Dizem que os olhos são a janela da alma.
Digo que o olhar dá janela ao que o mundo mostra. Escrevo, pois quero dar a ver
como a alma do mundo passa por mim. Eu sigo escrevendo à contraluz do que vejo,
à contraluz do que não se rebela, à contraluz de mim, pelo embaraço de mal
perceber o quanto atrapalho a visão.
Tenho olhos míopes. Preciso de óculos
para melhor enxergar a dois palmos de mim. Conto que as lentes especificamente
polidas para as distorções dos meus olhos corrijam o que a natureza produz.
Sou produto da genética que a natureza tornou-me
possível de ser. Mas, não me reduzo nem me quero reduzido aos frutos naturais que
a mim foram delegados quando houve a minha concepção.
Não culpo os meus pais pelos genes que
me legaram, afinal o amor não seleciona melhores nem piores momentos, não traça
destinos, não conhece o joio pelo trigo e vice-versa.
Semeio-me, produzo-me e concebo-me ser essa
pessoa que pensa sobre o que vê, diz o que parece ver, escreve porque custa ver.
Ora, poeta, como filho do carbono e
do amoníaco, sou operário das ruínas. Por vezes sou augusto, jamais,
porém, angelical. A construção a que me dedico não subirá ao céu, não desabará ao
menor sopro nem sepultará quem rompa o fio da meada. Se me julgam monstro por
não agir que nem guia num labirinto, Augusto, eu posso pouco.
Quando a cegueira é obra de insânia
momentânea, sei arrefecer a paixão que cativa: dou óculos à razão.
À janela, vejo que a rua está molhada.
Abro-a, e sinto o frio da tarde, o ventinho é gelado. Para sentir a garoa,
estico os braços, espalmo as mãos e, molhados, os meus dedos ficam gelados. Pra
não deixar o frio da garoa enregelar-me, eu fecho a janela.
Quando é elegante checar os dentes do cavalo
dado?
Não acho absurdo haver menos gente nas
ruas, pois, além do frio, é feriado, é outra Sexta-Feira da Paixão garoenta.
Me lembro, foi nos anos 90. Me recordo
muito bem. É claro que não me esqueci daquela Sexta-Feira Santa, pois eu bebi, batuquei
sambas e dancei com mulheres que sabiam dançar para caramba. Mas, o dono do
carro não tirou a frente do som e, sem notar a chave no contato e a janela
aberta do motorista, um ladrão estilhaçou o vidro do carona.
Agora estou na USP, é primeiro de abril
de 1988, é mais uma Sexta-Feira Santa, é outra manhã garoenta, gelada, com ruas
desimpedidas, com um ciclista ou outro pela Cidade Universitária. Ando
estudando o teatro de José Joaquim de Campos Leão, é uma época em que estou
concentrado nas peças do Qorpo-Santo; a biblioteca da ECA, é óbvio, está
fechada. No ponto, uma mulher senta-se ao meu lado. Ela trouxe seu gato para
ser examinado, pois ele não está comendo nada, faz três dias que esse bicho
esquisito não brinca com a franja da cortina nem mia mesmo chamado pelo nome. Também
é Sexta-Feira da Paixão no Hospital Veterinário.
Veja bem, mesmo hoje, tem cortina que convida
à janela.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de abril de 2025.
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