uma, duas,
tantas vezes quanto fossem necessárias, até pararem de rir.
Depois de tanto riso por compreendê-la
ridícula, sem ninguém a se sentir propenso a rir-se ao ouvi-la, a segunda ideia
foi declarada como sendo uma terceira ideia.
A sério, ouviram-na. A sério,
entreolharam-se.
A primeira pessoa que teve a primeira
ideia sentia-se incomodada, porque ela queria que o debate criativo fosse
retomado.
A primeira pessoa trocou as palavras da
terceira ideia, para que ela fosse deixada atrás, para que soasse tão ridícula
como a segunda ideia, sem que ela, a terceira ideia sob roupagem nova, fosse
tomada como uma volta à segunda ideia, ambas sendo ridículas.
A primeira pessoa queria que ouvissem a
terceira ideia como sendo uma quarta. Portanto, debatessem-na rindo, zombando
das palavras, ridicularizando, sem meandros ou à deriva, já que ideias puxam
ideias, bem como a graça faz rir.
Rindo, não se compreenderam menos
aflitos nem mais felizes.
A quarta ideia não era a segunda em
outras vestimentas?
Sem cortarem o riso, a precisarem
reprimir as aflições, as pessoas reunidas concluíram que uma quinta ideia surgiria.
Ágil para achar pomba na cachola, o
idiota desencantou.
De imediato, percebendo-a maravilhosamente
ridícula, todo mundo ficou eufórico, porque o bico, as penas, as asas, os
arrulhos e as fezes faziam a quinta ideia ser bem a primeira.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de abril de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário