domingo, 20 de abril de 2025

As janelas

 

As janelas

 

Dizem que os olhos são a janela da alma. Digo que o olhar dá janela ao que o mundo mostra. Escrevo, pois quero dar a ver como a alma do mundo passa por mim. Eu sigo escrevendo à contraluz do que vejo, à contraluz do que não se rebela, à contraluz de mim, pelo embaraço de mal perceber o quanto atrapalho a visão.

Tenho olhos míopes. Preciso de óculos para melhor enxergar a dois palmos de mim. Conto que as lentes especificamente polidas para as distorções dos meus olhos corrijam o que a natureza produz.

Sou produto da genética que a natureza tornou-me possível de ser. Mas, não me reduzo nem me quero reduzido aos frutos naturais que a mim foram delegados quando houve a minha concepção.

Não culpo os meus pais pelos genes que me legaram, afinal o amor não seleciona melhores nem piores momentos, não traça destinos, não conhece o joio pelo trigo e vice-versa.

Semeio-me, produzo-me e concebo-me ser essa pessoa que pensa sobre o que vê, diz o que parece ver, escreve porque custa ver.

Ora, poeta, como filho do carbono e do amoníaco, sou operário das ruínas. Por vezes sou augusto, jamais, porém, angelical. A construção a que me dedico não subirá ao céu, não desabará ao menor sopro nem sepultará quem rompa o fio da meada. Se me julgam monstro por não agir que nem guia num labirinto, Augusto, eu posso pouco.

Quando a cegueira é obra de insânia momentânea, sei arrefecer a paixão que cativa: dou óculos à razão.

À janela, vejo que a rua está molhada. Abro-a, e sinto o frio da tarde, o ventinho é gelado. Para sentir a garoa, estico os braços, espalmo as mãos e, molhados, os meus dedos ficam gelados. Pra não deixar o frio da garoa enregelar-me, eu fecho a janela.

Quando é elegante checar os dentes do cavalo dado?

Não acho absurdo haver menos gente nas ruas, pois, além do frio, é feriado, é outra Sexta-Feira da Paixão garoenta.

Me lembro, foi nos anos 90. Me recordo muito bem. É claro que não me esqueci daquela Sexta-Feira Santa, pois eu bebi, batuquei sambas e dancei com mulheres que sabiam dançar para caramba. Mas, o dono do carro não tirou a frente do som e, sem notar a chave no contato e a janela aberta do motorista, um ladrão estilhaçou o vidro do carona.

Agora estou na USP, é primeiro de abril de 1988, é mais uma Sexta-Feira Santa, é outra manhã garoenta, gelada, com ruas desimpedidas, com um ciclista ou outro pela Cidade Universitária. Ando estudando o teatro de José Joaquim de Campos Leão, é uma época em que estou concentrado nas peças do Qorpo-Santo; a biblioteca da ECA, é óbvio, está fechada. No ponto, uma mulher senta-se ao meu lado. Ela trouxe seu gato para ser examinado, pois ele não está comendo nada, faz três dias que esse bicho esquisito não brinca com a franja da cortina nem mia mesmo chamado pelo nome. Também é Sexta-Feira da Paixão no Hospital Veterinário.

Veja bem, mesmo hoje, tem cortina que convida à janela.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de abril de 2025.


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