A velha está no bar. Se estivesse em
casa, fazendo tricô, seria outra história; até sem graça, seria outra daquelas
histórias da qual a gente sai com uma lição.
Com a velha num bar, não se presuma que advirá
um aprendizado. À revelia do narrador, caso venha à luz um final edificante, ele
virá por descuido, como se tapetes precisassem ser puxados.
Para o impacto não causar trauma, e
funcionar mais como pasmo, ainda que nem provoque o estupor do queixo caído, a
velha não pode estar fora do balcão.
Atrás do balcão, sim, pois ela não é mais
uma pinguça, dessas que tagarelam, achando-se perfeitamente compreendidas,
embora falem a língua dos embriagados.
Como não bebe, ela não fala quando não
precisa. Ainda que outros peçam que intervenha, ela só se manifesta quando acha
indispensável que a sua autoridade ganhe corpo.
Precisando falar, ela fala grosso. Sem
tibiezas frente aos beberrões que aporrinham de quando em quando, ela é quem
manda na birosca. Por haver-se firme nas suas decisões, os marmanjos barbados
sabem que é inegociável a decisão de manter-se sóbria.
Poderíamos designá-la hipócrita, e
cometeríamos injustiça, pois ela não é velhaca a ponto de ir beber uma
cachacinha em outro bar. Se a criticássemos por pagar as contas vendendo bebida
alcoólica, também praticaríamos velhacaria.
Ela sabe quantas ressacas lhe foram
necessárias para nunca mais botar uma gota na boca. Ela é quem sabe a dor de
sentir a falta quando dos tremores incontroláveis. Quem se viu obrigada a
aprender a jamais saborear uma gotinha foi ela, portanto cabe a ela, e tão
somente a ela, não esquecer as náuseas vividas.
Demônio espertinho não agrada só com um
copo, oferece a garrafa. Com dois dedos de caninha, pede que seja brindado o
momento. Pela esperança de um dia menos estafante, brinde-se. Pelo instante em
que a confiança sobrepuja a soberba, não são as doses que secam o litro, é a
lubricidade.
A velha do bar entende os impulsivos.
Por sua língua ter explorado as bocas que quis, ela se reconhece contida. Se
confidenciam paixões, cobra apenas pelas doses servidas. Quando teimam em
pagar-lhe um trago, ela compartilha uma história.
Na parede atrás do balcão há uma
prateleira, nela estão as imagens de Nossa Senhora Aparecida e São Jorge e
entre elas fica uma garrafa de Velho Barreiro.
Por manter esta garrafa à vista de
todos, a velha não deixa os copos emporcalharem a pia. Sem ver a garrafa, acha engraçado
quando um fiado lhe é pedido, uma vez que só o papo é fiado.
Cadê a história?
Como o marido esqueceu, ela tratou de ir
comemorar o aniversário no bar mais perto da sua casa.
Por não ter dado um dedo da bebida que pagou
com o dinheiro que era seu, dois chumbados trocaram sopapos e um morreu apunhalado.
Sem olhar pra trás, ela adormeceu
abraçada à garrafa; justo aquela, que sempre a faz recordar-se daquele causo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de maio de 2025.
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