Ao abrir a porta, o cheiro era de café
acabado de passar. O segundo estranhamento foi arrepiar-se pelo ar em
temperatura muitíssimo mais baixa que os quinze ou dezesseis graus da rua. Bem fez
em sentir que havia coisa errada, tinha um desconhecido na sua poltrona.
― Quer pipoca?
Sem resposta, o senhor sentado tirou o
chapéu, coçou o cocuruto, os dedos foram pente, cobriu-se outra vez; olhou-o,
coçou o queixo.
― Gente bêbada que nem você não tem
frio?
Não tinha como estar com frio, usava
coturno. Os fios de barba não estavam eriçados, até se lembrou do abóbora das
meias. Incomodado com a observação despropositada, enfiou as mãos nos bolsos,
porque não sentia frio algum. Vestia camiseta de mangas longas sobre outra, de mangas
curtas. O suéter de lã estava sob a jaqueta de couro, cujos botões não a
fechavam, deixando exposto o gogó.
― Você acredita que pode dominar a
empolgação?
Ao encará-lo por mais de um segundo, o
sujeito sumiu.
Efeito da barriga vazia, certamente. Mesmo
que o olhar vidrado de mais de um segundo indicasse o tanto de hidrofobia, uma pessoa
com chapéu não se desmaterializa. O chapéu haveria de restar, ainda mais sendo
um típico chapéu de pescador, rústico, de palha, aba grande.
― Pensa que lhe fiz um agrado ao coar o café?
O barulho vinha da cozinha, era de
micro-ondas ligado; tinha o som dos segundos regredindo, o do prato rodando, o da
pipoca estourando dentro do saco.
― Cachaceiro acha melhor não comer nada?
Deu a descarga. Olhou-se no espelho do
armarinho. Apertou na pia o tubo de pasta, jogou o tubo pelo vitrô; um cachorro
latiu. Na verdade, a realidade ainda vigorava. Urinou na mão, e o mijo era quente.
― Você jura que a vida não é nenhum pesadelo?
O que viu no espelho era coisa de
alucinado: o homem tinha topete; o chapéu sumira; o topete era abóbora; o chapéu
nem virou fumaça.
― Vai resistir a um golinho de bourbon?
O cheiro era de fio queimado. Tinha que
achar o que estava dando curto. A prioridade era acabar com o curto. Tinha que evitar
que a casa pegasse fogo. A prioridade era desligar o ar condicionado. O cheiro
era nauseante, era mesmo de revirar o estômago.
― Num gole, consegue matar o copo desse
uísque?
Deu a descarga. Lavou a boca.
Gargarejou. Enxaguou a boca. Sem antisséptico para jogar pelo vitrô, escarrou;
o cachorro latiu.
― Tem a audácia de recusar café e
pipoca?
Acende o abajur. Olha embaixo da cama. O
homem de topete está deitado de costas, tem as mãos cruzadas sobre o peito.
Apaga o abajur. Sente algo esquisito. O
chapéu do homem deitado de mãos cruzadas sobre o peito veio parar na sua
cabeça, o que o faz sentir-se leve, pois a bebedeira o faz querer dormir de
chapéu.
Com o homem debaixo da cama roncando, fica
comprovado que o universo do sonho comunica-se com a realidade, ou a cachorrada
da vizinhança estaria latindo para venezianas e vitrôs fechados.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de abril de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário